‘Fuga’, que anima o Oscar, estreia dia 21 de abril

‘Fuga’, que anima o Oscar, estreia dia 21 de abril

Rodrigo Fonseca

25 de março de 2022 | 13h35

Produção dinamarquesa concorre às estatuetas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood em três frentes

RODRIGO FONSECA
Domingo é a cerimônia do Oscar 2022 e enquanto a Disney se esfalfa pra convencer o mundo de que “Encanto” presta (#sqn), a animação que, de fato, fez diferença nos corações e mentes em 2021 trilha seu caminho na direção da estatueta dourada é outra… e não vem dos EUA: “Fuga – Nenhum Lugar Para Chamar De Lar” (“Flee”), da Dinamarca. Com estreia no Brasil marcada para 21 de abril, essa produção de US$ 3,4 milhões entrou na briga pelos prêmios de Melhor Longa Documental, Melhor Longa Animado e Melhor Filme Internacional. Não é o favorito em nenhuma das três frentes, mas pode, deve e MERECE fazer barulho. Desde sua primeira exibição em janeiro do ano passado, em Sundance, de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri, o documentário animado dirigido por Jonas Poher Rasmussen já foi coroado com 82 láureas. Desde então, ele abriu o É Tudo Verdade, no Brasil; venceu o troféu Cristal (a Palma dourada) do maior festival mundial dos animadores, Annecy, na França; e ainda concorreu ao Globo de Ouro. Em sua delicada, mas doída narrativa, Rasmussen (de “Searching for Bill”) registra um passado de seu amigo de juventude Amin Nawabi. Esse é o pseudônimo de um intelectual altamente graduado que, às vésperas de se casar com seu namorado, luta com segredos dolorosos ligados à sua infância em solo afegão, que manteve escondidos por 20 anos e que ameaçam desestabilizar sua paz e seu futuro. A violência espreita Amin todo o tempo. Parece introjetada nele, mesmo quando ele se encontra seguro. E a sensação de que o preconceito pode devolvê-lo a seu passado de bestialidades torna o filme ainda mais farpado.
“Como a história de um refugiado acaba por polarizar opiniões, esse filme se tornar político, mas ele foi concebido como a história de um amigo, de quem eu cresci bem próximo, a fim de entender como ele chegou no meu país, num êxodo de si mesmo”, disse Rassumussen ao Estadão, via Whatsapp. “Existe uma universalidade que eu busquei aqui na representação de alguém encontrar um lugar para si onde possa se sentir aceito”.

Um dos aspectos que mais impressionam em “Fuga – Nenhum Lugar Para Chamar De Lar” (“Flee”) (“Flugt”, no original escandinavo) é sua sofisticada direção de arte, que – somada a uma abrasiva mirada política e a um ataque à homofobia – fez o longa sair ovacionado de Sundance. Imagens de um jovem Jean-Claude Van Damme, estilizado, em “O Grande Dragão Branco” (1987), dão um toque de exotismo a um .doc que viaja pelo mundo tentando tentar as violências pelas quais Amin e sua família passaram. A referência ao kickboxer belga vem da paixão de Amin por ele, que vai além da cinefilia, passando pela atração sexual que sentia, já garoto, pelo astro. Uma paixão que o cineasta revela com muita delicadeza. Nada é gratuito no filme. Nada devassa a intimidade de Amin. Ao deixar Cabul, seu berço, às pressas, por conta de uma brutalidade contra seu pai, que custa a ser explicada no filme, ele acaba na Rússia, ainda sob jugo soviético, vivendo sob condições sub-humanas, atrás de dignidade. Só depois, chega à Dinamarca. Nesse meio tempo, ao longo de suas andanças, viu Van Damme aqui e ali na TV, assim como Rasmussen, mas sob focos distintos. De um lado, vemos o desabrochar da sexualidade, a luta pelo reconhecimento de um amor LGBTQ+. Do outro, vemos um pacto respeitoso de alteridade. E vemos, ainda, o desabrochar a animação escandinava com um encantamento singular.

p.s.: A Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) programou, em conjunto com a Cavídeo, sessões dos filmes “O Profissional” (“Le Professionnel”, 1981) e “Uma Dupla Em Ponto de Bala” (“Salt and Pepper”, 1968) em homenagem, respectivamente, ao ator Jean-Paul Belmondo e ao diretor Richard Donner, que nos deixaram ano passado. Os dois longas foram escolhidos por terem em comum o fato de flertar com a estética criada nas produções que envolvem o agente secreto James Bond. As sessões acontecem na terça-feira, 29 de março, no Estação NET Botafogo 3, a partir das 16h. Na mesma data será lançada a revista Melhores Filmes de 2021, com textos sobre os longas eleitos, homenagens e avaliações sobre como foi o ano do cinema no Rio de Janeiro em 2021.

p.s. 2: Vai ter Brian De Palma na TV Globo neste sábado, às 15h: “Missão: Impossível” (1996), com Tom Cruise em um de seus desempenhos mais arrojados no papel de Ethan Hunt. Marco Antônio Costa dublou Cruise no Brasil.

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