‘Giallo’ nacional, ‘O Segredo de Davi’ vai à TV

‘Giallo’ nacional, ‘O Segredo de Davi’ vai à TV

Rodrigo Fonseca

14 de fevereiro de 2020 | 08h22

Rodrigo Fonseca
Passear pela recente reformulação de grade do Canal Brasil é satisfação garantida, sobretudo quando encontramos pérolas como “Sinônimos” (“Synonymes”, 2019), que deu o Urso de Ouro ao israelense Nadav Lapid, na programação para os próximos dias: o vencedor de Berlim do ano passado será exibido no dia 23, às 23h. Mas antes, tem mais uma iguaria no cardápio da emissora: “O segredo de Davi”, que confirma a vitalidade nacional no terreiro do medo. Vai ter projeção dele no dia 18, às 20h. Nele, o maior espanto vem da vitalidade do ator Nicolas Prattes, em um exercício de reinvenção.
Apoiado em uma delicadíssima direção de arte, cujos excessos sazonais de elementos, luzes ou cores lhe dá um ar de giallo (termo usado para definir thrillers de psicose da Itália), “O segredo de Davi” é uma (bem-vinda) incursão brasileira no universo do suspense num momento em que o cinema nacional (re)aprende o valor dos filões de gênero. E aqui, a educação não se dá pela pedra, e sim pela fina flor do arrepio: é impossível olhar para a saga de Davi, estudante obcecado em filtrar o mundo a partir de uma câmera, e não voltar no tempo até a década de 80 de “Dublê de corpo”, de 1984, e “Um tiro na noite”, de 1981. Ambos foram dirigidos por Brian De Palma, o gênio americano que se interessa mais pelo potencial ilusório da imagem do pela sua potência de revelar verdades. É esse o caso deste longa feito no Brasil. Na direção, o estreante em longas Diego Freitas (de “Sal”, premiadíssimo curta) vai pela vereda similares às usadas por De Palma: seu protagonista tem uma psiquê fraturada, usa uma filmadora como forma de expressão e transita (querendo ou não) pelas páginas de Platão, o pensador do idealismo em oposição à solidez do real.
Com sua estranheza, com seu capuz de moletom num look à la Xavier Dolan (diretor canadense de forte estilização), Davi é um jovem introspectivo que navega pelo crime levado por um instinto assassino. Isso é o que parece. E aqui… parecer conta mais do que fatos concretos. O filmaço que se impõe na narrativa de Freitas são as mais variadas aparências que brotam do olhar de Nicolas Prattes, inflamável na pele do Tom Ripley chamado Davi. É uma atuação de assustar… pela virtude.
No dia 19, às 20h, na faixa do É Tudo Verdade, rola “Fogo no Mar” (“Fuocoammare”), que deu o Urso de Ouro a Gianfranco Rosi em 2016, por sua impressionante captação da chegada de refugiados à ilha de Lampedusa.

p.s.: Quem estiver na dúvida do que ver no teatro hoje, e estiver pelo Rio, vai descobrir, na comédia “Em busca do par perfeito”, em cartaz às sextas, às 19h, no palco do Vannucci, na Gávea, uma trupe cheia de potência (Alexandre Oliveira, Driko Lima, Letycia Carvalho, Luciana Laura, Gabi Freitas – esta, surpreendentemente divertida -, Sidney Ortega) e um diretor-ator (Brunno Rodrigues) com forte desejo de descobertas. Ali vemos a criação de um personagem que revive a tradição das chanchadas brasileiras, nos anos 1930 ao fim dos anos 1950, com um misto de picardia universal e de brasileiríssima inquietação social, o Bagulhão. Porteiro de um prédio metido a bacana, cujo síndico é um (quase) pastor (Alexandre Oliveira), Bagulhão vai se debater contra seus próprios preconceitos, ao aprender como administrar a tolerância entre seus condôminos, incluindo seu irmão, Paulo Power (papel que Ortega desempenha com dose farta de carisma). Ali vemos uma afirmação de identidade sexual sair do armário. Vemos ainda um início de paquera, com a fricção da mão dada com a chegada da França de Gina Marie (feita por Letycia Carvalho com elegância). E vemos a possível derrocada de uma boate no Méier, comandada pela faiscante Lady Favela, que Gabi interpreta com uma energia capaz de contagiar. Driko Lima é o personagem que sacode toda essa mesa de sinuca de afetos, com uma tacada certeira na repressão alheia, em sua luta para assumir seus quereres. E ainda tem a construção de outra figura capaz de recuperar nossa lembrança das comédias carnavalescas da década de 1950: a fã de ópera Alcione Margarina, confiada a Luciana Laura. Trata-se de um espetáculo sobre um Brasil que se empodera, que levanta suas bandeiras e assina agendas políticas urgentes, divertindo em seu clima de gincana formativa. Destaque técnico para as coreografias de luta de Alex Basílio.

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