Godot manda lembranças em ‘Os Realistas’

Godot manda lembranças em ‘Os Realistas’

Rodrigo Fonseca

07 de março de 2016 | 00h08

Debora Bloch, Emílio de Mello, Fernando Eiras e Mariana Lima interpretam dois casais em crise na peça

Debora Bloch, Emílio de Mello, Fernando Eiras e Mariana Lima interpretam dois casais em crise na peça “Os Realistas”

Definido como uma versão neoploc de Samuel Beckett, o americano Will Eno, autor da verborrágica troca de oferendas ao Deus-Rancor e ao Deus-Ressentimento chamada Os Realistas, é um cronista da doença na dramaturgia contemporânea. Inflamado até 27 de março no palco do Teatro Poeira, em Botafogo – RJ, o texto pelo qual ele papou o Drama Desk Award, em 2014, numa dobradinha com o espetáculo Open House, dá a dois casais a condição de espelho das impotências da acomodação: a peste dos nossos dias. De um lado, Debora Bloch e Emílio de Mello; do outro, Fernando Eiras e Mariana Lima; no meio um diretor atento às entrelinhas metafóricas de um mal-do-séculos às avessas: Guilherme Weber, de uma maturidade singular como encenador, aplicando tudo o que colheu em suas parcerias com Felipe Hirsch.

Em Temporada da Gripe, peça pelo qual tornou-se conhecido no Brasil, Eno fazia do amor uma coqueluche incurável e contagiosa. Ali deixou claro seu desejo de virar um expert em endemias afetivas. Mas se The Flu Season era o teatro da profilaxia, um ensaio poético sobre males terminais, Os Realistas é um poema recitado sobre a zika da apatia, a dengue do conformismo. Quatro pessoas que um dia amaram muito, da qual pouco sabemos, reúnem-se em um quintal, às raias de um bosque, ao som do Abandono (e de Elvis Presley) para falar sobre a vida a dois, perdas, temores acerca da Finitude e tolerância amorosa.

Elenco fica até o dia 27 no Teatro Poeira

Elenco fica até o dia 27 no Teatro Poeira

É um parlatório sobre a incapacidade de abrirmos certas algemas, por culpa de convenções sociais, da preguiça ou de outros bichos sem nome que moram aqui dentro. Numa covalência das mais sólidas, os quatro atores equilibram seus dotes cênicos, indo do riso ao pranto, na corda bamba da perplexidade. Weber foi feliz em achar um ultrarromantismo reverso nos tempos do Presente: a evasão pela ausência… de ânimo e de utopia. Assim são seus realistas.

p.s.: Guilherme Weber está em cartaz nos cinemas em Meu Amigo Hindu, de Hector Babenco, que merece atenção por sua caracterizando do abismo de um realizador às portas da Morte. Weber também deve dar as caras no cenário dos grandes festivais mundiais com seu primeiro trabalho como cineasta: Deserto, baseado no romance Santa Maria do Circo, de David Toscana.

Swamp Thing Monstro do Pântano

p.s.2: Poucos gibis atualmente em banca tem a sofisticação de Monstro do Pântano – Todas as Histórias Têm um Fim, com o herói vegano às voltas com avatares maquínicos que trocam plantas por metal. É tensão e reflexão à altura da tradição do personagem em seus dias de Alan Moore.

Wim Wenders dirige James Franco

Wim Wenders dirige James Franco em “Tudo Vai Ficar Bem”: o mestre alemão assina um filme avassalador

p.s.3: Acho que o melhor presente dado pelo Festival do Rio 2015 aos cinéfilos foi o drama Tudo Vai Ficar Bem (Everything Will Be Fine), de Wim Wenders, que estreia nesta quinta em todo o país, com James Franco na pele de um escritor cuja vida vira do avesso após ele atropelar e matar uma criança. O mestre alemão retoma as rédeas da ficção, que havia perdido há tempos, num roteiro à altura de seus melhores longas, digno de qualquer antologia audiovisual do melodrama.

 

Tendências: