‘Ghost In The Shell’ anima a TV aberta: hj na Globo

‘Ghost In The Shell’ anima a TV aberta: hj na Globo

Rodrigo Fonseca

22 de janeiro de 2020 | 11h39

Rodrigo Fonseca
Diante da insistência da Berlinale 70 (20 de fevereiro a 1º de março) de manter em sigilo qual serão os concorrentes ao Urso de Ouro de 2020, só faz crescer a especulação acerca da briga por prêmios do evento alemão, cogitando-se, entre os jornalistas da Europa, a hipótese de um tributo ao animador japonês Hayao Miyazaki, com uma possível projeção (quiçá na abertura) do desenho “How Do You Live?”, em finalização. Fala-se ainda em uma mostra de animês, os dele e de outros mestres, incluindo uma nova exibição de “Ghost In The Shell”, que passou por lá há três anos, em cópia recauchutada, de carona na estreia de sua versão em carne e osso. Versão que a TV Globo exibe esta noite. Dirigido por Rupert Sanders, o longa-metragem tem exibição às 23h, no “Cinema Especial”, em versão dublada na UniDub, coordenada por Wendel Bezerra. “A Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell” é o título no país, onde Fernanda Bullara dubla, habilmente, Major, a personagem de Scarlett Johansson. A sessão na Globo alimenta o prestígio da estrela, que concorre atualmente ao Oscar em duas frentes: a de melhor atriz, por “História De Um Casamento”, e a de melhor coadjuvante, por “Jojo Rabbit”.

Mistura de “Zootopia” com “Chuva Negra”, meio high-tech e meio bárbaro, fiel ao credo cyberpunk na forma e à suspensão das certezas em seu tom de thriller, “A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell” se expressa muito melhor como filme policial (é um dos mais tensos do filão, em anos) do que como ficção científica. O longa custou US$ 11 milhões e teve receita mundial de US$ 169 milhões, tendo sido boicotado sob acusação de whitewashing. É demasiadamente humano para pleitear um posto de “Blade Runner”, embora seu visual venha dele, com ecos de toda a tradição animada do Japão em representações das miserabilidades do Homem. Há uma brutalidade típica do soberbo filme de Ridley Scott no Japão, com o mesmo sendo de brutalidade e o mesmo ímpeto xenófobo (aqui, a xenofobia se dá no preconceito entre homens, homens ciberneticamente implantados e ciborgues). Tem muito da coelha animada da Disney na androide taciturna Major, que faz La Johansson avançar algumas casas no tabuleiro da boa atuação. Ambas fazem da retidão seu desígnio maior, ambas são enredadas em uma conspiração política que ameaça suas reputações no controle da Lei. Ambas têm compromisso com a família, embora a personagem de Scarlett não saiba de onde vem. A diferença é que a coelha preserva a inocência como forma de driblar sua animalidade em uma sociedade na qual bestas são personalizadas. Major de inocente não tem nada. Mas não se trata de carregar culpa: trata-se de não deixar que nada possa frear sua porção máquina. Em nome do dever, ela é capaz de tudo, mas pela cartilha da Justiça. O que vai botar o filme para amadurecer é o processo de busca por falibilidades em que ela embarca.
Máquinas não podem errar: nem amar. Alguém disse a Major que ela é uma máquina. Mas em meio a um circuito de mortes de cientistas proeminentes da robótica, ela se choca contra um criminoso misterioso, Kuze (Michael Pitt, em seu melhor trabalho), que parece mais fãs dos humanos do que dos aparatos cibernéticos que usa como armas. Ele chega a usar corpos humanos para alimentar uma rede neural capaz de produzir uma espécie de matrix, uma fonte de inteligência artificial e de inteligência paralela. Mas não se preocupe se você suspeitar da complexidade desses conceitos. Não é um filme sobre avanços científicos, tampouco uma experiência existencialista sobre nossa dependência àquilo que é mecânico e digital. É apenas um filme de investigação. Um ótimo filme de investigação. Um Édipo Rei numa Tebas cibernética, de direção de arte exuberante. Major Scarlett é o Édipo. A Édipo. A esfinge foi derrotada antes de ela ser criada: a esfinge é a tecnologia que amplia os dotes físicos de mulheres e homens. Mas existe um Mal ali que desafia a vontade dos Deuses e que só será resolvido quando ela puder amar sua Jocasta, conscientemente. Para isso, ela precisa investigar o que existe por trás dos crimes de morte e dos pecados políticos que os motivam.

Frenética, a linha narrativa do longa foi esboçada com uma competência inquestionável pelo diretor inglês Rupert Sanders (de “Branca de Neve e o Caçador”), tendo como epicentro o mangá homônimo de Masamune Shirow e o longa animado dele derivado (dirigido por Mamoru Oshii). Nela, Major é uma espécie de valquíria impávida. Ao narrar a jornada existencial dela, Sanders é hábil para não deixar os efeitos especiais soterrarem situações nas quais o diálogo é o eixo da atenção. E há ainda lugar para atuações que possam extrapolar a ação (generosa), como é o caso do parceiro de Major, o dublê de Stallone chamado Sargento Batou, vivido pelo ator dinamarquês Pilou Asbaek. Entre as muitas virtudes de “A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell”, que encobre sob seu glacê sci-fi uma missa fina de dramaturgia policial, uma dimensão cinéfila de homenagem se destaca: a participação de Takeshi Kitano como o chefe Aramaki.

O papel de Kitano é um tributo ao legado desse veterano ator e cineasta japonês. Falando em sua língua materna, o astro e realizador septuagenário, que trilhou um bushidô muito peculiar como diretor, rouba para si cada cena em que aparece no thriller em tom sci-fi de Sanders, dando uma ajuda à tira sintética vivida por Scarlett. Mais do que um coadjuvante de luxo, seu personagem ganha uma função dinâmica na trama, impelindo Major, a protagonista, a cumprir sua missão de investigar o assassinato em série de médicos e cientistas ligados a criação de construtos mecânicos. Tem até cena de ação para ele estrelar, o que evoca alguns de seus melhores momentos históricos nas telas. Neste momento, Kitano trabalha na minissérie “The Forgotten Army” para o Amazon Studios. Scarlett volta ao circuito no dia 29 de abril, sob a direção de Cate Shortland, em “Viúva Negra”, dando mais um gás à Marvel nas telas, no cronograma de 2020.

p.s.: Está marcado para 9 de abril a estreia brasileira de “Les plus belles années d’une vie”, de Claude Lelouch, uma das sensações do 22º Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, encerrado na segunda, em Paris. Traduzida aqui como “Os Melhores Anos De Uma Vida” produção é a retomada de “Um homem, uma mulher”, ganhador da Palma de Ouro de 1966, laureado ainda com os Oscars de filme estrangeiro e de roteiro. Nele, estão de volta dois icônicos personagens da década de 1960: a roteirista Anne Gauthier (Anouk Aimée) e o piloto de corridas Jean-Louis Duroc (Jean-Louis Trintignant). A mítica trilha sonora de Pierre Barouh e Francis Lai também foi ressuscitada. Na trama atual, Duroc está em uma casa de repouso para adultos, com a memória debilitada, a imaginação em fuzarca e um olhar que parece caçar a câmera, para nos fitar e desnudar seu abandono. Seu filho resolve ir atrás de Anne, a fim de leva-la para um encontro outonal com seu velho pai.

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