‘Ghost in The Shell’, fantasma de Hollywood

‘Ghost in The Shell’, fantasma de Hollywood

Rodrigo Fonseca

18 de outubro de 2020 | 13h00

RODRIGO FONSECA
Fomento à intolerância, o crime do whitewashing destruiu a carteira comercial da versão carne e osso do desenho animado “Ghost in the Shell”, que a Globo exibe hoje em seu sempre popular “Domingo Maior”, após o “Fantástico”, lá pelas 22h40. É indisfarçavel o incomodo que o filme provoca em sua representação das populações de origem asiática. Mas há nessa controvérsia uma potente provocação para um debate ético, o que torna a sessão desta noite na TV aberto um importante objeto de estudo acerca dos descuidos políticos simbólicos de Hollywood. E há que se avaliar o longa-metragem com respeito, a fim de inventariarmos as cicatrizes que ele produziu. Dirigido por Rupert Sanders, o filme tem exibição no Plimplim em versão dublada na UniDub, coordenada por Wendel Bezerra. “A Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell” é o título no país, onde Fernanda Bullara dubla, habilmente, Major, a personagem de Scarlett Johansson. A sessão na Globo alimenta o prestígio da estrela, que tem “Viúva Negra” engatilhado para estrear/ entrar no Globoplay. Este ano, ela concorreu ao Oscar em duas frentes: a de melhor atriz, por “História De Um Casamento”, e a de melhor coadjuvante, por “Jojo Rabbit”.

Mistura de “Zootopia” com “Chuva Negra”, meio high-tech e meio bárbaro, fiel ao credo cyberpunk na forma e à suspensão das certezas em seu tom de thriller, “A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell” se expressa muito melhor como filme policial (é um dos mais tensos do filão, em anos) do que como ficção científica. O longa custou US$ 110 milhões e teve receita mundial de US$ 169 milhões, tendo sido boicotado pelo delito do whitewashing, tendo escalado Scarlett para um papel de uma japonesa. É demasiadamente humano para pleitear um posto de “Blade Runner”, embora seu visual venha dele, com ecos de toda a tradição animada do Japão em representações das miserabilidades do Homem. Há uma brutalidade típica do soberbo filme de Ridley Scott no Japão, com o mesmo sendo de brutalidade e o mesmo ímpeto xenófobo (aqui, a xenofobia se dá no preconceito entre homens, homens ciberneticamente implantados e ciborgues). Tem muito da coelha animada da Disney na andróide taciturna Major, que faz La Johansson avançar algumas casas no tabuleiro da boa atuação. Ambas fazem da retidão seu desígnio maior, ambas são enredadas em uma conspiração política que ameaça suas reputações no controle da Lei. Ambas têm compromisso com a família, embora a personagem de Scarlett não saiba de onde vem. A diferença é que a coelha preserva a inocência como forma de driblar sua animalidade em uma sociedade na qual bestas são personalizadas. Major de inocente não tem nada. Mas não se trata de carregar culpa: trata-se de não deixar que nada possa frear sua porção máquina. Em nome do dever, ela é capaz de tudo, mas pela cartilha da Justiça. O que vai botar o filme para amadurecer é o processo de busca por falibilidades em que ela embarca.
Máquinas não podem errar: nem amar.

Alguém disse a Major que ela é uma máquina. Mas em meio a um circuito de mortes de cientistas proeminentes da robótica, ela se choca contra um criminoso misterioso, Kuze (Michael Pitt, em seu melhor trabalho), que parece mais fã dos humanos do que dos aparatos cibernéticos que usa como armas. Ele chega a usar corpos humanos para alimentar uma rede neural capaz de produzir uma espécie de matrix, uma fonte de inteligência artificial e de inteligência paralela. Mas não se preocupe se você suspeitar da complexidade desses conceitos. Não é um filme sobre avanços científicos, tampouco uma experiência existencialista sobre nossa dependência àquilo que é mecânico e digital. É apenas um filme de investigação. Um ótimo filme de investigação. Um Édipo Rei numa Tebas cibernética, de direção de arte exuberante. Major Scarlett é o Édipo. A Édipo. A esfinge foi derrotada antes de ela ser criada: a esfinge é a tecnologia que amplia os dotes físicos de mulheres e homens. Mas existe um Mal ali que desafia a vontade dos Deuses e que só será resolvido quando ela puder amar sua Jocasta, conscientemente. Para isso, ela precisa investigar o que existe por trás dos crimes de morte e dos pecados políticos que os motivam. Sua linha narrativa foi esboçada com uma competência inquestionável pelo diretor inglês Rupert Sanders (de “Branca de Neve e o Caçador”), tendo como epicentro o mangá homônimo de Masamune Shirow e o longa animado dele derivado (dirigido por Mamoru Oshii). Nela, Major é uma espécie de valquíria impávida. Ao narrar a jornada existencial dela, Sanders é hábil para não deixar os efeitos especiais soterrarem situações nas quais o diálogo é o eixo da atenção. E há ainda lugar para atuações que possam extrapolar a ação (generosa), como é o caso do parceiro de Major, o dublê de Stallone chamado Sargento Batou, vivido pelo ator dinamarquês Pilou Asbaek. Entre as muitas virtudes de “A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell”, que encobre sob seu glacê sci-fi uma missa fina de dramaturgia policial, uma dimensão cinéfila de homenagem se destaca: a participação de Takeshi Kitano como o chefe Aramaki. O papel dele é um tributo ao veterano ator e cineasta japonês, ganhador do Leão de Ouro por “Hana-bi: Fogos de Artifício” em 1997. Falando em sua língua materna, o astro e realizador septuagenário, que trilhou um bushidô muito peculiar como diretor, rouba para si cada cena em que aparece no thriller em tom sci-fi de Sanders, dando uma ajuda à tira sintética vivida por Scarlett. Mais do que um coadjuvante de luxo, seu personagem ganha uma função dinâmica na trama, impelindo Major, a protagonista, a cumprir sua missão de investigar o assassinato em série de médicos e cientistas ligados a criação de construtos mecânicos. Tem até cena de ação para ele estrelar, o que evoca alguns de seus melhores momentos históricos nas telas. Neste momento, Kitano trabalha na minissérie “The Forgotten Army” para o Amazon Studios.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: