Gabriel Mascaro manda a real sobre a fantasia

Gabriel Mascaro manda a real sobre a fantasia

Rodrigo Fonseca

08 de agosto de 2020 | 13h11

O diretor pernambucano Gabriel Mascaro conversou sobre sua estética com os curadores do Na Real_Virtual na sexta

Rodrigo Fonseca
Jazida das mais auríferas para os estudiosos e para os praticantes do documentário como um veio narrativo, o seminário Na Real_Virtual se encaminha para sua última semana, fechando um mês de palestras, após “sextar” na alta voltagem do anfíbio Gabriel Mascaro, realizador pernambucano de fábulas (“Boi Neon”), fatos (“Avenida Brasília Formosa”) e cruzamentos dos dois registros. Veio dele, ali na URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020, a faísca que mais incendiou o debate de 7 de agosto no simpósio organizado sob a curadoria de Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos, e produzido por Márcio Blanco. A fagulha mais quente: “Disputar a borda do cinema. Isso me mobilizou muito enquanto ficção e acho que me fez ir mais além, pra pensar esse dilema entre documentário e ficção. A ficção, enquanto desejo, para mim, é a expressão mais honesta da verdade. Mais perigoso do que as ‘fake news’ é acreditar na verdade. Existem vários debates que estão tumultuando a nossa contemporaneidade. A democratização do falso é um problema filosófico”, disse Mascaro, ali, em meio a um papo sobre o que vai de seus .docs para suas ficções, como “Divino Amor” (2019), hoje incluída na grade da MUBI (www.mubi.com), a plataforma de mais devoção ao cinema autoral. “A forma do filme vai mediar a experiência. Vai criar o pacto pro filme acontecer”.

Sua reflexão gerou, nos curadores, uma reação de curiosidade instantânea: “Qual é o perigo de acreditar na verdade?”, cravou Mattos, jogando a bola para Mascaro, que arrebatou troféus em Veneza (para “Boi Neon”), aplausos de Sundance e da Berlinale (dados a “Divino Amor”), burburinhos de aclamação de Roterdã pra “Avenida Brasília Formosa” (2010) e menção especial pros fortes “Ventos de Agosto” (2015). “Acho que (verdade) é fantasia, não existe uma verdade. Uma sociedade em que se imagina que existe uma verdade é uma sociedade onde a ‘fake news’ está fadada a gerar fascínio. A gente fala em ‘fake news’ supondo que exista uma verdade e temos um problema filosófico enorme na nossa frente… dos bons. Não seria oposição. A densidade da verdade é pensar o conceito de verdade”, disse o cineasta, ainda encarando uma sabatina sobre o que seriam as balizas éticas de seu processo. “Acho que sou muito bem resolvido eticamente, nos processos dos meus filmes. Não é esse o ponto de vista que me afeta. O problema dos meus filmes são outros e que bom que eles possuem problemas, pois esses me mobilizam como artista para me confrontar nos trabalhos posteriores. Não vejo nenhum problema em criar armadilhas. O cinema, de alguma maneira, lida com a ideia de armadilhas e o documentário, também. O limite é o pacto que é travado de forma assimétrica mesmo. No ato de filmagem, de entrevista, de uma relação de performance, existe um desejo recíproco de que aquilo aconteça. O personagem tenta tirar proveito do que ele deseja falar, experimenta o desejo de o que ele quer entrar no filme, vive o desejo acerca de como ele quer ser visto… são vários regimes de visibilidade. A pessoa que está atrás das câmeras também está ali pensando assim. São várias variáveis, não existe uma instância única”.
Em meio às perguntas do Na Real_Virtual, Mascaro esmiuçou seus dispositivos: “Enquanto a gente está filmando, entra em exercício um pacto. Qual o limite? O limite é um pacto. Quando passa do limite, o personagem vai embora. Eu gosto disso, de jogar no limite. No meu filme ‘Um Lugar ao Sol’, um personagem vai embora e eu coloco isso no filme. Poderia esconder, mas para mim, é um lugar muito importante”, disse o diretor, que falou ainda de sua experiência com as artes visuais. “Fiz um trabalho chamado ‘Meu Tempo Livre’, e foi um desafio. Inclusive, acho que o Cao Guimarães (diretor e videoartista mineiro presente na plateia virtual do simpósio) é uma pessoa que estimulou muito a minha geração com seu percurso no cinema documental, nas artes plásticas, nos formatos diversos que vão conseguindo se ressignificar”.

Desde 20 de julho, tem um papo sobre a arte de documentar na maratona de conversas criada por Mattos e por Abrantes, mobilizando titãs da narrativa como Maria Augusta Ramos, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Carlos Nader, Petra Costa, Walter Carvalho, Belisario Franca e Joel Pizzini. Rolam conversas às segundas, quartas e sextas, tendo sempre um longa como eixo. “Doméstica” é o atalho que os curadores tomaram para chegar ao coração documental de Mascaro. Sua sinopse oficial: Sete adolescentes assumem a missão de registrar por uma semana a sua empregada doméstica e entregar o material bruto para o diretor realizar um filme com essas imagens. Entre o choque da intimidade, as relações de poder e a performance do cotidiano, o filme lança um olhar contemporâneo sobre o trabalho doméstico no ambiente familiar e se transforma num potente ensaio sobre afeto e trabalho.
Acho que ‘Doméstica’ jogou-me para a ficção. Ainda que a gente possa discutir esse dilema ainda. Esse é um dos filmes em que percebo mais fortemente a presença ficcional da performance. O filme me faz refletir sobre a negociação da imagem, sobre a performance e sobre o desejo de ficcionalizar”, diz Mascaro. “Em cada plano do ‘Doméstica’, percebo o desejo recíproco de o jovem querer ficar bem na imagem. Tem uma hora que um dos jovens está se organizando e se arrumando antes de fazer o depoimento sobre a empregada, que está ali tentando criar um espaço de visibilidade para si. Tem uma hora em que a personagem grita que o filme é sobre ela”.

O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

p.s.: Baseada na relação entre os Superamigos da DC e seus fãs de dente de leite, “Querida Liga da Justiça”, desenhada pelo brasileiro Gustavo Duarte, é o grande lançamento das bancas brasileiras da atualidade. Na trama, Moça-Gavião, Superman, Batman, Mulher-Maravilha & cia. batem um papo com as crianças que admiram suas peripécias.

p.s.2: Será exibido nesta segunda-feira, às 19h20, no Canal Brasil, o documentário “Lorna Washington – Sobrevivendo a Supostas Perdas”, com direção da dupla Leonardo Menezes e Rian Córdova. O documentário mostra a trajetória da transformista Lorna Washington, com 42 anos de carreira. O longa revela bastidores de shows LGBTQi+. Entre os entrevistados, a atriz Rogéria (em uma de suas últimas entrevistas em vida), a cantora Alcione, o carnavalesco Milton Cunha, o ativista político Almir França e as performers Rose Bombom e Isabelita dos Patins falam sobre estratégias de resistir. Conhecida por sua versatilidade, elegância e pelas opiniões polêmicas, Lorna Washington fez história em boates que marcaram época como: Papagaio, de Ricardo Amaral, Sótão, Le Boy e 1140. Sua militância na luta contra o preconceito e sua peleja pela conscientização sobre o HIV também a levaram à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro para receber uma homenagem. O .doc é uma história de lutas.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: