Glória a Neil Jordan em San Sebastián

Glória a Neil Jordan em San Sebastián

Rodrigo Fonseca

20 de setembro de 2019 | 04h23


Rodrigo Fonseca
Sempre atento a veteranos realizadores que andam fora do escopo midiático, apesar de terem um histórico de prestígio, o Festival de San Sebastián confiou a presidência do júri de sua 67ª edição, a ser iniciada nesta sexta-feira, ao irlandês Neil Jordan. O barulho recente que o diretor de 69 anos gerou com “Obsessão” (“Greta”) foi um dos chamarizes. Ele vai coordenar um time de jurados na avaliação de uma leva de 17 longas-metragens, começando por “Blackbird”, de Roger Michell, que abre o evento. O Brasil está no páreo com “Pacificado”, drama sobre o ato contínuo de resistência de quem vive em periferias cariocas. A direção é de Paxton Winters e a produção de Darren Aronofsky, com Shirley Cruz, Débora Nascimento e José Loreto no elenco. Mas a maior aposta para o prêmio principal, a Concha de Ouro, é “Zeroville”, de James Franco, que traça um painel dos bastidores de Hollywood em 1969.

Abraçado pela televisão ao criar a série “Os Bórgias”, com Jeremy Irons, Neil Jordan já não é mais uma referência de cinema autoral provocativo. Mas seu “Obsessão” é um filmaço, com a diva Isabelle Huppert como protagonista. Nos EUA, a produção, lançada no Festival de Toronto em setembro passado, foi bem acolhida, afinal, traz toda a potência sexual característica do realizador de “Traídos pelo desejo” (1992) em sua reflexão sobre perversão. Orçado em US$ 10 milhões, “Obsessão” brinca com os riscos do altruísmo nestes tempos de intolerância. Veja a cena: ao contar para sua colega de quarto que encontrou uma bolsa perdida no metrô e planeja sair em busca da dona, a jovem Frances (Chloë Grace Moretz) leva uma bronca de sua amiga, Erica (Maika Monroe), num sermão comportamental que evoca a cultura de paranoia dos Estados Unidos nos últimos 18 anos: “Você não sabe que bagagens largadas em espaços públicos são um indício de bombas?”. Esse é o começo do novo longa de Jordan, um filme B assumido. É um começo de insanidade institucionalizada: o conceito que há de guiar a narrativa.
Estamos diante de um suspense, uma trama de sustos. E esse assombro vem de atitudes fora da norma. Jordan, que encantou os anos 1980 com “Mona Lisa” (1986) e “Na companhia dos lobos” (1986) e chegou a seu apogeu em 1992, com o já citado “The Crying Game”, demonstra intimidade ZERO com a cartilha em que adentra. A prova disso é a gargalhada que contagiava a plateia em cenas que deveriam assustar e que dão um riso generalizado às multidões. Daí a classificação como B. Mas é um B de autor: o que põe de pé a história de Frances, acossada pela viúva má Greta (Isabelle Huppert, provocativamente dúbia em cena), é o estudo sobre perversão que Jordan empreende a partir de situações que são arquetipais. Com pressão crescente, “Obsessão” não é um thriller clássico. É semiologia. E um estandarte do Feminino. Fetiche de Jordan, Stephen Rea está em cena, numa participação quase jocosa. O mesmo se dá com os demais homens que passam pelo caminho (profissional ou familiar) de Frances. Eles se limitam a poucas falas e gestos pálidos. A exceção talvez seja o supervisor de modos grosseiros do restaurante onde ela trabalha: este tem um ataque de nervos quando percebe o incômodo de sua funcionária diante da presença de uma senhora misteriosa, a tala Greta, que começa a segui-la por todos os cantos. Mesmo da parte de Greta, o coeficiente masculino é nulo: há a viuvez em jogo. São as mulheres – sobretudo Erica, que Maika interpreta com uma firmeza de rocha – que farão a diferença.

Tendo o prolífico Seamus McGarvey no comando da fotografia, Jordan aposta em tons claros, pastéis, amarelados para ilustrar o colorido delicado de um mundo que abre mão da sutileza ao tombar para a perda da lucidez. Greta é uma psicopata clássica: Isabelle faz dela um Jason de rosto maquiado, com direito a dedos cortados e armadilhas em forma de baú. Greta gosta de aprisionar jovens em sua casa, como se fossem bonecas. Atrai as moças a partir de bolsas perdidas em veículos coletivos. Aquelas que forem boas de coração irão atrás da dona, caindo no alçapão do risco. Frances é uma dessas figuras bondosas. Mas tem um limite. E tem espírito aguerrido. Não é mocinha de folhetim e, sim, mulher empoderada. O que vemos ao longo de 1h38 é um rocambolesco desfile de perigos, que Frances encara nas raias do pavor. A resistência dela não exclui o medo. Mas ela resiste, o que irrita Greta e tira a vilã de sua zona de conforto. Nesse risco mútuo, Jordan faz um estudo psicanalítico sobre a generosidade e seus riscos, num debate sobre o individualismo em nossos dias.
É uma pena que Jordan não goze mais do respeito de que desfrutava no passado. Em 1994, seu “Entrevista com o vampiro” foi um fenômeno popular que trouxe prestígio pra Tom Cruise e fama pra Brad Pitt. Depois veio “Michael Collins – O Preço da liberdade” (1996), épico que deu a ele o Leão de Ouro de Veneza. No ano seguinte, “Nó na garganta” garantiu o Urso de Prata de Melhor Direção a Jordan. Mas, nos anos 2000, fracassos de bilheteria como “Lance de sorte” (2002) e “Ondine” (2004) fizeram sua carreira descarrilhar. Mas, como se vê pela badalação em torno de seu nome em San Sebastián, o feérico “Obsessão” restaurou a glória de Jordan. E foi merecido.
Nesta sexta, o evento espanhol recebe a atriz californiana Kristen Stewart, que brilha no papel da atriz Jean Seberg (1938-1979), em um drama biográfico dirigido por Benedict Andrews. Atração hors-concours de San Sebastián, “Seberg” entrou no menu do 76º Festival de Veneza fora de competição. “É importante que as pessoas conheçam essa mulher pra além do corte de cabelo Joãozinho que a imortalizou em ‘Acossado’, nos anos 1960”. Encarado pela imprensa americana como uma das apostas para o Oscar de 2020, sobretudo para a categoria de Melhor Atriz, “Seberg” revive a tragédia que a vida da atriz americana nascida Jean Dorothy Seberg virou depois de seu envolvimento com o movimento negro contra o preconceito racial nos EUA. Mesmo despertando suspeitas por ser branca, ela apoiou a luta de ativistas como Hakim Abdullah Jamal (vivido no filme por Anthony Mackie, o Falcão da franquia “Os Vingadores”), enquanto era casada com o escritor Romain Gary (1912-1980), com quem teve um filho.

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