Geórgia surpreende a Berlinale com fábula

Geórgia surpreende a Berlinale com fábula

Rodrigo Fonseca

04 de março de 2021 | 09h48

RODRIGO FONSECA
Deu Geórgia na cabeça em 2020, em múltiplas latitudes cinematográficas, começando pela vitória de “Beginning” (“Dasatskisi”), de Dea Kulumbegashvili, no Festival de San Sebastián, na Espanha, coroando uma investigação sobre opressão feminina hoje em cartaz na MUBI, ao mesmo tempo em que seu país de origem faz bonito na Berlinale 2021, graças às fabulações de Alexandre Koberidze. Seu estonteante novo filme “What Do We See When We Look at the Sky?” (“Ras vkhedavt, rodesac cas vukurebt?”) entra como um bálsamo de lirismo numa forte seleção competitiva. É notável a evolução que a gestão Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian trouxe para o Festival de Berlim, sobretudo na competição pelo Urso de Ouro, de 2020 pra cá. Mesmo com todos os percalços impostos pela covid-19, que obrigou rearranjos e adiamentos, a dupla montou um pacotão de 15 competidores de potências narrativas plurais, que vê o concorrente georgiano se impor como um analgésico para as enxaquecas de uma Eurásia pandêmica ao apostar numa dose de realismo mágico. Quatro anos depois de seu “Let the Summer Never Come Again” (2017), Koberidze aposta numa suspirante história de afagos que não pode se realizar por conta da Natureza. Na trama, um casal de jovens que se esbarra na rua fica encantado e marca um encontro. Os dois vão mas não consegue se ver. O motivo: da noite para o dia, eles mudaram de forma. É uma espécie de encantamento, que muda tudo o que se passa naquele mundinho onde vivem, refletindo as transformações sociais e políticas daquela nação. Vinhetas, legendas e um narrador onisciente conversam conosco, dando a essa fábula uma aparência de hipertexto da web, unindo tradição e contemporaneidade. E a fotografia de luz sépia de Faraz Fesharaki é um primor.

Vira e mexe, os georgianos aprontam. Entre as 15 repúblicas reunidas sob a égide socialista da União Soviética, a Geórgia foi uma das principais potências cinematográficas do grande império audiovisual que fez do audiovisual um trampolim para ideologias, tendo permanecido cheia de som e de fúria nas telas mesmo com os rearranjos geopolíticos de seu território. No ano passado, o DocLisboa, um dos maiores festivais do mundo dedicados a estéticas do Real, com sede em Portugal, promoveu uma retrospectiva da terra de Alexandre Koberidze, mapeando diretores autorais como Mikhail Kalatozov (ganhador da Palma de Ouro de Cannes, em 1958, por “Quando Voam as Cegonhas”) e Serguei Paradjanov (realizador do premiado “A Lenda da Fortaleza Suram”). Revisitou-se ainda o legado de Nutsa Gogoberidze (1902-1966), a primeira mulher diretora da Geórgia a ganhar notoriedade global, conhecida por longas como “Bulba” (1930). “Minha Avó” (“My Grandma”, 1929), uma sátira surreal da burocracia do jovem Estado soviético, dirigida pelo ator-diretor Kote Mikaberidze, é outro cult deles, com conexão direta ao trabalho de Koberidze em “What Do We See When We Look at the Sky?”, que pode sair de Berlim com o prêmio de direção.

Um livro deflagra a centelha mágica do filme de Alexandre Koberidze

Nesta quinta-feira, a Berlinale chorou à japonesa com Ryûsuke Hamaguchi e sua “Wheel of Fortune and Fantasy”, o mais forte candidato ao prêmio de melhor roteiro do 71º Festival de Berlim, que encerra nesta sexta-feira sua edição pocket de pandemia (iniciada na segunda). Seus diálogos são um esplendor. Trata-se de um longa em três episódios, no qual toneladas de palavras vomitadas por atrizes em estado de graça soam redentoras aos tímpanos, numa linha lúdica bem próxima àquela seguida por ele em “Happy Hour”, laureado pelo júri de Locarno, em 2015. Há uma trinca de situações distintas no longa: a) uma jovem modelo fotográfica tenta estabelecer um triângulo amoroso com um quase casal; b) uma jovem cria uma armadilha afetiva para um arrogante professor ao ler um conto sexual para ele; c) uma moça lésbica esbarra com uma mulher na rua, que acredita ser uma velha amiga, e esta, mesmo sem ser a tal pessoa imaginada, aceita representar esse papel. “Trabalhamos num mundo de aparências, onde a sociedade oprime nossos desejos. A palavra reage ao corpo do meu elenco e deles extrair uma mirada poética que fura esse cerco do que é aparente”, disse Hamaguchi ao Estadão.
Outros títulos se destacaram na corrida por prêmios desta Berlinale como “Next Door”, uma comédia dirigida por Daniel Brühl, ator teuto-espanhol de “Adeus, Lênin!” (2003) e “Rush: No Limite da Emoção” (2013). No longa, ele vive um astro que, prestes a rodar um filme de super-herói em Hollywood, é confrontado por um sujeito, em um bar, sobre a realidade alemã. O favoritismo ao Urso dourado, contudo, divide-se entre o romeno “Bad Luck Banging or Loony Porn”, de Radu Jude, e o libanês “Memory Box”, do casal Joana Hadjithomas e Khalil Joreige.

