‘Fuga’ caminha pra consagração no Oscar

‘Fuga’ caminha pra consagração no Oscar

Rodrigo Fonseca

04 de fevereiro de 2022 | 11h03

Revelado em Sundance e premiado com o troféu Cristal de Annecy, longa dinamarquês já contabiliza 62 láureas

RODRIGO FONSECA
Terça saem as indicações ao Oscar 2022, quer será entregue no dia 27 de março, e enquanto a Disney se esfalfa pra convencer o mundo de que “Encanto” presta (#sqn), a animação que, de fato, fez diferença nos corações e mentes em 2021 trilha seu caminho na direção da estatueta dourada é outra… e não vem dos EUA: “Fuga” (“Flee”), da Dinamarca. Tudo indica que vá concorrer aos prêmios de Melhor Longa Documental, de Melhor Longa Animado e, quiçá, Filme Internacional. Esta semana ele cravou duas indicações ao Bafta, láurea da Inglaterra. Desde sua primeira exibição em janeiro do ano passado, em Sundance, de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri, o documentário animado dirigido por Jonas Poher Rasmussen já foi coroado com 62 láureas. Desde então, ele abriu o É Tudo Verdade, no Brasil; venceu o troféu Cristal (a Palma dourada) do maior festival mundial dos animadores, Annecy, na França; e ainda concorreu ao Globo de Ouro. Em sua delicada, mas doída narrativa, Rasmussen (de “Searching for Bill”) registra um passado de seu amigo de juventude Amin Nawabi. Esse é o pseudônimo de um intelectual altamente graduado que, às vésperas de se casar com seu namorado, luta com segredos dolorosos ligados à sua infância em solo afegão, que manteve escondidos por 20 anos e que ameaçam desestabilizar sua paz e seu futuro. A violência espreita Amin todo o tempo. Parece introjetada nele, mesmo quando ele se encontra seguro. E a sensação de que o preconceito pode devolvê-lo a seu passado de bestialidades torna o filme ainda mais farpado.

Um dos aspectos que mais impressionam em “Fuga” é sua sofisticada direção de arte, que – somada a uma abrasiva mirada política e a um ataque à homofobia – fez o longa sair ovacionado de Sundance. Imagens de um jovem Jean-Claude Van Damme, estilizado, em “O Grande Dragão Branco” (1987), dão um toque de exotismo a um .doc que viaja pelo mundo tentando tentar as violências pelas quais Amin e sua família passaram. A referência ao kickboxer belga vem da paixão de Amin por ele, que vai além da cinefilia, passando pela atração sexual que sentia, já garoto, pelo astro. Uma paixão que o cineasta revela com muita delicadeza. Nada é gratuito no filme. Nada devassa a intimidade de Amin. Ao deixar Cabul, seu berço, às pressas, por conta de uma brutalidade contra seu pai, que custa a ser explicada no filme, ele acaba na Rússia, ainda sob jugo soviético, vivendo sob condições sub-humanas, atrás de dignidade. Só depois, chega à Dinamarca. Nesse meio tempo, ao longo de suas andanças, viu Van Damme aqui e ali na TV, assim como Rasmussen, mas sob focos distintos. De um lado, vemos o desabrochar da sexualidade, a luta pelo reconhecimento de um amor LGBTQ+. Do outro, vemos um pacto respeitoso de alteridade. E vemos, ainda, o desabrochar a animação escandinava com um encantamento singular.

p.s.: Deliciosamente B, “Moonfall” é a prova de que o alemão Rolland Emmerich é um mestre num gênero – o filme catástrofe – que simboliza nosso ocaso, sob conspirações e riscos de guerra, qual nos anos 1950, 70 e 90. É um filme tacanhamente lambão, mais do que qualquer um dele. Mas funciona assim mesmo. E bem. Tem sequências de dar vergonha. Tem situações de constranger. A presença de Donald Sutherland, por exemplo, é ao um luxo. Mas, canhestrices à parte, é delicioso ver a Lua se desfazendo sobre nós, feito um queijo ralado, mas que destrói tudo. As explosões, mesmo sem um acabamento de pós, pipocam pela tela com vertigem. E tem em cena um inspirado Patrick Wilson, igualzinho ao Flash Gordon.

p.s.2: Neste sábado, às 15h, tem “Curtindo a Vida Adoidado” na Globo, com Nizo Neto a dublar Ferris Bueller. O filme custou US$ 5 milhões e faturou US$ 70 milhões, tornando-se um clássico absoluto no Brasil, na “Sessão da Tarde”.

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