Gilles Lellouche entra no time dos ‘Intocáveis’

Gilles Lellouche entra no time dos ‘Intocáveis’

Rodrigo Fonseca

24 de setembro de 2017 | 12h59

Da esquerda para a direita, o ator Gilles Lelouche, o diretor Éric Toledano e o também cineasta Olivier Nakache apresentam o hilário “C’Est La Vie” em concurso em San Sebastián

Rodrigo Fonseca
Embora tenha um sobrenome sonoramente similar ao do diretor de Um Homem, Uma Mulher (1966), diferenciado-se deste (Claude Lelouch) por um “l” a mais e “e” ao fim do dígrafo, Gilles Lellouche pouco ou quase nada tem a ver com o ultrarromantismo do mítico cineasta, funcionando mais (e melhor) como um irônico Casanova em filmes de gênero na França, como a comédia C’Est La Vie!, recebida a gargalhadas neste domingo em San Sebastián. Prevista para ser lançada em seu país de origem no dia 4 de outubro, com o título Le Sens De La Fête, o longa-metragem entrou em concurso no respeitado festival espanhol (hoje em sua 65ª edição) pela grifa de sucesso de seus realizadores: Éric Toledano e Olivier Nakache. Os nomes não te dizem nada. Bom… eles fizeram Intocáveis, aquela dramédia de 2011, vista por 20 milhões de pagantes na França. Melhorou? Samba (3 milhões de espectadores) é deles também. Só que aqui sai Omar Sy, “o” ídolo negro da Europa, e entra Lellouche, galã top no Velho Mundo, posto aqui como elemento cômico. E funciona.

 

“Faz toda a diferença para um ator poder trabalhar um roteiro de diálogos saborosos, cujos diretores estão abertos a trocar livremente com seus intérpretes, como é o caso de Éric e Olivier”, elogiou Lellouche em entrevista ao P de Pop, logo após uma sessão recheada de risadas com Le Sens De La Fête (aka C’Est La Vie!).

O galã canta em cena da comédia, batizada na França de “Le Sens De La Fête”

Do que se trata? Uma festa de casamento. Nada mais. Agora, depois de 105 minutos, San Sebastián em peso saiu do cinema com a certeza de que fazer uma cerimônia de matrimônio dá trabalho. Lellouche faz um cantor abilolado, cujas opções musicais (avessas a do noivo) dão dor de cabeça ao organizador do casório, o empresário Max, vivido por um mito da autoralidade na França: o ator e dramaturgo Jean-Pierre Bacri. De origem argelina, ele trabalhou em cults como A Vida dos Outros (1999) e Como Uma Imagem (2004).   

Bacri é um gigante por sua generosidade e pela capacidade que tem de fazer todo o elenco convergir para ele e se manter unido. E, neste caso, o elenco era grande”, diz Lellouche, que participou como ator e diretor do sucesso Os Infiéis (2012) e atuou em A Conexão Francesa (2014). “O maior diferencial de C’Est La Vie! é de poder mostrar a diversidade cultural do meu país, atuando ao lado de atores das mais variadas culturas, como é comum nos filmes de Éric e Olivier”.

“No Intenso Agora” foi saudado como obra-prima no festival espanhol

Durante todo o fim de semana, o Brasil desfrutou de prestígio por aqui à força da boa acolhida ao documentário de João Moreira Salles, o magistral No Intenso Agora, que goza de toda a criteriosa inteligência de edição de Eduardo Escorel para somatizar utopias e desesperanças de 1968 numa viagem ao passado, com arquivos da Europa, do Brasil e da China.

“Documentos preservam múltiplas camadas de sentido que, por vezes, só se revelam à luz do tempo, mas eles também podem ser criticados pela abordagem que trazem. Busquei arquivos que me permitissem refletir como se filme em regimes democráticos, autoritários e totalitários”, disse João ao P de Pop.

“Arábia”, horizonte mineiro

Nesta quarta, outra prestigiada produção nacional, lançada em Roterdã, o mineiro Arábia – que esta noite pode ganhar tudo no Festival de Brasília – vai tentar a sorte por aqui em San Sebastián, na seção Horizontes Latinos. É a mesma vitrine que consagrou Lobo Atrás da Porta (2013) e Era o Hotel Cambridge (2016). Na trama dirigida por João Dumans e Affonso Uchoa, o jovem André (Murilo Caliari) encontra o caderno de memórias de Cristiano (Aristides de Sousa), metalúrgico hospitalizado. Por meio dele, o menino conhece sua trajetória atravessada por afetos, pela necessidade de sobreviver e pelo amor, emoldurada por relações de trabalho nas diversas paisagens mineiras.

Luca Guadagnino dirige Armie Hammer em “Me Chame Pelo Seu Nome”

Até o momento, a julgar por um painel eletrônico na entrada de uma das salas exibidoras da cidade (o Teatro Victoria Eugénia), que mede a votação popular do festival, o filme preferido do público de San Sebastián, de sexta até agora, é o drama romântico LGBT Me Chame Pelo Seu Nome. Revelado em Sundance, aclamado em Berlim e já assegurado para o Festival do Rio (5 a 15 de outubro), Call Me By Your Name (no original) tem o brasileiro Rodrigo Teixeira (de A Bruxa e Frances Ha) entre seus produtores. O filme mais esperado deste domingo por aqui por terras espanholas também carrega temperos de Brasil: é o drama Uma Espécie de Família, feito em coprodução com a Argentina e dirigido por Diego Lerman, que trouxe a atriz Paula Cohen para o elenco.

Nesta segunda, San Sebastián tem tudo para se rasgar em prantos ao largo das projeções de 120 Batimentos Por Minuto, no qual o diretor Robin Campillo recria as campanhas em defesa dos portadores de HIV na França, nos anos 1990. Doído, mas primoroso, com aura de filme-piquete, o longa virou sensação em Cannes em maio. Saiu de lá com o Grande Prêmio do Júri, a láurea da nonagenária Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) e uma legião de fãs. Segunda rola ainda o chileno Los Perros, destaque da Semana da Crítica cannoise, com Alfredo Castro de ex-torturador, atual professor de hipismo.