Goleiro da Islândia dirige o longa ‘Cop Secret’

Goleiro da Islândia dirige o longa ‘Cop Secret’

Rodrigo Fonseca

10 de agosto de 2021 | 23h45

Rodrigo Fonseca
Goleiro do Valur, um dos times de maior relevância da Europa, e da seleção islandesa, Hannes Þór Halldórsson costuma dedicar parte do tempo em que não está treinando a fazer filmes, na direção e na montagem, emplacando gols no placar da arte como se viu na terça-feira, no 74º Festival de Locarno, onde ele levou o público ao delírio com “Leynilögga”, que há de rodar o mundo com o título “Cop Secret”. Ave rara nas competições oficiais das grandes mostras do audiovisual, o cinema de ação se renova em padrões morais, cívicos e irônicos com o primeiro longa-metragem do futebolista, que parece “Duro de Matar” (1988), esbanjando adrenalina aos litros como o cult com Bruce Willis fazia. Casca grossa no combate ao crime Bússi (Auðunn Blöndal) é uma espécie de John McClane (icônico personagem de Willis) da Islândia. Mas ele tem um segredinho, em sua solitária intimidade, que o torna uma figura fraturada. A fratura dele se torna mais grave quando sua vaidade é atingida com a chegada de Hörður, um tira tão bom de mira quanto ele, porém mais pomposo, numa hilária atuação de Egill Einarsson. Tem uma conspiração terrorista no caminho dos dois, envolvendo os rumos de uma partida entre craques de Reykjavik. Mas há outros obstáculos para Bússi transpor, que são ligados ao ranço machista do Velho Mundo. A desconstrução comportamental proposta por Halldórsson, num ataque direto à homofobia, transformou essa história em um dos achados mais valiosos da curadoria de Giona A. Nazzaro, novo diretor artístico de Locarno, que chegou à Suíça disposto a renovar o septuagenário evento – e vem conseguindo.
“Hollywood é, pra mim, uma Champions League, pois eu não posso enganar vocês parecendo que sigo o circuito artístico do cinema de autor. Claro que eu vi alguns grandes filmes de maior ambição estética. E gostei do que vi. Mas eu sou um atleta profissional, que vive disso, e só faz cinema quando o técnico deixa. E ele não liga muito pra isso. Espero que as palavras gentis que tenho recebido aqui, pelo filme, cheguem até ele”, diz Halldórsson ao Estadão, lembrando que “Cop Secret” é fruto de um projeto de quase dez anos, no qual ele ensaiou um esquete para a TV sobre policiais com questões afetivas. “Nosso tema no longa é a realidade de um homem que enfrenta suas próprias emoções sob a pressão de um universo que celebra o macho men do passado”.

O goleiro Hannes Þór Halldórsson tinha dois dias da semana sem treinos para se dedicar à direção de seu primeiro longa como realizador

Compromissado com as redes para não deixar as bolas dos adversários do Valur passarem da trave, Halldórsson tinha apenas dois da semana para se dedicar às filmagens e à montagem de “Cop Secret”. Mesmo assim, dirigiu sequências de perseguição e pancadaria de deixar Vin Diesel orgulhoso. “Só que eu tive 0,003% do orçamento de ‘Velozes & Furiosos’ para filmar”, diz o esportista e cineasta. “Em Reykjavik, a polícia nem anda armada. Logo, a imagem de policiais islandeses armados até os dentes soa como uma piada pra nós. E é isso o que eu mais queria: um filme que divertisse o público do meu país. Foi uma surpresa ser convocado por Locarno, sobretudo para a competição. Pensar que esta comédia de ação possa ser saboreada e apreciada fora do meu país, abrindo uma discussão sobre orientação sexual e repressões me deixa muito feliz”.

Os policiais Bússi (Auðunn Blöndal) e Hörður, (Egill Einarsson)

Há uma boa safra espanhola em Locarno este ano, sobretudo na competição, reforçando como a pátria de Carlos Saura cresceu, tendo sido escolhida para abrir o Festival de Veneza, no dia 1º de setembro, com “Madres Paralelas”, de Pedro Almodóvar. Na terça, os ventos ibéricos deram uma aquecida no evento suíço com a projeção de “Espíritu Sagrado”, do estreante em longas Chema García Ibarra. Ele investiga a ufologia a partir de um grupo de estudiosos de óvnis cujo líder morreu faz pouco, deixando segredos. O que parecia ser uma sci-fi sobre os contatos imediatos da Península Ibérica com outras galáxias vira um filme de denúncia. Seu roteiro tem viradas inebriantes. A Espanha brilha na competição pelo Leopardo de Ouro também com uma comédia híbrida de conceitos documentais e da tal de “autoficção” chamada “Sis Dies Corrents” (ou “The Odd-Job Men” ou ainda “Os Faz-Tudo”). Com tempero catalão, o filme da diretora Neus Ballús colhe histórias de três profissionais autônomos que fazem de tudo, desde obras até bico de eletricista, numa Europa em trânsitos econômicos engarrafados, abalados pelas crises de $ no Velho Mundo. Dois desses personagens são espanhóis (e se orgulham demais disso) e um, o bombeiro hidráulico Moha, é um marroquino. Nenhum deles é ator, mas eles estão em cena atuando, recriando situações que eles viveram no passado e contaram à realizadora. Fala-se de prêmio de público e mesmo de um Leopardo qualquer, talvez o Grande Prêmio do Júri, uma vez que o longa está em concurso.
Locarno termina neste sábado, com a entrega de prêmios e a projeção de “Respect”, a biopic da cantora Aretha Franklin (1942-2018), com direção de Liesl Tommy.

p.s.: A pedagoga Regina Célia, cofundadora e vice-presidente do Instituto Maria da Penha, e a advogada Chis Oliveira, especialista na Lei Maria da Penha, participam da roda de conversa do espetáculo “Cascavel”, com as atrizes Carol Cezar e Fernanda Heras, nesta quinta-feira, às 20h30, no perfil da peça no Instagram (@cascavelapeca). Regina Célia atua como diretora pedagógica e de projetos na unidade do Instituto Maria da Penha em Recife, Pernambuco, Brasil, e criou o Programa Defensoras e Defensores dos Direitos à Cidadania (Programa de Formação no Enfrentamento a Violência Doméstica). Chis Oliveira é vítima de violência doméstica e criadora da página de Instagram Justiça pra Elas (@justicapraelas).

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