Gala na TV para ‘Que Horas Ela Volta?’

Gala na TV para ‘Que Horas Ela Volta?’

Rodrigo Fonseca

06 Janeiro 2017 | 11h06

De Sundance para o mundo:

De Sundance para o mundo: “Que Horas Ela Volta?” na grande do Canal Brasil

RODRIGO FONSECA
Há cerca de dois anos, Anna Muylaert estava preparando as malas para ir a Sundance, em Park City, Utah, nos EUA, para exibir a dramédia Que Horas Ela Volta? no mais badalado festival de cinema independente. Ali começaria a carreira de um dos mais festejados longas-metragens brasileiros das últimas décadas, marcado por sucesso de público e crítica. Neste sábado, quem não viu, terá a chance de conferir a produção no Canal Brasil, às 22h. E quem já viu, pode rever e se comover (de novo).

Guloseimas são ingredientes essenciais à dramaturgia da diretora Anna Muylaert. Em Durval Discos (2002), um comerciante de LPs (Ary França) se empapuça de coxinhas de galinha na hora do almoço. Em É Proibido Fumar (2009), Paulo Miklos discutia com Glória Pires sobre a importância de molho para amaciar o filé de salmão. No caso de Que Horas Ela Volta?, um drama de tintas cômicas pelo qual ela pode ser indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro, um pote de sorvete de chocolate com amêndoas é o estopim para uma querela sobre classes sociais. E se fala também de guaraná, suco de lima da persa e geleia. São itens essenciais à dieta da família formada por Dr. Carlos (papel desempenhado pelo escritor Lourenço Mutarelli) e Dona Bárbara (vivida por Karine Telles, nas raias da maestria), patrões da protagonista: Val, encarnada por Regina Case numa atuação em estado de graça. Eles comem o que é supérfluo em relação à cesta básica dos brasileiros porque podem: é gente de finanças abastadas, proprietária de uma casa faraônica numa zona nobre de São Paulo, com um filho adolescente de criação cercada de mimos, Fabinho (Michel Joelsas), hoje em vias de prestar vestibular. É uma casa com piscina, e esta é o epicentro do ar aristocrático que lá impera. Só nada em suas águas quem tem pedigree econômico.

Quem prepara os quitutes que Dr. Carlos deixa quase todo no prato é Val, num esforço de excelência de quem só exerce a própria subjetividade conjugando o verbo servir. “Sirvo (bem), logo existo… para os meus patrões”, pensa ela, numa lógica de marxismo míope, na qual se contenta em comer gelado de segunda que apodrece na geladeira de Dona Bárbara. Seu prazer é dar o melhor de si a Fabinho, a quem ajudou a criar, como babá, como mãe postiça, numa maternidade encenada. Isso porque sua filha real, Jéssica (Camila Márdila), foi criada a léguas de distância, em Pernambuco, sob os cuidados de uma amiga e o olho atento de um pai sobre o qual pouco se sabe.

Doeu em Val deixar Jéssica longe. Mas era necessário. As necessidades profissionais impuseram a distância. E o xodó de Fabinho era um bom analgésico. No castelo de aparências da serviçal de Dona Bárbara e Seu Carlos, tudo funcionava, mesmo ante à dor da saudade. Mas algo vai ameaçar o funcionamento dessa engrenagem: a decisão de Jéssica em prestar vestibular para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Para isso, ela terá de deixar o Nordeste e viver com a mãe. É uma notícia que agita o coração de Val e produz pouco mais do que indiferença no peito de seus chefes. Isso até Jéssica chegar, desfilando suas curvas morenas e sua audácia a despeito da repressão classista a qual Val é bovinamente obediente.

Turbilhão de desejos e rebeldias, Jéssica vai ser a força dinâmica que despertará Val de seu sono proletário e, ao mesmo tempo, representará a energia oponente que sacode a vaidosa inércia de Dona Bárbara frente ao poleiro de seu macho e de seu rebento. São duas fêmeas a ciscar no mesmo terreiro, aos olhos sedentos de um artista plástico (Seu Carlos) que desistiu de criar para ver o espetáculo da vida passar diante de seus olhos impotentes. São duas fêmeas com necessidade de autoafirmação. Do embate entre elas, surgem as faíscas que animarão Val a repensar sua própria condição, seu local no mundo.

É um combate que se dá expressa numa aula de bons diálogos, mas também num trabalho de fotografia e de montagem (assinados por Bárbara Alvarez e Karen Harley) pautado pela observação, e não pela interferência. Os olhos de Muylaert contemplam aquele caos mas deixa que ele se ordene sozinho. Há um circo em chamas diante de suas pupilas: um picadeiro de inclusões e exclusões típicas de um Brasil onde certas liberdades só podem ser exercitadas da porta da cozinha para trás. É contra esse cabresto que o filmaço de Muylaert se faz notar – e se faz doer.