Geórgia será a diva da memória do DocLisboa

Geórgia será a diva da memória do DocLisboa

Rodrigo Fonseca

01 de julho de 2020 | 12h50

Rodrigo Fonseca
Sempre atento às narrativas do Real feitas no Brasil e sintonizada com o limite entre fato e ficção delineado por diferentes nações cinéfilas, o DocLisboa deste ano de 40ena assume a Geórgia como alvo de suas retrospectivas, confiando na argúcia do curador Marcelo Félix para revisitar uma nação que produziu algumas das mais ousadas imagens do império soviético. Em sua 18ª edição, a mostra lusitana – desta vez online – vai passar em revista a estética audiovisual georgiana, mapeando sua produção da década de 1920 até o presente. A mostra será o centro do programa do primeiro módulo do festival, que decorrerá de 22 de Outubro a 1 de Novembro, na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema. O programa reúne cópias recém-restauradas de filmes de realizaras e realizadores autorais como Lana Gogoberidze (do aclamado “The Waltz on the Petschora”); Mikhail Kalatozov (ganhador da Palma de Ouro de Cannes, em 1958, por “Quando Voam as Cegonhas”); Serguei Paradjanov (realizador do premiado “A Lenda da Fortaleza Suram”); e Otar Iosseliani (laureado em Veneza por “E a Luz Se Fez”). No papo a seguir, Félix contextualiza a relevência política e poética daquela filmografia.

O curador Marcelo Félix, responsável pela programação georgiana do DocLisboa

Ecos do cinema soviético ainda norteiam os Georgianos? Como?
Marcelo Félix:
A União Soviética é um tema compreensivelmente difícil para os georgianos, e a sua herança artística é também complexa. Mas é interessante realçar a relação actual no cinema da Geórgia entre uma produção cinematográfica que, de forma multifacetada, examina o país, uma política de visibilidade externa dessa produção e uma tradição soviética de relevância cultural do cinema, que resultava da ética e responsabilidade dos seus melhores criadores. Nesse sentido, o da importância do cinema como reduto de reflexão, penso que o cinema georgiano contemporâneo integra instintivamente essa seriedade.

Que legado Mikhail Kalatozov deixou para os georgianos e que filmes dele serão revistados pelo Doclisboa?
Marcelo Félix:
Mikhail Kalatozov (de seu nome original Mikheil Kalatozichvili) terá sido o realizador georgiano mais visto e reconhecido internacionalmente, fruto da visibilidade dos seus filmes no contexto da renovação e inovações do cinema mundial nos anos 60. Esse cosmopolitismo é uma referência que o cinema georgiano actual, sem dúvida, deseja repetir. A ressonância de Kalatozov nesses anos teve razões muito válidas. Ele era então um cineasta veterano que mantinha intactas as qualidades dos seus primórdios como operador de câmara e realizador integrado na vanguarda do cinema soviético inicial. A sua capacidade de leitura do passado recente a uma luz humana intemporal num filme como “Quando Voam as Cegonhas” e a sua interrogação moderna dos paradoxos da revolução em “Sou Cuba” foram gestos de um artista para quem os valores universais encontravam tradução numa pesquisa formal inquieta. Nessa pesquisa o tempo tem um lugar preponderante: Kalatozov foi um cineasta singularmente fascinado pelo tempo, pela sua passagem, as suas disjunções e continuidades desconcertantes e o seu uso na narrativa histórica. A programação da retrospectiva, que não engloba as obras desse último terço da sua carreira, incluirá um dos seus primeiros filmes, “O Sal da Suanécia”, documentário visualmente intensíssimo sobre as árduas condições da vida nessa região georgiana de difícil acesso.

Que novas perspectivas cineastas como Otar Iosseliani e Lana Gogoberidze abriram para a produção da Geórgia?
Marcelo Félix:
O cinema de Iosseliani é lacônico, ou mesmo mudo, assentando na expressiva musicalidade da sua construção. O discurso de Lana Gogoberidze une a poesia discreta, elíptica, do que é difícil dizer (ou não pode ser dito) a uma discussão das forças sociais que tem de ser verbalizada. É inevitável lembrar que, ao contrário do cinema georgiano de hoje, no cinema soviético daquela época, existiam poucas mulheres atrás das câmaras. Lana Gogoberidze tem a oportunidade de se embrenhar num imenso universo subexplorado. Iosseliani, pelo contrário, sente-se sufocar. A sociedade que ele pretende mostrar, com humor solidário e subversivo, é a das margens, dos inadaptados e dos indiferentes. Para escapar à censura e às proibições ele abandona o país nos anos 80, vindo a fazer a maior parte da sua carreira em França, onde prolonga os seus temas. Enquanto isso Lana prossegue o seu caminho como cineasta soviética respeitada pela integridade do seu olhar, e após a independência da Geórgia ela manterá a capacidade de leitura, lúcida e compassiva, da história e do indivíduo. Isso é claro no seu filme mais recente, “O Fio Dourado”, que ela realizou com 90 anos e estreou em Tbilissi no ano passado. É um filme em que a importância da memória é revista à luz de uma benevolência que não engana. Para ela, como para Iosseliani, a vida individual e a vida colectiva não podem funcionar em esquecimento mútuo.

Cena de “O Fio Dourado” (“Okroz Dzapi”, 2019), de Lana Gogoberidze

Em paralelo ao trabalho de Félix, a direção do Doclisboa manda um recado sobre o cinema brasileiro:
“Durante o verão iremos começar a anunciar alguns dos filmes seleccionados, mas podemos já partilhar que estamos muito contentes com a presença brasileira que estamos a começar a construir na nossa programação desta edição. Todos os anos, recebemos vários filmes brasileiros e nesta edição não será excepção, contamos ter uma presença muito forte e diversa. Para além dos filmes, o cinema brasileiro encontra também no Doclisboa outros espaços. O laboratório Arché, incluído sob o nosso projecto de actividades de indústria Nebulae, acolhe projectos ibero-americanos em desenvolvimento. Os projectos brasileiros têm sempre uma grande ressonância, estabelecendo relações importantes com outros festivais internacionais e possíveis financiadores, co-produtores ou colaboradores”.

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