Gramado e o Edifício Coutinho

Gramado e o Edifício Coutinho

Rodrigo Fonseca

17 de agosto de 2020 | 13h14

Kikito de melhor documentário em Gramado, em 2002

Rodrigo Fonseca
Criado em 1973, no coração da ditadura militar, e reciclado pelas vias da latinidade nos anos 1990, em meio ao furacão Collor, o Festival de Gramado entra num novo casulo, o do streaminguesfera, para renascer (uma vez mais) como borboleta nesta terça, no anúncio das atrações de sua 48ª edição, agora apenas online, agendada de 18 a 26 de setembro. Nesta terça pela manhã, a partir do http://www.festivaldegramado.net/ e do site da TVE do Rio Grande do Sul, às 11h, é possível acompanhar a seleção dos títulos em concurso pelos Kikitos. O jornalista e diretor Pedro Bial, a atriz e cantora argentina Soledad Villamil e o crítico e professor de Comunicação Marcos Santuário assumem a curadoria dos longas-metragens selecionados. Vão ter prêmios honorários pra Laís Bodanzky (Troféu Eduardo Abelin) e pra Marco Nanini (Troféu Oscarito) e ainda serão anunciados o Kikito de Cristal e o Troféu Cidade de Gramado. Há um ano saíram de lá duas joias: “Pacarrete” e “Veneza”. Vale lembrar que Gramado consagrou “Toda Nudez Será Castigada” em sua inauguração e laureou clássicos como “São Bernardo” (1974) e “O Amuleto de Ogum” (1975), na ficção, e abriu alas para o prestígio de um clássico da reflexão sobre o Real: “Edfício Master”, em 2002. Cinco anos depois, Eduardo Coutinho (1933-2014) voltaria lá para buscar uma honraria pelo conjunto de sua obra e exibir “Jogo de Cena” (2007). Para a seleção deste ano, as especulações acerca dos potenciais concorrentes são enormes. Fala-se muito em “Aos Pedaços”, do mestre Ruy Guerra (que completa 90 anos em 2021) entre os competidores. Em janeiro, ele fez barulho em sua passagem por Roterdã, na Holanda, com a trama de um homem (Emílio de Mello) envolvido afetivamente com duas mulheres (Simone Spoladores e Christiana Ubach) e ameaçado de morte. Há quem fale de “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida”, de Jeferson De: um contundente estudo sobre a segregação racial. Cogita-se (e se torce para) que Kleber Mendonça Filho (de “Bacurau”) apresenta lá seu .doc sobre salas de exibição. Aposta-se também na passagem de “Todos os Mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, que dilacerou a Berlinale com sua reflexão sobre a institucionalização do racismo num Brasil da virada do século XIX para o XX, após o fim da escravidão. Ainda do Festival de Berlim poderia vir “Meu Nome é Bagdá”, da diretora Caru Alves de Souza, que venceu a mostra Geração, com seu retrato para a cena do skate em São Paulo. E existe ainda uma torcida para se ver “Casa de Antiguidades”, longa estrelado pelo mítico Antonio Pitanga, sob a direção de João Paulo Miranda Maria, selecionado por Cannes, por Toronto e por San Sebastián. Que este ano, via web, as saudades de Coutinho serão grandes… maiores do que de costume…. nem se fala.

Em 1999, ele saiu de lá com o prêmio especial do júri por “Santo Forte”, que marcou sua volta aos holofotes. Chamar Eduardo Coutinho de “o papa do documentário brasileiro” virou lugar-comum na crítica cinematográfica brasileira. Tal clichê requer uma discussão. Cineasta algum recebe “os votos” de sumo pontífice de um filão se não tiver desenvolvido uma gramática bastante personalista em sua seara narrativa. A força “gramatical” de um longa-metragem da grife Eduardo Coutinho vem da engenharia do encontro que ele vem polindo, filme a filme, desde que voltou a se expressar em tela grande, com o amparo da tecnologia digital. Consagrado com “Cabra marcado para morrer” (1964/1984), Coutinho desenvolveu, a partir do fim dos anos 1990, uma arte audiovisual que tem na palavra o combustível para realizar uma decolagem rumo aos céus da invenção. A partir de frases arrancadas na espontaneidade de um processo que substitui a entrevista pela conversação, seus filmes permitem que o espectador construa uma relação de identificação com pessoas ligadas a universos que por vezes ele desconhece. Em um fluxo contínuo de busca por sentido, sem apelar para signos que possam fechar os ângulos potenciais de informação que uma imagem filmada é capaz de comunicar, ele faz do “deixa falar” seu processo de apreensão do outro. É no choque entre a lente do diretor e o verbo do outro que nasce sua linguagem. Nem sempre ela atinge toda a força que há em latência na proposta, como aconteceu com “Peões” (2004). Mas, via de regra, o humanismo é a argamassa que erige sua obra. E “Edifício Master” é a construção onde o cinema humanista de Coutinho parece estar mais sólido. Não que houvesse uma tese prévia, orientando sua imersão em um prédio de Copacabana. Havia era um contingente rico e diversificado de homens e mulheres com muito a dizer em um espaço geográfico – um prédio residencial – em que muitos se esbarram, mas pouquíssimo interagem.

Eduardo Coutinho em foto da MUBI

Coutinho conseguiu fazer da privacidade uma caixa preta de humanidades (assim mesmo, no plural que traduz diferenças sociais, religiosas, étnicas e sexuais) a ser aberta na relação pessoal. No supracitado “Santo Forte”, filme que devolveu o diretor ao panteão dos cineastas mais referenciais do país, ele cristalizou um método que renderia projetos posteriores e inspirou numerosos colegas. Mas nesse marco zero de sua cinematografia na Retomada, havia um tema conduzindo a pesquisa: religiosidade. Em “Edifício Máster”, não. Havia uma multiplicidade de abordagens possíveis à disposição do cineasta, que jamais se limitou ao rasteiro “Como é viver em Copacabana?” em sua conversa com os moradores do edifício escolhido.
Após um elaborado trabalho de pesquisa, Coutinho entrou, porta a porta, em 27 apartamentos buscando entender o que pudesse de cada uma das vidas ali residentes. Acabou com isso trançando um rosário de desilusões, expectativas, angústias, medos e alegrias que virou celebrizou um dispositivo cinematográfico único e, aparentemente simples: o deixar contar e o fazer ouvir. Essas duas locuções verbais têm inspirado gerações de realizadores no país a partir do lançamento do filme, em 2002, lá na Serra Gaúcha, no Palácio dos Festivais de Gramado.
Laureado com uma menção honrosa em Havana, “Edifício Master” tem como charme maior algo que está na periferia de sua realização: o gato que passeia pelos corredores. Ele é uma comprovação do indomável da vida, aquela que circula pelos elevadores, pelos cantos, emn tudo o que sua câmera capta. Ali há cinema dos bons. Em Gramado também.

p.s.: A história dos bastidores de “Edifício Master” pode ser acompanhada na íntegra no livro “As Sete Faces de Eduardo Coutinho”, de Carlos Alberto Mattos, que prepara a parte dois do seminário Na Real_Virtual.

p.s.2: Entre os curtas-metragens em competição, Gramado assegurou medalhões para si, como Sinai Sganzerla (concorrendo com “Extratos”) e o animador Otto Guerra, que divide com Érica Maradona a direção de “Subsolo”.

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