‘Fuga’ está a um passo do Oscar

‘Fuga’ está a um passo do Oscar

Rodrigo Fonseca

25 de dezembro de 2021 | 11h44

Amin saiu do Afeganistão, passou pela URSS e fincou os pés na Dinamarca em um périplo histórico repleto de conflitos políticos e homofobia retratado em “Fuga” (“Flee”), um .doc animado

RODRIGO FONSECA
Desde sua passagem pela abertura do É Tudo Verdade, em abril, “Fuga” (“Flee”) já contabilizou 50 prêmios, entre eles o troféu Cristal de Annecy (a Cannes da animação), erigindo uma das mais sólidas trajetórias entre todos os filmes desta temporada pré Oscars. É um .doc animado arrebatador. Revelada ao mundo em Sundance (nos EUA) em janeiro passado, a produção dinamarquesa entrou esta semana em duas “shortlists” da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que podem assegurar sua presença na disputa pelas estatuetas mais cobiçadas do cinema. Dirigido por Jonas Poher Rasmussen, o doído longa-metragem foi citado entre os 15 semifinalistas ao Oscar de melhor documentário e ao de melhor filme internacional.
“Vivemos cercados de dramaturgias que parecem muito distantes da nossa realidade mas que revelam o quanto há modos silenciosos de se experimentar a dor. O documentário existe para desafiar o silêncio”, disse Rasmussen ao P de Pop do Estadão via celular, num momento em que se consolida como um potencial oscarizável.
Filmes do Grande Dragão belga Jean-Claude Van Damme foram o ponto de interseção entre o cineasta escandinavo e um refugiado afegão cuja história de êxodo, marcada por brutalidade política e homofobia, mas repleta de coragem, virou a animação de maior pluralidade política de 2021. Laureado em Sundance com o Grande Prêmio do Júri, “Fuga” (“Flee”) tem força pra desafiar a soberania da Disney (e da Pixar) sobre os votantes da Academia. Animando as humilhações de uma família que sai de Cabul para a Rússia, ainda sob jugo soviético, vivendo sob condições sub-humanas, atrás de dignidade, Rasmussen usa um deligado jogo de cores para reviver a Eurásia dos anos 1980 e 90, recriando ainda a cidade de Vallekilde, na Dinamarca, onde cresceu. Foi lá que o diretor de .docs premiados como “What He Did” (2015) conheceu Amin Nawabi, pseudônimo do mais jovem integrante do tal clã originário do Afeganistão que ele escolheu filmar. Eles ficaram amigos na mocidade, vendo Van Damme desferir seu kickboxing nas telas.
“Minha relação com Amin vem de nossa juventude. Conheci esse rapaz brilhante há 25 anos. Ele tinha uns 15 quando chegou e aprendeu dinamarquês rápido, o que nos aproximou durante a convivência na escola”, disse Rasmussen em entrevista por telefone ao Estadão. “Descobrimos algumas coisas em comum em nossa infância, entre elas um ícone das artes marciais do cinema. Ele estava vendo os filmes do Van Damme em Cabul e na Rússia dos anos 1990 ao mesmo tempo em que eu estava descobrindo os longas desse astro da ação em minha cidade. O que nos diferenciava é que eu estava numa cidadezinha europeia que parecia ter 400 moradores naquele tempo e ele estava fugindo da violência, por conta da prisão de seu pai, indo de um país ao outro. E quando nos encontramos, ele logo assumiu-se gay, abertamente. Mas tinha medo de como sua orientação sexual poderia afetar sua vida, por conta dos traumas que trouxe”.

Cenas de “O Grande Dragão Branco” (1988) são reinventadas em animação por Rasmussen em “Fuga” para ilustrar o encanto que Van Damme despertava no imaginário de Amin, não pelos feitos heroicos de seus personagens, mas pelo charme do astro de ação, pilar erótico do despertar sexual de Amin. Enquanto lidava com seu desejo, ainda menino, ele encarou o sumiço de seu pai, por ação do governo afegão, e viveu a mudança abrupta de sua mãe, irmão e irmãs para a Rússia, onde moraram como clandestinos, por falta de documentação, sendo abordados acintosamente pela polícia. A partida dele para a Dinamarca, também por caminhos da clandestinidade, é igualmente bruta, conforme ele conta no documentário, que optou por uma vertente animada a fim de preservar a identidade de Amin. Intelectual de respeito na cena acadêmica escandinava, ele estava prestes a se casar com seu namorado quando aceitou exorcizar seus demônios diante da câmera do amigo de juventude.
“A gente se acostumou a buscar o cinema como entretenimento, como lugar de escapismo, o que torna uma animação baseada em um trauma real algo incomum. Eu venho de um histórico profissional de documentários feitos para o rádio, onde registrava depoimentos de pessoas. A ideia inicial com Amin era fazer algo assim. Mas ele tinha medo. E é fácil entender o porquê. A vida juvenil dele toda foi marcada por fugas, em travessias sobre as quais ele nunca falou, mas que eram sempre rondadas por uma hipótese de expulsão, de degredo. Até sua sexualidade entra nesse esquema. Se vocês, no Brasil de Bolsonaro, pensarem que a masculinidade ainda é uma imposição, vão entender o que ele, um menino afegão gay, sentia”, disse Rasmussen, que colheu elogios em sua passagem por Sundance, onde Amin foi dublado por Riz Ahmed, um dos concorrentes ao Oscar de melhor ator deste ano, indicado por “O Som do Silêncio”.
No site da revista especializada “Deadine”, o sempre severo crítico Todd McCarthy foi puro mel ao falar de Amin, comparando-o ao aclamado “Valsa com Bashir” (2008), de Ari Folman, sobre israelenses traumatizados por batalhas travadas no Líbano, em 1982. McCarthy diz que Rasmussen reafirma com força em ‘Fuga’, o quanto a animação pode ser usada não apenas para diversão, mas para qualquer propósito – neste caso para contar a dolorosa história do que alguns refugiados do Afeganistão passaram a fim de forjar novas vidas no Ocidente”.
“Fiz filmes muito distintos entre si. Em ‘What He Did’, eu encenei o relato de um homem que matou o namorado. Em ‘Searching for Bill’ eu fiz um thriller. Com Amin, fiz animação. Cada projeto tem uma forma nova, pois cada história é uma busca”, disse Rasmussen. “Ao animar um projeto documental, eu mostro o quanto as narrativas de não ficção têm potências plásticas plurais”.

p.s.: Já está em cartaz em circuito o monumental “Undine”, do artesão autoral Christian Petzold. Paula Beer foi ovacionada na capital germânica ao conquistar o Urso de Prata de melhor interpretação feminina por sua atuação no longa mais recente do Midas da produção germânica recente. Petzold ainda ganhou o prêmio da crítica, dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) a uma saga que Paula ajuda a erigir. Ela é uma historiadora que é abandonada pelo amante, uma vez que este prefere ficar com outra mulher, alegando falta de sal em sua relação. Eis que, entre andanças para desopilar o peito, ela esbarra com um escafandrista (Franz Rogowski) com quem vai mergulhar fundo no querer, numa trama que evoca o mito da sereia.

p.s.2: Feliz Natal!

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