Globo de Ouro de 1968, Mrs. Robinson volta à telona

Globo de Ouro de 1968, Mrs. Robinson volta à telona

Rodrigo Fonseca

07 Janeiro 2018 | 22h47

“A Primeira Noite de um Homem” está de volta aos cinemas brasileiros

Rodrigo Fonseca
É noite de Globo de Ouro, com A Forma da Água despontando como favorito, e com produções tipo Me Chame Pelo Seu Nome e Corra! cheias de potência para papar o prêmio que, há 50 anos, no mítico 1968, foi entregue ao cult A Primeira Noite de um Homem (The Graduate), que está de volta ao circuito brasileiro numa cópia estalando de nova. É difícil não se comover assim que The Sound of Silence começa a embalar a volta pra casa do jovem Benjamin Braddock, papel dado ao novato Dustin Hoffman por insistência e risco do diretor Mike Nichols (1931-2014). O teste do ator foi um total desastre, porém Nichols farejou naquele baixinho narigudo em sua frente os aromas da inquietação e da inadequação – fragrâncias inerentes ao personagem. O carisma do jovem Dustin ajudou esta produção de US$ 3 milhões a faturar US$ 104 milhões nas bilheterias. E pensaram em Robert Redford antes dele. O primeiro nome dos créditos, contudo, não é o de Hoffman, pelo papel do garotão que regressa ao lar, depois de formado, envolvendo-se sexualmente com a vizinha, mais velha e casada. O nome nº1 a ser creditado é o de Anne Bancroft (1931-2005), que encarna a sedução em pessoa na voz rouca da alcoólatra Mrs. Robinson. Chegaram a cotar Doris Day e Jeanne Moreau para interpretá-la, mais foi Anne quem ganhou a missão. Essa figura transgressora é fruto de uma hemodiálise poética da imagem nos EUA. Para entendê-la é necessário voltar no tempo. Houve uma vez um verão, o de 1967, no qual o cinema americano engajou-se numa bossa nova para seus padrões, diante de Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn, e desta delícia que é  A Primeira Noite de um Homem, de Mike Nichols. Em ambos, dois diretores com experiências em outras mídias (o primeiro da TV; o segundo, do teatro e do rádio) contextualizaram a juventude dos EUA sob uma ótica alarmista de percepção do cerceamento moral e da violência das instituições, seja pela caretice da Família seja no chumbo quente do Estado. Dali pra frente, a filmografia do Tio Sam tomou uma curva à esquerda, imbuindo-se do espírito cinemanovista – aquele que pariu François Truffaut, embalou Bernardo Bertolucci, ninou Roman Polanski, pôs Glauber Rocha para arrotar – para tirar cascas das feridas nas veias abertas da América profunda.

Naquele momento, uma trupe surgiu com uma proposta de engajamento social, político, comportamental e estético. Entre eles estavam Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão), Martin Scorsese (Taxi Driver), Peter Bogdanovich (A Última Sessão de Cinema), Bob Rafelson (Cada Um Vive Como Quer),Michael Cimino (O Franco-Atirador), Bob Fosse (Cabaret), Jerry Schatzberg (O Espantalho), Hal Ashby (Muito Além do Jardim), a esquecida Elaine May (O Rapaz Que Partia Corações), George Lucas (Star Wars – Episódio IV: Uma Nova Esperança) e um certo Steven Spielberg (o do Tubarão e de Contatos Imediatos do 3º Grau). E ponha ao lado deles um documentarista de peso como Peter Davis (Corações e Mentes) e ficionistas mais velhos, como Robert Altman (M.A.S.H.), John Cassavetes (Maridos), Monte Hellman (Briga de Galo), Sidney Lumet (Serpico) e Sydney Pollack (A Noite dos Desesperados). Embora muito esqueçam, foi aí que Woody Allen (Bananas) apareceu. E essa patota trouxe para o primeiro plano da tela as varizes éticas que impediam a oxigenação do sangue americano.

Katharine Ross e o jovem Dustin

Eles eram os chamados Easy Riders, em referência ao filme homônimo de Dennis Hopper, lançado em 1969 e tido como a carta de intenções de uma nova poética fílmica desesperada pelas chagas de sua pátria. Essas chagas eram, em geral, políticas e sociais – com destaque para a exclusão dos pobres e o dos imigrantes e o massacre dos ragazzi fãs de Beatles e Rolling Stones mortos no Vietnã. Mas também havia as chagas da própria imagem, ou seja, a impotência que o próprio cinema teve de deflagrar uma revolução a partir de sua habilidade de (re)interpretar o mundo ao colocar sua memória em movimento.