Godard no desfecho de um Festival do Rio de luta

Godard no desfecho de um Festival do Rio de luta

Rodrigo Fonseca

18 de dezembro de 2021 | 10h44

RODRIGO FONSECA
Organizada numa tríplice aliança entre Ilda Santiago, Cavi Borges e Fabrício Duque, incluindo exposição no Estação NET Rio e retrospectiva em diferentes salas, a homenagem prestada pelo 23º Festival do Rio aos 70 anos da revista “Cahiers du Cinéma” termina neste domingo com a projeção do sagrado “Pierrot Le Fou – O Demônio das 11 Horas” (1965), parte como um adeus ao ator Jean-Paul Belmondo (morto em setembro), parte como um “muito obrigado” a Jean-Luc Godard. A curadoria teve o cuidado de reunir exemplares raros do periódico encarado até hoje como a Bíblia da cinéfila e de organizar uma mostra de longas-metragens franceses que carregam em seus fotogramas as teses estéticas dos críticos da “Cahiers”. Exibido na disputa pelo Leão de Ouro de Veneza, “Pedro, o Louco”, como “Pierrot Le Fou” é chamado em telas portuguesas, será projetado neste 19 de dezembro às 21h no Reserva Cultural Niterói 4, dando espaço nobre a um dos pilares da narrativa godardiana. Capaz de evocar os feitos do casal de criminosos Bonnie Parker e Clyde Barrow, sua trama, derivada do romance “Obsession”, de Lionel White, é centrada no empenho do entediado Fernand Griffon, o “Pierrô” (Belmondo) para mudar de vida ao reencontrar uma ex-namorada, Marianne (Anna Karina), que está sendo caçada por gangsteres. A sequência em que os dois cantam “Ma Ligne de Chance” é um dos momentos mais encantadores da História do Cinema, com destaque para a era chamada de “cinemanivista”, quando Godard, François Truffaut, Agnès Varda e mais uma turma de intelectuais com aspirações de contar histórias fundou a Nouvelle Vague, um movimento de revisionismo das estratégias de narrar, a partir da percepção do filme como um processo revolucionário.
“As pessoas andam me perguntando sobre 1968, mas o que eu posso dizer desse assunto é que faço parte de um tempo no qual não se aprendia cinema em escolas, mas sim vendo filmes… às vezes os filmes mais obscuros… e tentando extrair sentido deles, isolando cada imagem”, afirmou o cineasta, ao ser premiado em Cannes com uma Palma Honorária por “Imagem e Palavra” (2018).

Em outubro de 2019, a “Cahiers du Cinéma” dedicou sua capa ao diretor suíço (nascido em Paris, em 1930) de carona na chegada de “Imagem e palavra” a um pequeno circuito francês e ao menu da Netflix. “Le livre d’image” – com cenas do clássico “Johnny Guitar” (1954), de Nicholas Ray, em seu explosivo miolo semiótico – conquistou uma Palma de Ouro Especial no Festival de Cannes de 2018. No dia 18 de setembro do ano passado, os críticos Stéphane Delorme Joachim Lepastier bateram um longo papo com o octogenário filósofo da cinemática. A dupla arranca dele reflexões sobre realizadores que merecem uma revisão (como Frank Borzage, de “Depois do casamento” e “Homens de Amanhã”) e sobre atrizes capazes de desafiar paradigmas dos códigos de naturalismo (como Adèle Haenel). E fala muito, durante a conversa, sobre dogmas da produção digital. Há três anos, em Cannes, o homem por trás de “O desprezo” (1963) concedeu uma coletiva de imprensa virtual via Facetime. Ele recusou-se a sair do pequeno escritório onde trabalha, na Suíça, e conversou com a imprensa por Skype, abrindo reflexões sobre o onipresente imperialismo do cinema americano. Enfim, é o que ele sempre fez, desde “Acossado”.
“Falam por ai que o cinema acabou, mas teve um produtor que quis me bancar e há um festival como Cannes interessado em me exibir. Talvez a presença de um filme como ‘Imagem e Palavra’ em Cannes seja apenas ação publicitaria, pois eu não sei se tem lugar para ele, e para mim, nas salas de exibição. Mas, na minha idade, o que me interessa é falar do que eu observo nos processos sociais: palavras não são um sinônimo de linguagem, pois linguagem é um conjunto de procedimentos de como empregamos signos. O problema é que as pessoas articulam esses signos sem a coragem de fantasiar o que aconteceria se as convenções fossem usadas de outra maneira. Eu faço filmes porque ainda tenho coragem”, disse o mais emblemático e polêmico representante da Nouvelle Vague.

p.s.: Com sessão neste sábado, às 20h, no Cinépolis Lagoon, onde integra a reta final da agenda do 23º Festival do Rio, “Capitu e o Capítulo”, de Júlio Bressane, sagrou-se “o” vencedor da 16ª edição do Fest Aruanda, encerrado na quarta. Conquistou os troféus de melhor filme, direção, figurino (Maria Aparecida Gavaldão) e ator coadjuvante (dado a Enrique Diaz), além do Prêmio da Crítica, votado pela Abraccine, a associação nacional de imprensa cinematográfica. No longa, Bressane faz uma reflexão sobre a maneira como os personagens de “Dom Casmurro” (1899) são representados nas leituras de Machado de Assis (1839-1908), usando Diaz como uma espécie de narrador da saga de Capitu (Mariana Ximenes) e Bentinho (Vladimir Brichta).

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