‘Gotti’ na Looke: um Travolta injustiçado

‘Gotti’ na Looke: um Travolta injustiçado

Rodrigo Fonseca

11 de maio de 2021 | 09h09

Aos 67 anos, John Joseph Travolta começou sua carreira em 1972 e protagonizou longas controversos como “Gotti”, exibido em Cannes e escalado pra streaminguesfera

Rodrigo Fonseca
Chorou-se muito no domingo de Dia das Mães com o gesto de John Travolta, que postou nas redes sociais uma homenagem à sua mulher, a atriz Kelly Preston, morta no ano passado em decorrência de um câncer: “Querida Kelly, você trouxe para minha vida três dos filhos mais maravilhosos que já conheci. Obrigada. Nós te amamos e sentimos a sua falta”, escreveu o astro de 67 anos. Tem um ótimo thriller de suspense com ele na Amazon Prime, “A Rosa Venenosa” (“The Poison Rose”), que estreou no fim de 2020, trazendo uma investigação de um ex-craque de futebol que virou detetive. Fuçando a streaminguesfera atrás de filmes recentes do eterno Tony Manero, o P de Pop trombou com “Gotti – O Chefe da Máfia” (2018), um de seus mais polêmicos trabalhos. Tá no cardápio da plataforma digital Looke.
Marcada por muitos altos e baixos, ao longo de 49 anos de serviços prestados ao audiovisual, a carreira de Travolta, em banho maria há muito tempo, sofreu (mais) uma injusta derrapada quando ele interpretou o gângster que redefiniu a (má) popularidade da palavrinha “máfia” aos olhos da opinião pública dos EUA, às custas de muito sangue e muitas bravatas. No trailer de “Gotti”, o astro de “Embalos de sábado à noite” (1977) fala sem parar, com ou sem armas na mão, acentuado a brutalidade na voz para desenhar o comportamento boquirroto de uma figura que redefiniu a cena criminal de Nova York. Ao longo dos anos 1980, com seu jeitão espalhafatoso e seus planos mirabolantes (porém bem-sucedidos) John Gotti (1940-2002) fez do clã Gambino a mais poderosa família mafiosa dos Estados Unidos, garantindo a eles uma renda anual de US$ 500 milhões, com contrabando e tráfico. Em 2018, durante o Festival de Cannes, a cinebiografia do chefão nova-iorquino ganhou uma exibição surpresa, de carona na visita de Travolta ao balneário para promover a sessão de 40 anos de “Grease – Nos tempos da brilhantina” (1978). E, ao fim da projeção do thriller pilotado por Kevin Connolly, todo mundo correu atrás de seu protagonista, para compreender mais a maneira singular com que ele mergulhou na essência da maldade. Apesar de defenestrado por parte da crítica, sofrendo uma solene esnobada dos exibidores, “Gotti” é bem, mas beeeeeeeem melhor do que dizem. “É difícil apontar um sujeito mais controverso do que Gotti, que era muito reflexivo, mas, ao mesmo tempo, bruto, capaz de cair com o peso de um martelo na cabeça de seus adversários, a fim de manter o respeito dos Gambino, seus patrões, em alta. Era um tipo estiloso, cheio de orgulho. Minha preocupação ao fazer essa cinebiografia era que não reduzir o retrato dele à excentricidade e sim mostrar suas parcerias, começando pela mulher, Victoria, e por sua rixa com o filho, Gotti Jr., que não quer ser como o pai”, explicou Travolta em Cannes à multidão que se estapeava nos corredores do Palais des Festivals para ouvi-lo relembrar sua jornada em rumo ao estrelato, numa espécie de masterclass.

Egresso da TV, com passagens pela música (seu LP “Whenever I’m away from you” virou hit na indústria fonográfica em 1977), John Joseph Travolta – nascido em Nova Jersey há 64 anos – virou um ícone da cultura pop usando a calça boca de sino de Tony Manero, sacudindo-se ao som dos Bee Gees em “Embalos de sábado à noite”, pelo qual ele foi indicado ao Oscar de Melhor Ator em 1978. À época, o diretor francês François Truffaut (1932-1984) deu uma entrevista dizendo que Travolta era um dos atores que salvariam Hollywood da mesmice no momento em que cinema americano se voltasse para o entretenimento. Em 1995, ele foi indicado à estatueta dourada de novo por seu desempenho no papel de Vincent Vega em “Pulp fiction – Tempo de violência”. No Brasil, o ator é muito associado à voz de seu habitual dublador, Mário Jorge, um gênio de seu setor. Na versão de “Embalos…” gravada nos estúdios da Herbert Richers, nos anos 1980, Mário Jorge esbanjava vigor. O mesmo vale pra dublagem de “Grease”. Absurdamente, ambas as performances dele sumiram, uma vez que os dois longas foram redublados para TVs a cabo e streamings, num crime contra o patrimônio afetivo artístico deste país.
“Quase que sem querer, eu acabei aparecendo em filmes que mudaram a maneira como as pessoas encaram a dramaturgia cinematográfica, por meio de um tom pop. É bom fazer filmes que tiveram relevância”, disse Travolta em Cannes, ao se referir ao trabalho com Quentin Tarantino e mesmo a “Grease”, que redefiniu a lógica dos musicais nos anos 1970. “O segredo para se construir um personagem é buscar uma zona de conforto naquele papel ainda que você não tenha nenhuma conexão com aquela figura que está interpretando. Eu não me sentia à vontade, em ‘Pulp fiction’, atirando na cabeça de um jovem. Mas aquele personagem tinha aquele tipo de atitude, então você precisa entender o ethos dele e torna-lo convincente. É o mesmo caso agora diante da realidade violenta de Gotti. Talvez a única conexão entre nós seja o amor pela família”.

