Georgina Martins de prosa com o Maravilhoso

Georgina Martins de prosa com o Maravilhoso

Rodrigo Fonseca

07 de junho de 2021 | 10h08

Com uma didática leve, mas crítica, Georgina Martins devassa o DNA dos contos de fada

Rodrigo Fonseca
Pilar vivo dos estudos sobre fantasia na literatura, expert nas manifestações do Maravilhoso na prosa nacional, a escritora Georgina Martins, professora nos cursos de Pós Graduação em literatura infantil e juvenil na Faculdade de Letras da UFRJ e na Universidade Cândido Mendes, agora se arrisca por novas veredas da escrita ao lançar a saborosa colcha de narrativas curtas “Há Muitas Formas De Se Fazer Macarrão; e Outras Brutalidades”. Autora de “O Menino Que Não Se Chamava João e a Menina Que Não Se Chamava Maria” (ed. DCL), um cult da representação da infância, ela vai agora para o terreno das agruras adultas, arriscando-se num inventário de cicatrizes inerentes a fricções do afeto. A edição em papel sairá pela Patuá. A descrição da Amazon é precisa: “A narrativa em primeira pessoa leva o leitor para dentro da vida de um casal, em que cenas da vida doméstica são pano de fundo e retrato de uma intensa relação amorosa marcada por pactos de dominação e manipulação”. Titular de uma coluna na revista “Ciência Hoje”, chamada “Literária”, Georgina destila um rio de sensorialidades em sua observação das asperezas nossas de todo o dia, sem perder o foco para o quanto a nossa memória pode ser fabular.
Essa ideia, de que a recordação pode, em parte, ser uma fabulação, é um dos tópicos de um curso a ser ministrado por ela a partir desta quarta-feira, até 30 de Junho, online, com o título “Ficção e Realidade: O Maravilhoso e o Contemporâneo”. Sua referência bibliográfica são os autores Tzvetan Todorov, Jacque Le Goff, Keith Thomas, Luca e Francesco Cavalli Sforza, Hilário Franco Junior e Cyntia Morais. Pra se inscrever o melhor caminho é uma troca de e-mails com a autora, no ginamartins@uol.com.br, ou uma visita ao instagram @martins_georgina.

Numa sociedade de fake news, qual é o papel estético e ético da fantasia, da magia, do monstro?
Georgina Martins:
Em todas as sociedades, o que hoje chamamos de fake news, sempre existiu, ora como boatos sem grandes consequências, ora como calúnias que levaram muitas pessoas, principalmente mulheres, à fogueira, no período da Inquisição. No entanto, o que vemos hoje é uma velocidade maior na difusão desses boatos/fake news e, também, um alcance global por conta das redes de comunicação. No que se refere à fantasia, quando ela é posta como ficção mesmo, como narrativa ficcional, tanto quanto a magia, os monstros, os seres do maravilhoso, ela contribui para a nossa evasão, para satisfazer a necessidade que todo ser humano tem de ficção, por isso penso que é muito importante compreender esse universo ficcional, estudá-lo, frui-lo, sobretudo para termos a certeza de que ele sobrevive no imaginário de todas as culturas. Quando ouvimos ou lemos uma narrativa maravilhosa, podemos nos colocar em perigo, lutar com os monstros, com os seres sobrenaturais na proteção da nossa casa; e isso vale tanto para criança quanto para o adulto. Essas narrativas nos ajudam a entender as diferenças entre ficção e realidade. Como exemplo de fake news, penso na crença contemporânea de que a temperatura medida na testa (uma prática comum durante a pandemia) pode prejudicar o funcionamento cerebral. Crença que se espalha inclusive em ambientes hospitalares e laboratorial. O que isso nos diz? Falta educação de qualidade, é claro, mas falta ficção, narrativas, literatura, cinema. Falta aos sujeitos a oportunidade de se transportarem para o mundo da ficção, única forma de alimentar a imaginação com elementos que podem contribuir para a formação e desenvolvimento do pensamento científico.
Que conceito de heroísmo perpassa a sua reflexão sobre o fantástico?
Georgina Martins:
Penso sempre que o fantástico está inserido nesse guarda-chuva maior que chamo de Maravilhoso, e desse modo, é bastante saudável que nossos heróis sejam os da ficção, e não os que a sociedade fabrica a cada momento. Nossos heróis são os das narrativas míticas; aqueles que se sacrificam pela comunidade, aqueles que dão exemplos de solidariedade, força e coragem. Tendo isso como norte, não posso chamar qualquer um de mito.

Que contribuições a cultura digital trouxe para a representação da fantasia? De que forma a literatura que vem da web dá espaço para o que não seja confessional e para o que venha a ser fabular?
Georgina Martins:
São muitas contribuições, como a democratização das narrativas, a facilidade maior de criar, de publicar e difundir; embora, em hipótese alguma, eu rejeite as narrativas confessionais, eu também as produzo. Na verdade, toda narrativa é fabular, é fantasiosa, mesmo que seja confessional, na medida em que o que se escreve já não é mais o real vivido.
O que a sua incursão recente no macarrão da literatura adulta, saindo da seara infantojuvenil, representou de desafio?
Georgina Martins:
O primeiro desafio foi enfrentar meus fantasmas reais e ficcionais, e depois enfrentar a exposição deles, mas eu precisava fazer isso. Agora, espero os resultados.
Que filmes recentes mais e melhor atiçaram sua reflexão sobre o fantástico? Por que seu encanto por “Na Companhia dos Lobos”, de Neil Jordan, sempre usado em suas aulas?
Georgina Martins:
Vários: “Border”, “As Silenciadas”, “A Bruxa”, as séries brasileiras “Desalma” e “Cidade Invisível”, os filmes “Deixa Ela Entrar”, “Peixe Grande”, e a trilogia “Baztán” – “Legado nos ossos”, “Oferenda à tempestade” e “Guardião invisível” -, que nos coloca em contato com a mitologia basca. Quanto ao filme “A Companhia dos Lobos”, meu encanto com esse longa-metragem vem da história da Chapeuzinho Vermelho que, segundo Bruno Bettelheim, mora no coração de todos. O filme é muito simbólico, mas nem por isso ele perde o poder de comunicar o enredo. É baseado no conto homônimo da inglesa Angela Carter, que participou ativamente do roteiro. Essa história integra o livro “O Quarto de Barba Azul”, livro de contos da autora para adultos. Tem como base os contos maravilhosos e contos de fadas. Tanto o conto quanto o filme nos permitem refletir sobre a psiquê feminina, sobre o papel da menina e da mulher na sociedade medieval, nas relações entre religião e magia. Gosto muito por tudo isso

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