‘Gagarine’ leva o Varilux 2020 às estrelas

‘Gagarine’ leva o Varilux 2020 às estrelas

Rodrigo Fonseca

23 de novembro de 2020 | 10h37

Alseni Bathily protagoniza “Gagarine”, drama sobre um jovem que se refugia em sua imaginação, fascinado pelas estrelas, a fim de preservar o conjunto habitacional onde cresceu

Rodrigo Fonseca
Xará na sonoridade e na coragem do cosmonauta russo Yuri Gagarin (1934-1968), famoso por ter sido o astronauta pioneiro na viagem ao espaço, o adolescente Youri (Alseni Bathily), figura seminal do Festival Varilux 2020, herda de seu ídolo um instinto de preservar a glória de seus conterrâneos na batalha do dia a dia contra o Capitalismo. Sua missão em “Gagarine”, filme de Fanny Liatard e Jérémy Trouilh chancelado por Cannes e apresentado aos brasileiros na maior maratona do audiovisual francófono nas Américas (atualmente em cartaz em 89 salas de 42 cidades do país) é proteger seu complexo habitacional. Este, situado nos arredores de Paris, foi batizado em tributo ao viajante estelar da URSS como Gagarine, com a aprovação municipal do Partido Comunista Francês. O explorador do espaço teve a honra de o inaugurar em 1963. Seus blocos de apartamentos (370, divididos em 13 andares) foram desintegrados da paisagem da periferia e seus habitantes acabaram sendo realojados, mas as memórias persistiram no local até sua demolição. Mas Youri faz o que pode para impedir essa destruição no longa que será exibido nesta segunda-feira no RJ, às 15h no Barra Point e no Cine Santa Teresa, com uma sessão às 16h no Espaço Itaú. Em terras francesas, sua carreira em circuito comercial está prevista para janeiro.
“Temos um espaço da cidade cheio de vida, mas temos um rapaz, no auge das potências da juventude que se isola em sua imaginação. Mas, nela, ele encontra uma forma de poder se expressar”, diz Fanny, por Zoom, ao P de Pop.

“O desafio aqui era encontrar um equilíbrio entre o onírico e o real”, disse Jérémy, em dobradinha à resposta de sua colega de direção. “Nossa alternativa foi buscar uma engenharia de filmagem bem simples, que mantivesse a câmera sempre à altura do rosto de Alseni”.

Em 2015, a dupla abordou esse universo de um espaço público condenado em um curta-metragem homônimo. Agora, no longa, eles exploram mais a força das mulheres que habitam no mesmo conjunto de Youri, em especial a jovem Diana (Lyna Khoudri), que será crucial nos planos do protagonista. “Num espaço onde as fronteiras são as casas dos vizinhos, as mulheres vão ter um papel crucial de integração”, diz Fanny. “Elas são o motor afetivo da região”.

Vai ter Varilux até 3 de dezembro, quando o evento comemora os 90 anos de Jean-Luc Godard e os 60 anos de “Acossado”. A Unifrance, órgão do governo francês que zela pela produção audiovisual, é um dos apoiadores do festival organizado por Emmanuelle e Christian Boudier.

p.s.: É dia de “Como Se Fosse a Primeira Vez” (“50 First Dates”, 2004) na “Sessão da Tarde”: a exibição na Globo vai ser às 14h45 deste 23 de novembro, abrindo caminhos para o bem querer. É um filme perfeito para enamorados que se reencontraram ou para quem reza pela cartilha do eterno recomeço. Adam Sandler, então no auge do prestígio, ainda somando uma média de bilheteria de US$ 100 milhões por filmes, vive Henry Roth, um biólogo marinho bom de lábia no quesito cantada. Mas sua manhã para seduzir ganha um norte quando uma Estrela de Belém chamada Lucy cruza seu caminho. Professora de Artes, a pintora interpretada (com vividez) por Drew Barrymore luta dia a dia com um problema de perda da memória recente. Seu low point é não registrar nos ossos da lembrança as vivências posteriores ao acidente que fez fratura em seu cérebro. Seu pai (Blake Clark) e seu irmão (Sean Austin) a amam, mas são oponentes em sua melhora, pois a protegem a realidade de uma quase amnésia. Mas a chegada de Roth é quase um cometa Halley em seu peito e não há superego que o detenha. Caberá a ele a tarefa de conquistar a moça, do zero, todo dia… TODO SANTO DIA, como todo amor sagrado exige. A produção, que custou US$ 75 milhões e faturou US$ 198 milhões, é um marco dos anos 2000, com um roteiro pautado pela originalidade. Nas telas brasileiras, o longa ganhou uma dublagem de requinte. Miriam Ficher dubla Drew e Alexandre Moreno, Sandler.

p.s.2: Nesta “Tela Quente” tem “Nasce Uma Estrela” (“A Star Is Born”, 2018), de Bradley Cooper, com Lady Gaga cantando “Shallow”.

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