Orçado em US$ 10 milhões, “Gotti” traz o nome de Travolta também nos créditos de produção e, para o elenco, ele trouxe sua companheira Kelly Preston, com quem ele foi casado de 1991 até a morte dela. Os dois se conheceram nas filmagens de “Os espertinhos” (1989) e estão juntos desde então. No novo filme de Travolta, ela vive Victoria Gotti como uma figura empoderada, ciente do que seu amoroso marido representa no submundo.
Idealizado com base de filmes como “Os bons companheiros” (1990), “Gotti” tenta, segundo Travolta, buscar algo inusitado em relação ao histórico dos filmes de máfia. “Estamos diante de um homem que não tinha culpa, nem remorso. Tento não julgar meus personagens. Mas o que interessa mais em John Gotti é sua devoção aos códigos da máfia”, diz Travolta. “É um risco dar vida a um olhar de mundo no qual a ambição guia tudo. Mas a missão de um ator é correr riscos. E é uma reinvenção poder encarnar uma personalidade muito distinta da minha”.

p.s.: Não perca no BELAS ARTES À LA CARTE (@belasartesalacarte) a imperdível mostra “Volta ao Mundo: Suíça”, um festival realizado em parceria com a Swiss Film Foundation que traz filmes raros e inéditos nos cinemas brasileiros. São oito filmes, sendo seis inéditos, e dois longas clássicos do aclamado diretor Alain Tanner. Realizados por jovens diretores, em sua maioria, os filmes selecionados marcaram presença em alguns dos mais prestigiados festivais mundo afora. Confira a seleção: “”Desejo de Voar””/Mare (2020), de Andrea Staka; “O Caminho para Moscou”/“Moskau Einfach! (2020), de Micha Lewinsky; “”Espacate”/ “Spagat” (2020), de Christian Johannes Koch; “Love Me Tender” (2019), de Klaudia Reynicke; “Deserto”/ “My Little One” (2019), de Frédéric Choffat e Julie Gilbert; “Sturm” (2020), de Oliver Rihs; “Na Cidade Branca”/ “Dans La Ville Blanche” (1983) e “O Último a Rir”/ “Charles mort ou Vif” (1969), estes dois últimos dirigidos por Alain Tanner. A mostra acontece até dia 19 de maio, para assinantes do Belas à La Carte. O streaming mais legal do Brasil!!! Assinatura: R$9,90.

p.s.2: O premiado projeto Grandes Músicos para Pequenos apresenta sua segunda livezinha do ano em parceria com o Diversão em Cena. Com direção de Diego Morais e roteiro e apresentação de Pedro Henrique Lopes, o programa vai exibir, neste domingo, às 16h, o espetáculo inédito “Playground do Grandes Músicos para Pequenos” e quadros divertidos para toda a família. A livezinha vai ser transmitida no Facebook (facebook.com/DiversaoEmCena) e no Youtube da Fundação ArcelorMittal (www.youtube.com/FundacaoArcelorMittal). Num passeio pela história da música brasileira e por diferentes regiões do nosso país, o “Playground do Grandes Músicos para Pequenos” é dividido em blocos temáticos e instiga a imaginação infantil a viajar através das diversas sonoridades do Brasil. Uma hora, estamos nas montanhas de Minas Gerais embarcados em uma Maria Fumaça, depois no meio do sertão nordestino, e de lá seguimos para o Rio de Janeiro de antigamente. “A ideia é trazer o legado importante da nossa cultura para as crianças, com um conteúdo atraente para as famílias”, descreve Pedro Henrique Lopes, autor das peças do projeto. “Queremos criar experiências de entretenimento inesquecíveis e marcantes, das quais o espectador participe de forma ativa”, explica o diretor Diego Morais.

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