Gramado embarca na gôndola poética de ‘Veneza’

Gramado embarca na gôndola poética de ‘Veneza’

Rodrigo Fonseca

22 de agosto de 2019 | 09h40

Rodrigo Fonseca
É noite de “Veneza” em Gramado: o festival gaúcho, que termina neste sábado, recebe nesta quinta a nova imersão do Dionísio brasileiro, Miguel Falabella, no universo do cinema, como diretor de uma fábula romântica sobre companheirismo, que promete levar lirismo e poesia à briga pelo Kikito. Há décadas, Pedro Almodóvar nos comprovou que, nas telas, o binômio do lírico com o poético atende pelo nome de Carmen Maura. E ela é a protagonista desta volta do diretor de teatro, dramaturgo, ator, escritor e eterno Caco Antibes ao posto de cineasta, onze anos depois de “Polaróides urbanas” (2008).  Antes da projeção do longa de Falabella, as telas de Gramado confere o curta “Sangro” (SP), de Tiago Minamisawa, Bruno Castro e Guto BR

“Existe um anjo da guarda muito forte, que me ajuda em tudo. E existe uma facilidade em imaginar, que vem desde que sou criança. Esse anjo me levou ao Miguel”, disse Carmen Maura ao Estadão nos sets.

Miguel Falabella durante as filmagens no Uruguai (fotos de Mariana Vianna)

Mito espanhol consolidado em filmes almodovarianos geniais como “A Lei do Desejo” (1987) e “Volver” (2006), Carmen Maura foi ao Uruguai e à terra italiana das gôndolas, em nome de um pedido do cinema brasileiro, para viabilizar “Veneza”, fábula de amor, humor e lágrimas que põe o showman carioca no posto de realizador. “Miguel me abriu as portas do mundo da magia latina”, disse Carmen ao P de Pop. “Existe um lugar do fantástico no imaginário de vocês que ele potencializa aqui com seu faro fabular forte: é um diretor emotivo, que chora quando a cena sai bonita. É muito difícil pra mim fazer uma personagem cega, pois não tenho como mirar nos olhos dos demais atores e preciso da troca para atuar. Mas é uma imersão muito bonita em um texto poderoso. Miguel tem um domínio da linguagem raro”.

No projeto, com a grife da Globo Filmes, Falabella põe a maior estrela da Espanha em uma viagem onírica pelos céus da saudade. “Isso aqui é uma espécie de Amarcord de todas as minhas referências do cinema do passado, de Fellini a Tim Burton, para levar o público às lágrimas”, disse Falabella ao P de Pop durante as filmagens. “Trabalho muito na Argentina, nos teatros de lá, onde já montaram várias peças que escrevi, e pensei em ter a Norma Aleandro no papel da Gringa. Mas ela me admitiu que seus 82 anos já não são tão saudáveis e que eu deveria ter outra atriz. Foi ela quem sugeriu a Carmen. Elas têm o mesmo agente. Eu mandei o roteiro pra Carmen sem ter esperanças. Imagina trabalhar com uma estrela internacional daquelas. O roteiro chegou pra ela numa quinta. Segunda ela me ligou, dizendo: ‘El guijón es brillante. Quiero hacerlo’. Imagina a minha alegria”.

Gustavo Hadba assina a fotografia do longa

Num dia sem trânsito no Uruguai, gasta-se cerca de 45 minutos do aeroporto de Montevidéu até o set de filmagem de Veneza, de Miguel Falabella: um casarão numa região bucólica, de mata verdinha e coaxar de sapos, adereçado como se fosse um cabaré de interior, com luz vermelha, bolero na jukebox e garotas de programa compromissadas com a desesperança. Bom nem todas… Algumas das prostitutas criadas com base na peça homônima do argentino Jorge Accame – encenada por Falabella nos palcos do Rio em 2003 – sonham, inclusive a dona do bordel, Gringa, papel de Carmen.

“Como o Brasil tem um problema sério de leitura, na nossa formação, a fábula, gênero que demanda leitura, tem problemas para encontrar seu lugar em nosso cinema. Mas desde que vi a peça de Accame senti que ela pedia as telas, como fantasia”, diz Falabella.

Tendo como diretor assistente o dínamo asiático Hsu Chien, ele foi produzido por Julio Uchôa, da Ananã, empresa de respeito, responsável pelos milhões arrecadados pela franquia “SOS – Mulheres ao Mar” e pelo cult “Soundtrack” (2017). Falabella contou ainda com o aporte fino de Fernando Muniz, produtor do cultuado “Cinema Novo” (troféu L’Oeil d’Or em Cannes, em 2016). Com o empenho desses dois produtores, “Veneza” teve cenas rodadas na cidade italiana de onde toma seu título emprestado. É lá que Gringa sonha acertar as contas (leia-se reatar uma velha paixão) com o único homem que a amou de verdade. Mas ela acabou roubando o sujeito. O dinheiro do roubo bancou seu bordel… e anos de culpa. Agora, mais velha e cega, ela sonha ir pra lá de novo. E ser feliz. “Este filme tem na viagem a Veneza uma metáfora de sonho que traduz a latinidade em nós”, diz Falabella, que contou com o aclamado fotógrafo Gustavo Hadba (de “Motorrad”) como seu pilar na construção da imagem, ao lado do diretor de arte Tulé Peak e da figurinista Bia Salgado.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: