Gale Anne Hurd revela bastidores do ‘Terminator’

Gale Anne Hurd revela bastidores do ‘Terminator’

Rodrigo Fonseca

06 de agosto de 2021 | 15h50

Uma das produtoras de maior sucesso de Hollywood, Gale Anne Hurd conquista um prêmio especial em Locarno pelo conjunto de seus filmes, incluindo “O Exterminador do Futuro” (1984)

Rodrigo Fonseca
Debruçada sobre novos projetos de série derivados do “The Walking Dead” e envolvida no documentário “Mass Effect: The Story of YouTube”, a produtora Gale Anne Hurd sai do 74º Festival de Locarno, na Suíça, nesta segunda, levando na mala um prêmio honorário por ter redefiniido os rumos do cinema de ação e de ficção científica nos EUA, na década de 1980, ao transformar o roteiro de “O Exterminador do Futuro” (1984) em uma milionária realidade. Aos 65 anos, a mulher que desafiou o machismo de Hollywood em seu seguimento industrial mais brucutu fez a maratona cinéfila europeia chorar, com suas recordações do jovem Arnold Schwarzenegger. Cults como “Síndrome de Caim” (1992), de Brian De Palma (com quem teve uma filha, Lolita) também integram seu currículo, além de passagens pela Marvel, com o Hulk de Ang Lee, em 2003, e a versão de 2008, com Edward Norton no papel do golias verde, eu teve partes rodadas na comunidade Tavares Bastos, no Rio de Janeiro.
“Eu decidi migrar para a TV, produzindo ‘The Walking Dead’ ao perceber que os filmes de ação passaram a dar mais valor a explosões do que a personagens, ao contrário daquele momento histórico em que Jim (apelido do diretor James Cameron, com quem foi casada de 1985 a 1989) e eu batemos nas portas de todos os estúdios tentando vender o Exterminador”, conta Gale em entrevista ao Estadão, em Locarno. “No início dos anos 1980, recebemos ‘Não!’ em 99% das companhias, até chegarmos à Orion Pictures. E às vésperas de filmarmos, recebemos uma ligação de um executivo perguntando: ‘Desculpa, Gale, mas me explica uma coisa: de que planeta mesmo vem o Exterminador?’. Eu pacientemente respondi: ‘É um filme sobre viagem no tempo, não sobre outros planetas’. E o tal executivo emendou: ‘Acho que vamos ter problemas, pois a gente leu o roteiro e ficou com a impressão errada’. Ali entendi que fazer aquele filme seria o desafio de uma vida. Mas, se ele desse certo, poderíamos fazer o que quiséssemos. E o ator que fizesse o Exterminador, se convencesse, teria todo para virar ‘o’ astro daquela década. Foi o que aconteceu”.
Fã de documentários (“Hoje é no terreno da não ficção que está a dramaturgia mais potente do audiovisual”, diz), Gale lembra do quão constrangedor foi o primeiro encontro dela e James Cameron com Schwarzenegger – mas não por culpa do ator. “O agente dele à época era um dos nomes mais poderosos de Hollywood e marcou um almoço conosco num restaurante que servia caviar e água importada, cujos pratos não cabiam no nosso orçamento. Lembre-se que a gente filmou o primeiro ‘Exterminador’ só com US$ 6 milhões. Schwarzenegger chegou todo empolgado e só falava do personagem, um robô que vinha do futuro. Estava nítido pra nós que ele queria fazer. Começamos o papo na hora do almoço e saímos quando os garçons estavam recolhendo as mesas. Mas a gente não tinha condição de pagar a conta. Pensávamos: ‘Se esse cara perceber que a gente não pode arcar com um almoço, vai, de cara, achar que não vamos ser capazes de pagar o filme… e o cachê dele. Aí veio a surpresa: ele sacou a situação, virou-se pra nós e disse: ‘Eu pago… mas guardem esse papel pra mim’. Schwarzenegger estava com um contrato com o produtor Dino De Laurentiis que o obrigava a fazer mais um filme da franquia ‘Conan’. Atrasamos as filmagens de ‘O Exterminador’ por dois anos, esperando por ele. Mas, valeu”, comemora Gale, lembrando que o filme arrecadou treze vezes o que custou.

O jovem Arnold Schwarzenegger no papel do androide que tenta destruir a humanidade

Sua sequência, “O Julgamento Final” (1991), também produzido por ela, faturou US$ 520 milhões e entrou para a História pelo uso revolucionário dos efeitos especiais. Mas hoje, Gale diz que a invenção está em outras frentes. “É preciso um esforço para preservar as salas de exibição, porque não é lá que estão os grandes personagens e, sim, nos streamings, onde a possibilidade de se assistir a uma narrativa de vários episódios de uma só tacada, na forma de maratonas, oferece mais chance de se aprofundar em questões humanas”, disse Gale, que polemizou em Locarno ao se manifestar acerca da decisão da atriz Scarlett Johansson de processar a Dinsey por ter lançado “Viúva Negra” em plataformas digitais e nas telonas ao mesmo tempo, encolhendo uma venda de ingressos talhada para bilhões. “Tudo depende do contrato que ela assinou. Se o contrato prevê lançamento exclusivo em salas, antes de outras janelas, vão ter que pagar. O mercado funciona assim”.

Locarno termina no dia 14, com a entrega do Leopardo de Ouro e a exibição de “Respect”, a cinebiografia da cantora Aretha Franklin, com Jennifer Hudson. Dos longas-metragens em competição pelo Leopardo de Ouro, “Petite Solange”, da diretora Axelle Ropert, da França, é o primeiro destaque de Locarno, narrando a desagregação de uma família, entre traições e decepções de um casal (Léa Drucker e Philippe Katerine), do ponto de vista de uma menina (Jade Springer). Sábado é dia de Brasil em Locarno, com “A Máquina Infernal”, de Francis Vogner dos Reis, que dialoga com a recente onda do “extraordinário”, ou seja, a vigência de vetores do inexplicável e do metafísico entre nós, a partir de um olhar, nas margens do terror, para o apocalipse em uma fábrica do ABC Paulista. Difícil não pensar na luz de “Christine, o Carro Assassino” (1983) diante da fotografia de Alice Andrade Drummond e Bruno Risas. A sequência de uma discussão sobre os rumos de uma linha de montagem evoca desde o seminal “A Classe Operária Vai ao Paraíso” (Palma de Ouro de 1972), do italiano Elio Petri, até o português “A Fábrica de Nada” (2017), de Pedro Pinho. A montagem de Cristina Amaral leva o clima sombrio à ebulição.

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