Golshifteh Farahani: sororidade para Marrakech

Golshifteh Farahani: sororidade para Marrakech

Rodrigo Fonseca

21 de novembro de 2019 | 09h28

Golshifteh Farahani em cena de “Arab Blues”: cidadã do mundo

RODRIGO FONSECA
Ícone da resistência feminina, famosa por papéis que driblam os clichês do sexismo e ranços culturais, a atriz iraniana Golshifteh Farahani, com 36 aninhos de vida e 21 anos de cinema no currículo, vai falar de sororidade e dignidade em meio a um time de medalhões da telona escalados pelo 18º Festival de Marrakech (29 de novembro a 7 de dezembro) para um ciclo de palestras no Marrocos. Encarado hoje como a Cannes da África, o evento é respeitado não apenas por sua seleção de filmes, mas também por seus debates. Aliás, este ano, tem Brasil no júri (Kleber Mendonça Filho) e na competição oficial (“A febre”, de Maya Da-Rin, que anda vencendo tudo, por onde passa). Vista recentemente no Brasil em “Filhas do Sol”, Golshifteh está prestes a bombar de novo em circuito internacional, agora o lado do poderoso Thor (aka Chris Hemsworth), em “Dhaka”, thriller de ação com roteiro de Joe Russo (de “Os Vingadores: Ultimato”). De 2009 para cá, ela transformou-se em uma “cidadã do mundo” no audiovisual, alternando o persa que falava em “Procurando Elly”, com filmes em Francês ou Inglês, incorporando seu olhar olivado à paisagens europeias ou americanas. Sua trajetória profissional é de fazer inveja a muita estrela veterana, com direito a dobradinhas com Jim Jarmusch (“Paterson”), Abbas Kiarostami (“Shirin”), Marjane Satrapi (“Frango com ameixa”), Ridley Scott (“Rede de mentiras”), Bahman Ghobadi (“Antes da lua cheia”), Rolland Joffé (“There be dragons”) e Rachid Bouchareb (“Simplesmente uma mulher”).
“Ego e expectativas… esses são os dois maiores inimigos de uma atriz. É preciso saber domar vaidades e trabalhar com memórias. Eu era pequena ainda quando Saddam Hussein promoveu bombardeios no Oriente Médio que levaram dezenas de pessoas à morte e assombraram o imaginário da minha infância”, disse a atriz ao P de Pop, em Cannes, ao promover “Filhas do Sol”, de Eva Husson.

Cercada de elogios em sua recente participação em “Arab Blues”, de Manele Labidi Labbé, ela diz que atuar em múltiplos cantos do planeta é uma forma de “reeducação geopolítica. Sua carreira é hoje um sinônimo vivo de inclusão cultural. “Se eu tivesse me limitado a trabalhar em Hollywood, eu só seria a terrorista, ou a vítima. Preferi outro caminho, filmando onde eu pudesse fazer alguma diferença”, diz a atriz. “Arte é o que o mundo precisa para respirar outra coisa que não o cheiro de guerra e de intolerância”.

Este ano, a seleção competitiva de longas-metragens de Marrakech terá a atriz Tilda Swinton como presidenta de seus jurados. Seu júri contará com o pernambucano Kleber Mendonça Filho, diretor de “Aquarius” (2016) e do fenômeno “Bacurau” (codirigido por Juliano Dornelles), ainda em cartaz. Além de Kleber, o time de jurados conta com as diretoras Rebecca Zlotowski (francesa) e Andrea Arnold (inglesa), a atriz franco-italiana Chiara Mastroianni, o ator sueco Mikael Persbrandt, o escritor e diretor afegão Atiq Rahimi, o realizador australiano David Michôd e o cineasta marroquino Ali Essafi. Em competição estão: “Dente de leite” (“Babyteeth”, Austrália), de Shannon Murphy; “Bombay Rose” (Índia), de Gitanjali Rao; “A febre” (Brasil), de Maya Da-Rin; “Last visit” (Arábia Saudita), de Abdulmohsen Aldhabaan; “Lynn + Lucy” (Reino Unido), de Fyzal Boulifa; “Mamonga” (Sérvia, Bósnia Herzegovina, Montenegro), de Stefan Malesevic; “Mickey and the Bear” (EUA), de Annabelle Attanasio; “Mosaic Portrait” (China), de Zhai Yixiang; “Nafi’s father” (Senegal), de Mamadou Dia; “Scattered night” (Coreia do Sul), de Lee Joh-young; “Sole” (Itália, Polônia), de Carlo Sironi); “Tlamess” (Tunísia), de Ala Eddine Slim; “The unknown saint” (Marrocos), de Alaa Eddine Aljem; e “Tantas almas” (Colômbia, Brasil), de Nicolás Rincón Gille. Estrelas como Marion Cotillard, Naomi Watts e Harvey Keitel vão passar pelo evento, que tem na celebração da memória de Redford seu principal chamariz.

p.s.: Vai ter Brasil de cabo a rabo nas seleções competitivas do Festival de Havana, agendado de 5 a 15 de dezembro. Na ficção, estamos no pareo com “Bacurau”, de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles; “Três Verões”, de Sandra Kogut; “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz; e “Divino Amor”, de Gabriel Mascaro. No documentário, a seleção nacional inclui “Cine Marrocos”, de Ricardo Calil; “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa; “Soldados da Borracha”, de Wolney Oliveira; “Casa”, de Letícia Simões; “Diz a Ela que me Viu Chorar”, de Maíra Bühler; e “Santiago das Américas ou O Olho do Terceiro Mundo”, de Sílvio Tendler. Na animação, ocupamos oito vagas. Duas são de Otto Guerra (“A Cidade dos Piratas” e “Ressurreição”). As outras de Túlio Viaro (“O Bem-Aventurado”); Amir Admoni (“Gravidade”); Giu Nishiyama (“Livro e Meio”); Tiago Minamisawa e parceiros (“Sangro”); Camila Kater (“Carne”); e Eduardo Padrão e Leandro Amorim (“Barbas de Molho”). No segmento Ópera Prima, dedicado a estreantes, temos (o já citado) “Febre”, de Maya Da-Rin, “Raia 4”, de Emiliano Cunha, e “Um Filme de Verão”, de Jô Sefarty.

p.s.2: Ganhador do troféu Redentor de melhor documentário no Festival do Rio 2013, “Tim Lopes – Histórias de Arcanjo”, de Guilherme Azevedo, vai ser exibido esta noite na Globo, no “Corujão”, às 2h40. Bruno Quintella, filho do jornalista, revê as memórias do pai, assinando um afetivo roteiro de saudades. Emílio Gallo assina a produção. Dez anos após a morte de Tim – um evento que chocou o país -, o longa procura contar outras histórias de reportagens inusitadas e causos além do jornalismo. Contém imagens de arquivo raras.

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