Graças de Louis Garrel no brilhante ‘J’Accuse’

Graças de Louis Garrel no brilhante ‘J’Accuse’

Rodrigo Fonseca

30 de agosto de 2019 | 13h38

Louis Garrel , equipe e elenco de “J’Accuse”: o escândalo Dreyfus na tela

Rodrigo Fonseca
Revelado para o mundo como potência artística no Festival de Veneza 2003, no triângulo cinéfilo e sexual de “Os Sonhadores”, ator e diretor Louis Garrel provou nesta sexta-feira, de volta a seu berço, o Lido, ter aprendido com seu pai, Philippe, a ser leal a ideologias, a mestres e aos amigos… sobretudo quando estes estão em apuros, como é o caso de Roman Polanski. Rasgando charme, num italiano perfeito, o galã de 36 anos fez da passagem de “J’Accuse” (o melhor trabalho de Roman à direção desde “O pianista”, de 2002) pela terra das gôndolas ser menos turbulenta do que seria.

“Todo o dia eu tinha que raspar os cabelos para viver Alfred Dreyfus, o que é algo a que me apego”, disse, cheio de humor, o astro do recente “Um homem fiel”, lançado há pouco em solo brasileiro e responsável por um merecido prêmio de melhor roteiro (dado pelo júri do Festival de San Sebastián) a Garrel, que pode deixar a Itália laureado.

É comovente o desempenho dele, traduzindo a degradação física do oficial Dreyfus, cuja vida foi marcada por um complô contra judeus do qual a França se envergonha (e com razão). É desse complô que trata o tão esperado filme de Polanski. “J’accuse” foi aplaudido com fervor ao fim de sua projeção e garantiu a seu elenco e a seus produtores uma ovação quando estes adentraram a sala de coletivas. Aos 86 anos, o realizador franco-polonês não compareceu a sessão. Impedido de sair da França, onde vive, por um processo judicial derivado de uma acusação de abuso sexual de uma menor, Polanski teve seu nome apedrejado, no início do festival, por grupos feministas que condenaram a inclusão de seu filme em concurso. A própria presidenta do júri de 2019, a cineasta argentina Lucrecia Martel, revelou seu desconforto, recusando-se a ver o longa na sessão de gala, para não ter que aplaudir, ainda que simbolicamente, o realizador.

“Deixemos o que aconteceu aqui pra atrás. Que o público nos aplauda”, disse o produtor Luca Barbareschi.

Apesar dos narizes torcidos, “J’Accuse” inflamou e encantou a plateia por seu requinte visual (em especial nos rigorosos enquadramentos da fotografia de Pawel Edelman) e pelo contundente debate que abre sobre deveres, direitos e intolerâncias na Lei. Escrito por Robert Harris a partir do romance (de sua própria autoria) “An officer and a spy”, o longa revive o Caso Dreyfus: um escândalo que assolou a França no fim do século XIX. Em 1894, o oficial Alfred Dreyfus (Garrel) foi preso, sob uma falsa acusação de traição, alimentada por uma histeria antissemita no exército francês. Um ex-professor dele, o coronel Georges Picquart (vivido pelo ganhador do Oscar Jean Dujardin, de “O artista”), fará de tudo para provar que sua prisão é injusta. Seus esforços vão mobilizar o notório escritor Émile Zola (1840-1902), que escreve uma carta pública contra a postura intolerante da Justiça.

“Não sei muito explicar o que existe por trás das histórias que conto, mas conheço bem os sentimentos que existem por trás dela. O principal deles é a compreensão. Não julgo os erros, não julgo as ansiedades. Tudo isso faz parte da natureza humana. Essa foi uma das melhores lições que aprendi vendo meu pai filmando e construindo uma ótica pautada pela ética”, disse Garrel, em entrevista ao P de Pop quando as filmagens de “J’Accuse” começaram.

Entre os filmes da competição já exibidos, Veneza caiu no debate sobre sexismo com uma produção da Arábia Saudita pautada pela ironia: “The perfect candidate”, da diretora Haifaa Al-Mansour. No páreo pelo Leão também, esta crítica ao machismo narra o périplo de uma jovem médica para ser eleita a um cargo administrativo público em seu país, pautado pela intolerância. Seu roteiro é um ímã de elogios.

Veneza chega ao fim do no dia 7 de setembro, com a entrega de prêmios e a exibição fora de concurso do drama anglo-italiano “The Burnt Orange Heresy”, de Giuseppe Capotondi, com o rolling stone Mick Jagger no elenco.

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