As demais batucadas dessa Berlinale:
MUDANÇA, de Welket Bungué: Partindo de uma sobreposição de corpos por projeções de pinturas originais, concebidas pelo artista Nú Barreto, o astro da recente adaptação de “Berlim Alexanderplatz” constrói “Mudança” como se fosse um “gerúndio”, um vir a ser, da afirmação das populações negras diante da violência acumulada ao longo de séculos a fio das mais inomináveis bestialidades. Para isso, o ator-cineasta utiliza dois textos literários (entre a prosa e a poesia) escritos por seu pai, Paulo T. Bungué. A música composta por Mû Mbana dá aos poemas “Mudança” e “COBDE” uma sinestesia ainda ampla.

COPILOT (“Die Welt wird eine andere sein”), de Anne Zohra Berrached: A realizadora de “24 Semanas” (2016) regressa à Berlim pelo Panorama, com a história de dois jovens, Asli (Canan Kir) e Saeed (Roger Azar), que se casam em segredo, gerando cumplicidade eterna em uma mesquita de Hamburgo. Mas depois que ele desaparece, a vida de Asli desmorona, não apenas por dilemas afetivos, mas por um segredo que pode abalar o mundo todo.

LIMBO, de Soi Cheang: O ator e cineasta de Macau responsável pela franquia “The Monkey King”, iniciada em 2014, emprega a estética hongkonger mais brutalista para reanimar a linhagem do thriller noir asiático. O achado desta atração bruta da Berlinale Specials 2021 está na composição da fotografia de Cheng Siu Keung, pontuada por um uso onipresente do P&B que remete ao cinema noir hollywoodiano dos anos 1940. Na trama, um policial novato tem que conter a fúria de um colega mais veterano na busca por um psicopata que amputa as mãos das mulheres que trucida.

NOUS (“We”), de Alice Diop: De origem senegalesa, a realizadora de “A Morte de Danton” (2011) e “O Plantão” (2016) cria um mosaico documental riquíssimo sobre a engenharia da exclusão na França a partir das pessoas com que cruza ao longo de uma linha ferroviária que corta Paris de norte a sul.

HYGIÈNE SOCIALE, de Denis Côté: Queridinho da Berlinale, o cineasta canadense volta ao evento com a história de um dândi que tinha tudo para ser um escritor, mas usa suas palavras com pólvora em vez de poesia. A história desse sujeito, Antonin (Maxim Gaudette) é narrada pelo diretor de “Vic + Flo Viram Um Urso” (2013) como um estudo das meias verdades que nos acossam.

TIDES, de Tim Fehlbaum: Um “Waterworld” germânico, cheio de ação, na moda das distopias. Produzida por Roland Emmerich (“Independence Day”), esta aula de ficção científica mostra uma Terra ilhada por marés gigantescas que comprometem a busca pela sobrevivência. Uma jovem astronauta (Nora Arnezeder, impecável) fará de tudo para sobreviver e salvar uma massa de miseráveis enquanto lida com um segredo.

NIGHT RIDERS, de Danis Goulet: Nesta distopia à moda canadense, a ex-programadora do TIFF – Toronto Film Festival e diretora de curtas como “Barefoot” (2012) nos leva a um futuro no qual as crianças são isoladas de seus país e tratadas como propriedade estatal, sendo manipuladas. Para proteger sua filha, Niska (Elle-Máijá Tailfeathers) acaba se unindo a uma organização secreta, ao mesmo tempo em que sua menina desenvolve poderes. É um “X-Men” indigenista de altíssimo requinte nos enquadramentos.

MOON, 66 QUESTIONS, de Jacqueline Lentzou: A prolífica curta-metragista ateniense estreia nos longas com uma comovente história de reconciliação entre pai e filha na Grécia de hoje. Na trama, uma jovem retorna à realidade grega para cuidar de uma adoentada figura paterna da qual pouco sabe.

PETITE MAMAN, de Céline Sciamma: Encantador estudo sobre a habilidade das crianças para lidar com o luto a partir da imaginação, este drama disfarçado de conto infantojuvenil faz a diretora do belíssimo “Retrato de uma Jovem em Chamas” (2019) analisar a mente de uma menina que terá de lidar com a ausência materna.

LANGUAGE LESSONS, de Natalie Morales: Com traços de comédia romântica, este conto via Zoom é construído inteiramente com as ferramentas das plataformas de comunicação online, apostando na doçura ao narrar a amizade entre um viúvo (Mark Duplass, com ares de Adam Sandler) e sua professora de Espanhol, vivida pela própria diretora.

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