Furacão Tiefenthaler nas telas

Furacão Tiefenthaler nas telas

Rodrigo Fonseca

20 de agosto de 2019 | 11h42

Cena do novo longa-metragem de Marcelo Santiago, produzido pela LC, de Lucy, Paula e Luiz Carlos Barreto

Rodrigo Fonseca
Tá chegando ao fim a larica total…mente justificada que o cinema brasileiro sente com a ausência de Paulo Tiefenthaler das telonas: dia 29, essa força da natureza em forma de fina  picardia volta aos cinemas com “A mulher do meu marido”. Há três anos, com “O roubo da taça”, ele conquistou o Kikito de melhor ator em Gramado, o que jogou seu cacife e sua polpuda popularidade ainda mais alto. Agora, nas veredas da comédia de costumes, num “Pão, amor & fantasia” à moda mezzo carioca, mezzo argentina, Tiefenthaler depura seus dotes para a gargalhada numa autópsia em corpo vivo da moral conjugal. Seu novo longa-metragem, produzido pela LC Barreto e dirigido por Marcelo Santiago (do provocativo “Vampiro 40º”), é uma cartografia de afetos fraturados. Nele, Joana (Luana Piovani) sabe que seu marido Pedro (papel de Tiefenthaler) é infiel, mas não se importa e acredita viver um casamento feliz. Ele tem um relacionamento proibido com Pilar (Aylin Prandi), que é casada com Martin (Francisco Andrade). Até que Joana conhece Martin e também passa a se relacionar com ele. O quatrilho em questão renderá vexames, confusões e uma ciranda de risos.
Uma das iguarias centrais desse cardápio de diversão, Tiefenthaler fala sobre suas escolhas profissionais e sobre seus planos para o amanhã.

Qual é a moral que ronda os personagens de “A mulher do meu marido” e de que maneira os códigos de comportamento afetivo do filme refletem as discussões de gênero dos novos tempos?
Paulo Tiefenthaler: Os personagens do filme vivem a moral dos bons costumes da sociedade burguesa comum brasileira: estudar, trabalhar, ter uma família, se dedicar a família, cuidar da saúde e assim viver até morrer. Mesmo a traição, que está neste pacote, faz parte do jogo tradicional. A surpresa está na quebra desse paradigma, por um dos personagens que possibilita a história do filme reagir para um final que propõe um novo caminho. Há um novo paradigma. É nesse caminho do amor verdadeiro, mostrando a sua força, que o filme reflete, do seu jeito, a tolerância e aceitação de novos caminhos possíveis na relação humana, na aceitação da liberdade e felicidade do outro.
Que espaço essa produção dá pro seu humor e de maneira o teu personagem te dá espaço pro improviso, pra reinvenção?
Paulo Tiefenthaler: Esse personagem, o obstetra Pedro, é um pai correto e um marido bem-sucedido. Isso me levou a uma interpretação contida em comparação às minhas atuações anteriores, mais histriônicas. Minha atuação é bem realista buscando o drama comum do dia a dia, com momentos engraçados por conta da situação e menos pela interpretação. Improvisos foram raros, pois os diálogos estavam bem ajustados. Só um ou outro improviso pude fazer.
Há três anos o cinema te deu um Kikito, em retorno a uma atuação memorável em “O roubo da taça”. O que o prêmio te abriu de espaço de reflexão sobre sua própria carreira, sobre o humor que você vem lapidando de “Larica Total” até hoje?
Paulo Tiefenthaler: Quando eu não quis mais continuar com o projeto “Larica Total”, pra mim ficou claro que escolhi não fazer a minha carreira com um único personagem. O personagem desse programa era tipo um Chaves: poderia fazê-lo por trinta anos, o que não combinava em nada com meus anseios artísticos. Eu vinha do teatro e queria uma carreira como ator, não digo nem comediante, mas como ator de drama e, obviamente, de comédia também. Eu quis mostrar ao mercado e aos fãs do extinto programa que eu não era só aquilo, pois muita gente achava que era um reality show, o que, na época, foi maravilhoso. Mas, depois, veio a exaustão. Saí fora. O Kikito de Melhor Ator em Gramado, quatro anos depois, foi a coroação após escolher a volta aos personagens variados e a carreira de ator dramático, mesmo que fosse um roteiro engraçado. Hoje, começo a abrir de novo as portas do comediante com um novo projeto que estou escrevendo. Uma volta à anarquia que me consagrou sete anos atrás.

O que as tuas raízes teatrais te deixaram florescer nas experiências no cinema e na TV?
Paulo Tiefenthaler:
Sempre admirei no teatro as interpretações nada contidas que eu iria aprender mais tarde no cinema, principalmente. No cinema brasileiro, tem uma interpretação que amo até hoje, que é a do Paulo Autran em “Terra em Transe”, do Glauber Rocha, assim como do Jardel Filho no mesmo filme. Mas aquilo que o Autran faz no filme foi pra mim o encontro do teatro com o cinema. A coroação de Porfírio Diaz (Paulo Autran) mudou minha vida e eu só queria fazer cenas assim. Levei bons anos pra aprender o “menos é mais” e para entender o close do cinema e da TV. O teatro me deu a intimidade com a profissão.
Que novos cardápios esperar de você?
Paulo Tiefenthaler:
Estreio esse ano como diretor e produtor de série de televisão com o projeto que eu criei: “Perdido”, uma dramédia de treze episódios de 25 min. Co-produzi, co-dirigi, co-escrevi e co-protagonizei e estreia fim do ano no Canal Brasil. Será uma volta à grade do canal após o projeto “Larica Total”. Em 2017, cheguei a ter uma experiência com eles, no novo canal do youtube da emissora, com vídeos que gravava no celular e falava da vida, até meio seco. Muitas pessoas se decepcionaram, mas gostei de fazer. Chamava “Tiefentalks” e está lá no youtube do Canal Brasil. Talvez volte a fazer algo parecido no meu canal. O que vem por aí é a reestreia de um musical político que escrevi em 2017, com novo texto e talvez novo título. É um programa de comédia com novo personagem no youtube e terminando de escrever uma nova série pra TV. Quero voltar com força total pro teatro. Mas não quero dar detalhes, mas vou apresentar. Vou falar dele quando estiver pronto.

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