Globo de Ouro consagra ‘Parasita’… com razão

Globo de Ouro consagra ‘Parasita’… com razão

Rodrigo Fonseca

05 de janeiro de 2020 | 23h05

Rodrigo Fonseca
Aos 50 anos, com 7 longas-metragens, 7 curtas e uma Palma de Ouro no currículo, Bong Joon-ho, diretor sul-coreano, leva para seu país o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, numa consolidação (agora industrial) do prestígio internacional de seu recente (e melhor) trabalho: o feérico “Parasita”. A bilheteria global dessa produção de US$ 11 milhões – coroada em maio com o prêmio máximo de Cannes – pesou em sua consagração na festa anual da Hollywood Foreign Press Association (HFPA): US$ 130 milhões. Ao receber o troféu, ele retomou uma reflexão que fez na Croisette, ao vencer, quando disse: “É um filme muito coreano, mas família todo mundo tem, então todos me entenderão”. Na noite do domingo, ele lacrou, falando ao Beverly Hilton em sua língua natal, apoiado numa tradutora: “Quando vocês conseguirem superar a barreira da legenda, vão descobrir filmes maravilhosos. Nossa língua é uma só: o cinema”.

Queridinho de Cannes, que revelou seu talento para o mundo em 2006, na Quinzena dos Realizadores, com “O Hospedeiro”, Bong Joon-ho (ou Bong Joon Ho, na grafia europeia) é o único coreano a ter um Globo de filme de língua não inglesa no currículo, ciente de que seu país só passou a ser reconhecido por seu rol de autores nos anos 2000 para cá. Há muitas formas de se narrar na Coreia do Sul, seja ela mais rizomática (como é o caso de Hong Sangsoo), mais filosófica (Lee Chang-dong, de “Em Chamas”) ou mais brutalista (como faz “Park Chan-wook em “OldBoy”). A “Cahiers du Cinéma”, revista ainda encarada como a bíblia da cinefilia, abriu páginas para a obra de Bong em sua edição de maio, destacando “Okja” (2017) e “Mother” (2009), dizendo que ele é uma mistura de tudo o que se faz de bom em sua pátria, só que pop e com desfechos inusitados em escolha de dramaturgia. “Eu me considero um realizador de filmes de gênero, que lida com cartilhas próprias, mas que busca fugir de obviedades. E tenho um lado passional: quando ‘O hospedeiro’ foi lançado eu lembro de ter sentido muito ódio de filmes de monstro como o meu”, disse o cineasta a Cannes, na coletiva de imprensa dos vencedores – e ele venceu com unanimidade do júri.

Hilário… pelo menos até o momento em que descamba para o derramamento de sangue, “Parasita” segue os passos de uma família de picaretas profissionais que inventam as mais estapafúrdias ideias para se esquivarem de guardas que podem prendê-los pelos delitos que cometem. O foco aqui é a realização de um crime específico: infiltrar toda o clã na casa de um casal de ricaços, que precisa de babá, de governanta, de motorista. Todos estão dispostos a fingir que vieram para ajudar: mas o que querem é conforto, dinheiro, prazer. Mas há algo de inusitado guardado no porão do casarão que eles tentam transformar em lar.
“Miyazaki, o mestre japonês da fábula animada foi uma grande inspiração para a minha vida e para ‘Okja’, que concorreu à Palma em 2017. Mas aqui, não, eu preferi um modelo coreano a fim de ter um parâmetro. Minha influência aqui não vem da carga de liberdade da arte de Miyazaki, mas de um diretor, coreano específico: Kim Ki-Young, que dirigiu ‘A criada’ e nos deu uma forma particular de representação”, disse Bong ao P de Pop. “A fantasia oxigena o nosso olhar, mas a realidade já suficientemente fantasiosa em sua forma de tecer violências”.

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