Gramado: Cristiane Oliveira, grife de delicadeza

Gramado: Cristiane Oliveira, grife de delicadeza

Rodrigo Fonseca

19 de agosto de 2021 | 14h04

A cineasta Cristiane Oliveira nos sets

Rodrigo Fonseca
No páreo pelo troféu Kikito do 49º Festival de Gramado, o drama “A Primeira Morte de Joana”, espécie de inventário dos assombros da adolescência, vem consolidando o prestígio internacional de uma especialista nas angústias da juventude: a diretora gaúcha Cristiane Oliveira. Egressa dos curtas “Messalina” (2004) e “Hóspedes” (2009), ela viu seu longa de estreia, “Mulher do Pai” (2016) – recém-chegado à plataforma digital MUBI – ganhar ainda mais relevância ao ser selecionado para a mostra Geração da Berlinale 2017. No www.mubi.com, ela está na companhia de medalhões, pois a curadoria da plataforma multinacional, pilotada no Brasil por Juliana Barbieri, inclui Wong Kar Wai, de Agnès Varda, de Spike Lee, Márta Mészáros e Olivier Assayas. A estrada internacional de Cristiane aberta nas telonas e na streaminguesfera por uma história de reeducação sentimental – vivida pela adolescente Nalu, interpretada por Maria Galant, cheia de conflitos com seu pai cego, encarnado por Marat Descartes – agora está se expandindo, com a carreira mundial, já bastante aquecida, de seu novo longa, hoje em concurso no mais popular dos festivais brasileiros. Desde janeiro, a realizadora de Porto Alegre vem correndo o planeta com sua recente produção, exibida em janeiro no 51º Festival Internacional da Índia, em Goa. No dia último 17 de abril, a produção conquistou o Global Vision Award no Festival Cinequest, nos EUA.
No roteiro, escrito pela diretora e pela atriz Sílvia Lourenço, Joana, 13 anos, quer descobrir por que sua tia-avó faleceu aos 70 sem nunca ter namorado alguém. Ao encarar os valores da comunidade em que vive no sul do Brasil, percebe que todas as mulheres da sua família guardam segredos, o que traz à tona algo escondido nela mesma. Na entrevista a seguir, Cristiane fala sobre esse universo juvenil, majoritariamente masculino.

“A Primeira Morte de Joana” é um dos sete longas-metragens em competição em Gramado

O que a tua Joana espelha do processo de amadurecimento de uma jovem e o quanto das lutas atuais das mulheres, no âmbito da equidade de gêneros, faz-se valer nessa maturação?
Cristiane Oliveira:
Joana espelha nosso estranhamento ao perceber, desde cedo, que somos tratadas diferentemente dos homens, em alguns aspectos. Joana não se contenta com respostas fáceis para suas questões. Os jovens precisam ter acesso à informação qualificada para uma educação sobre cidadania íntima – nossos direitos e responsabilidades em relação ao nosso corpo e ao corpo do outro, aos nossos afetos e afetos do outro. Para todas as faixas etárias há informações adequadas, para nos tornarmos, aos poucos, adultos conscientes sobre essas questões, para um maior respeito à diversidade. Só com informação é que conseguimos nos prevenir contra a violência e os preconceitos. E a escola é um ambiente em que essas violências se expressam. Por isso, acredito que os professores brasileiros precisam ser apoiados a trabalharem essas questões em sala de aula, uma visão de educação mais abrangente, que já ocorre em diversos países, como Holanda e Suécia, entre outros.

Seu cinema abarca a noção de “interior” em vários prismas, da geografia física à geografia afetiva. O que esse intimismo toma emprestado dos cenários, do espaço?
Cristiane Oliveira:
Quando eu crio o universo de um roteiro, cada objeto, cada paisagem, cada local é uma maneira de falar mais sobre o mundo interior dos personagens sem palavras. Seus significados podem ser vistos em diferentes perspectivas, de acordo com o espectador e mesmo de acordo com a formação de cada personagem. Eles adicionam camadas à história e criam aberturas para a mente do espectador mergulhar no filme. No caso do “A Primeira Morte de Joana”, a mata virgem, as lagoas e o vento são forças da natureza do local que interferem de forma dramática na trama. O vento constante da região atraiu a usina eólica que lá se instalou em 2006 e aparece no filme. Ele é como o sentimento de Joana, uma força incontrolável, que busca acolhimento para poder se expressar.
Há muito MUITO de Céline Sciamma (de “Tomboy”) no teu filme, seja ou não uma referência direta. A que tradição você se reporta, com que tradição você dialoga?
Cristiane Oliveira:
Céline, Lucrécia Martel, Alice Rohrwacher, Dorota Kedzierzawska são diretoras inspiradoras, que têm alguns filmes que abordaram a intimidade de personagens jovens. Gosto muito de ver outros filmes com temáticas semelhantes enquanto pesquiso para o desenvolvimento do roteiro. Então, em algum momento, títulos delas cruzaram as conversas de nossa equipe ao criar “A Primeira Morte de Joana”. Mas cito também o primeiro filme do Roy Andersson, “A Swedish Love Story”, que é muito diferente das suas últimas obras, pois é um trabalho mais de observação de jovens na faixa etária das personagens do nosso filme. Mostrei esse filme às atrizes Letícia e Isabela, que vivem as duas amigas de 13 anos, para que se permitissem vivenciar as cenas no tempo delas, sem medo dos planos longos, dando a elas a segurança de que nossa câmera iria respeitar seus gestos, seus respiros, seus tempos. Os diálogos também escrevi junto com elas, comentava sobre as situações e conversávamos sobre como elas reagiriam. Reescrevi o roteiro, com as palavras delas, e só depois disso entreguei impresso a elas. Gosto muito de criar junto com os atores.

Nesta quinta-feira, a disputa pelo Kikito enverada pelo universo literário de Lourenço Mutarelli com a adaptação de “Jesus Kid” feita por Aly Muritiba. No sábado serão conhecidos os eleitos do júri, formado pela editora de som Catarina Apolonio, o ator Fabrício Boliveira, a produtora Ana Paula Mendes, a atriz Carol Castro e o cineasta Tabajara Ruas.
As sessões de Gramado rolam no Canal Brasil, às 21h30, e no Canal Brasil Play.

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