Furacão ‘Elis” arranca ovação de Gramado para show de Andréia Horta

Furacão ‘Elis” arranca ovação de Gramado para show de Andréia Horta

Rodrigo Fonseca

28 Agosto 2016 | 10h34

Andréia Horta alcança um novo (e altíssimo) patamar dramático como Elis Regina, num filme ovacionado

Andréia Horta alcança um novo (e altíssimo) patamar dramático como Elis Regina, num filme ovacionado como raro se viu em Gramado

RODRIGO FONSECA

Desde a vitória de Darlene Glória como Geni, na disputa pelo primeiro troféu Kikito, com Toda Nudez Será Castigado, em 1973, na edição número 1 de Gramado, ficou no ar do cinema brasileiro a vocação deste festival para repaginar a carreira de grandes atrizes, como se confirmou nos anos seguintes com Betty Faria em Anjos do Arrabalde (1987), com Estér Góes no esquecido Stelinha (1990), com Leandra Leal em Nome Próprio (2008), com Karine Teles em Riscado (2011). Sábado foi a noite de Andréia Horta na Serra Gaúcha. À frente de Elis, ovacionado como raras vezes se viu um filme ser ovacionado por aqui, levou a mineirinha de Liberdade, Liberdade (baita sucesso televisivo) às franjas das atuações memoráveis, daquelas de se imortalizarem na memória desta cidade e deste evento pelo potencial de comoção. A Andréia que cedeu o corpo para uma revivificação poética de Elis Regina (1945-1982) é estrela e é Atriz com “A”. Todo o calor que andava gerando suor em bicas por aqui parece ter ardido na sessão do longa-metragem de Hugo Prata, cujos méritos são mais plurais do que uma grande atuação, mas que se desenha a partir de uma generosa simbiose entre a câmera e o carne de sua protagonista.

Previsto para estrear até o fim do ano (e, a julgar pela recepção acalorada do povo gramadense, estrear com boas chances de estourar no boca a boca popular), Elis vai se desenhando como uma cinebiografia clássica, resgatando passos e precipícios de uma das maiores aves canoras da MPB até trocar de trilhos, optando por um caminho menos calcado em fórmulas de gênero e mais profundo. Está lá, bonitinho, fato a fato, emoção a emoção, a trajetória da Pimentinha pelos palcos, mas, a uma certa altura, o factual dá lugar uma dimensão mais introspectiva sobre a solidão de uma artista, de tamanho GG no imaginário brasileiro, mas de tamanho PP no quesito autossatisfação. Ali, num procedimento que lembra o eterno ‘Round Midnight (Por Volta da Meia-Noite), de Bertrand Tavernier, a cantora deixa a condição de mito pra ganhar status de gente, demasiadamente humana (e bela), ao mesmo passo em que a fotografia de Adrian Tejido vai se permitindo mais e melhores blues no controle do foco e no jogo com a luz.

Prata consegue preservar o trajeto de ascensão à queda sem que o filme caia de ritmo, tendo Andréia como aríete para seguir em frente. O elenco ao lado dela alimenta a fornalha da atriz com atuações provocativas, sobretudo a de Julio Andrade como o performer Lenny Dale e a de Lúcio Mauro Filho (surpreendente) como Miéle. Como existe o amor – e a vida, sua inimiga –, o diretor escalou dois grandes atores para dar alma às maiores paixões de Elis: Gustavo Machado faz um Ronaldo Bôscoli chave de cadeia e Caco Ciocler faz um César Camargo Mariano açucaradamente companheiro. Um não erra na dose da cafajestagem, nem o outro excede no mel. Um representa a margem do risco e o outro a margem da segurança. Mas esse bêbado equilibrista chamado coração nem sempre se satisfaz com nenhuma dessas instâncias, como Elis comprovou em sua trajetória curta, mas luminosa nos palcos.

E de hit em hit, as memórias dela, revividas numa operação cinematográfica de imersão no fino da fossa levou Gramado ao prazer. Talvez só no ano de Colegas, o vencedor de 2012, e na sessão de Apolônio Brasil – O Campeão da Alegria, prêmio do júri de 2003, a polis gramadense tenha se emocionado tanto com um longa em disputa pelo deus-sol dos gaúchos, o Kikito. Desde já, logo no abre-alas, o de melhor atriz já parece ter encontrado uma dona. Mas… ainda tem muita água para rolar.

Depois de Elis, veio o divertido O Roubo da Taça, uma chanchada moral sobre o sumiço da Jules Rimet. E nessa comédia torta, sem medo de ser sacana, Paulo Tiefenthaler saciou de vez a larica da gente por um trabalho à altura de seu talento. Foi, inquestionavelmente, uma noite de grandes filmes, com menções honrosas para um curta com CEP de MG: Aqueles Cinco Segundos, no qual o diretor Felipe Saleme mostrou o quanto uma querela de casal (a faiscante Luciana Paes e Gabriel Godoy) pode ainda render um espetáculo dramatúrgico vivo.

Domingo será noite do esperadíssimo O Silêncio do Céu, de Marco Dutra, aqui. E esta tarde, às 14h, o ás da voz Márcio Seixas passa por aqui para falar de dublagem e driblar os preconceitos contra sua classe.