Giacometti em retrato na TV e no streaming

Giacometti em retrato na TV e no streaming

Rodrigo Fonseca

18 de novembro de 2019 | 01h51

RODRIGO FONSECA
Inédita nas telas brasileiras, em circuito comercial, uma joia da seleção da Berlinale 2017 encontra seu espaço na grade de streaming da HBO: “Final Portrait”, dirigido pelo ator Stanley Tucci (“Um olhar do Paraíso”), que chega ao país, na TV e na web, com o título literal “Último retrato”. Depois de dez anos dedicado ao projeto, Tucci confiou o papel do pintor e escultor Giacometti, personagem central do longa-metragem, ao australiano Geoffrey Rush, que foi homenageado há dois anos no Festival de Berlim pelo conjunto de sua carreira. Ao galã Armie Hammer o cineasta delegou a tarefa de viver o crítico de arte americano James Lord, dedicado a biografar o artista, apesar de sua vida hedonista de excessos. “Esta é uma narrativa sobre vaidades e sobre tolerâncias, matérias que se combinam quando falamos de artistas”, disse Tucci ao P de Pop. “Eu sou diretor bissexto, que filma quando encontra histórias que roubam a minha atenção do meu ofício de ator. Ao dirigir, busco aproveitar o melhor dos meus colegas de cena, com os quais posso aprender”.

Entre as delícias que integram o cardápio da HBO está o ganhador do Oscar de melhor animação de 2019: “Homem-Aranha no Aranhaverso”. É, talvez, o mais ambicioso experimento da indústria animada nos EUA, tanto na engenharia narrativa quanto na dramaturgia, uma vez que adapta a mais complexa saga do Lançador de Teias nos últimos anos. Aliás, o resultado na telona flui melhor do que nas HQs, valorizando, com revelo tocante, o jovem negro com poderes quase iguais (com algumas melhoras) aos de Peter Parker: o adolescente Miles Morales. A construção dramática do rapaz – filho de um policial afrodescendente e de uma enfermeira hispânica – é um feito à altura do “Pantera Negra” quando se pensa na representação da negritude, o que só mostra a evolução ética da Marvel. Dublado na versão brasileira por Cadu Paschoal e, nos EUA, por Shameik Moore, Morales é a medida de humanismo desta aventura sobre diferentes planos de realidade que se fundem a partir de diferentes seres dotados com a força aracnídea. Inclua entre eles um porco falante, tipo Gaguinho. Ele é um dos indícios do empenho da trinca de diretores Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman em criar um filme-tributo à história da animação, com alusões à série de TV desenhada do Aranha nos anos 1960. Essas referências (discretas ao passado) e o explícito réquiem para o pai espiritual da Marvel, Stan Lee (dublado aqui por Carlos Seidl, a voz do Seu Madruga), salpicam afeto em uma trama em tom de thriller, centrada na luta dos Aranhas para debelar um plano do vilão Rei do Crime enquanto Morales amadurece, como herói e como gente. É uma mistura de “Dope” com “Clube dos Cinco”, regada a fantasia e humor, sobretudo na genial cena pós-crédito.

p.s.: Um do eventos mais esperados deste fim de ano no cinema, o Festival de Marrakech, em sua 18ª edição, vai de 29 de novembro a 7 de dezembro. Presidido por Tilda Swinton, seu júri contará com o pernambucano Kleber Mendonça Filho, diretor de “Aquarius” (2016) e do fenômeno “Bacurau” (codirigido por Juliano Dornelles), ainda em cartaz. Além de Kleber, o time de jurados conta com as diretoras Rebecca Zlotowski (francesa) e Andrea Arnold (inglesa), a atriz franco-italiana Chiara Mastroianni, o ator sueco Mikael Persbrandt, o escritor e diretor afegão Atiq Rahimi, o realizador australiano David Michôd e o cineasta marroquino Ali Essafi. Em competição estão: “Dente de leite” (“Babyteeth”, Austrália), de Shannon Murphy; “Bombay Rose” (Índia), de Gitanjali Rao; “A febre” (Brasil), de Maya Da-Rin; “Last visit” (Arábia Saudita), de Abdulmohsen Aldhabaan; “Lynn + Lucy” (Reino Unido), de Fyzal Boulifa; “Mamonga” (Sérvia, Bósnia Herzegovina, Montenegro), de Stefan Malesevic; “Mickey and the Bear” (EUA), de Annabelle Attanasio; “Mosaic Portrait” (China), de Zhai Yixiang; “Nafi’s father” (Senegal), de Mamadou Dia; “Scattered night” (Coreia do Sul), de Lee Joh-young; “Sole” (Itália, Polônia), de Carlo Sironi); “Tlamess” (Tunísia), de Ala Eddine Slim; “The unknown saint” (Marrocos), de Alaa Eddine Aljem; e “Tantas almas” (Colômbia, Brasil), de Nicolás Rincón Gille.

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