Gary Oldman recebe um merecido Globo de Ouro

Gary Oldman recebe um merecido Globo de Ouro

Rodrigo Fonseca

08 Janeiro 2018 | 02h04

Gary Oldman conquista o Globo de Ouro por seu desempenho como o Primeiro-Ministro inglês Winston Churchill em “O Destino de uma Nação”

Rodrigo Fonseca
Ninguém merecia mais o Globo de Ouro de Melhor Ator de 2018 do que Gary Leonard Oldman e a justiça se fez para ele: foi laureado por seu desempenho memorável em O Destino de uma Nação (Darkest Hour). Que venha o Oscar. O longa-metragem estreia aqui no dia 11.

É da natureza dos filmes-plenária – produções nas quais o debate político é o foco da narrativa, num embate necessitado de enquadramentos mais fechados, mais próximos da cena teatral do que do planificação fílmica clássica – confiar seu timão à palavra, o que pode ser conferido de Costa-Gavras (Sessão Especial de Justiça) a Manoel de Oliveira (O Quinto Império). Mas até as palavras da História (ou seja, fragmentos de discursos reais, reconstituídos) vergam, em continência, quando um ator do porte de Gary Oldman está em cena. Esse vergar, que se testemunha do início ao fim do febril O Destino de uma Nação, é algo que só se viu em poucos atores, tipo sir Laurence Olivier (em Henrique V), Dirk Bogarde (Os Deuses Malditos) e Gérard Depardieu (Danton – O Preço da Revolução). Agora, o londrino de 59 anos, que vive em nosso imaginário desde Sid & Nancy (1986), enfim parece apto a receber o reconhecimento de que merece. Sob a direção do subestimado Joe Wright (Desejo e Reparação), ele recria o processo de empoderamento (é… essa palavra serve pra ambos oa sexos, tá?) parlamentar de Winston Churchill. Com estreia prevista para a janeiro, por aqui, o longa-metragem concorre ao Globo de Ouro (Oldman, óbvio) e tem tudo papa parar o Oscar, em março. E merece.

Em meio ao levante nazista sobre a Europa, o Parlamento dá sinais de esmorecimento e a cúpula política inglesa resolve trazer um estadista com fama de fracassado para ter a dianteira nas negociações com Hitler. Uma figura fraca favoreceria jogatinas internas por baixo dos panos e do nariz do Rei George (construído com delicadeza e dor por Ben Mendelsohn). Na busca por um “eleito”, o nome de Churchill (Oldman, visceral) desponta como a opção certa, por seu tônus patético. Há, de cara, a hipótese de que Wright vá seguir a cartilha tradicional das biopics sobre líderes políticos, e narrar a gangorra da derrota à consagração. Mas o formato narrativo mais saliente do diretor se impõe, transformando a cena num palco para o espetáculo de um homem edificando seu próprio caminho no torvelinho histórico de seu continente. Sua consagração coincide com a batalha de Dunquerque, na qual barcos civis ajudaram as Forças Armadas da Inglaterra a escapar do levante das tropas hitleristas. O tal confronto foi narrado de modo magistral em Dunkirk, de Christopher Nolan, diretor de quem Oldman é um habitual colaborador.

Tem um conceito em teoria dramática que chamamos de set piece e que faz referência às metonímias que definem e representam uma peça artistica, tipo o “ser ou não ser” de Hamlet, o ganido de Axl Rose em Don’t Cry ou o saltitar de Tom Hanks no órgão da Toys’r’Us em Quero Ser Grande. O set piece neste tenso thriller político de Wright é o passeio de metrô do Primeiro-Ministro inglês. É de chorar.

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