‘Frère et Soeur’: um Desplechin nada mauricinho

‘Frère et Soeur’: um Desplechin nada mauricinho

Rodrigo Fonseca

20 de maio de 2022 | 20h50

Arnaud Desplechin tenta, pela sétima vez desde 1992, levar a Palma de Ouro pra sua terra natal: Roubaix, na França

RODRIGO FONSECA
Azedume é a palavra que mais e melhor define a expressão com que parte da plateia de “Frère et Soeur” deixou a projeção para a imprensa, na sala Bazin, do Palais des Festivals de Cannes, a esbanjar inquietude. Alguns saíram inquietos de enfado; outros, de encantamento. O fato é: o novo Arnaud Desplechin – quiçá o melhor Arnaud Desplechin em muito tempo; com certeza, o Arnaud Desplechin mais maduro, formalmente – não deixa ninguém incólume, indiferente. E nem haveria como depois da avalanche que é o desempenho de Melvil Poupaud, talvez a melhor atuação masculina da competição cannoise até aqui. É a sétima indicação à Palma de Ouro que o realizador de “Como Eu Briguei (Por Minha Vida Sexual) (1996) e “Esther Kahn” (2000) recebe em 30 anos de ofício. Ele voltou à Croisette com um folhetim sobre uma atriz de sucesso que reencontra o irmão (papel de Melvil Poupaud), um escritor com quem rompeu laços há anos. Porém, aos olhos da Europa, nada que Marion faz é só mais um exercício de gênero. Ela é um patrimônio do Velho Mundo, ao qual até Hollywood teve que se render. Se houve um desconforto por parte de alguns, ele talvez se deva ao fato de Desplechin romper com suas próprias convenções para fazer melodrama com M maiúsculo, suado, rasgado, descabelado. Ele se solta tanto que se permite quebras da quarta parede – com os protagonistas falando pra câmera, diretamente – e deixa o personagem de Poupaud voar numa cena de delírio de ópio.
“Eu confio em Marion pois ela tem uma capacidade única de humanizar tragédias”, disse Desplechin em Cannes, na última vez em que filmou com ela: “Os Fantasmas de Ismael”, que abriu a edição de 70 anos do evento, em 2017.

Quando Desplechin começou a filmar, em 1991, com “La vie des morts”, a França ainda chorava a morte de François Truffaut (1932-1984) a cada vez que alguém se arriscava a filmar uma história sobre o querer. Gérard Depardieu publicou num livro de sua autoria, chamado “Cartas roubadas”, uma sentença para o romantismo das telas. “Depois que François morreu, não faz mais sentido falar de amor, pois a falta que o sorriso dele faz nos deixa um buraco”. Mas a geração de Deplechin, revelada quase três décadas após a Nouvelle Vague não aceitou essa proibição estética: “Arnaud trouxe para o cinema francês uma dramaturgia rica que aborda o amor não de maneira frontal, como se fazia no passado, mas pelos flancos, falando de outros dilemas que recheiam o encontro entre pessoas”, disse Marion, em uma entrevista ao Jornal do Brasil, em 2017. “A chave nele é a serenidade”.
Mas nada é sereno em “Frère et Soeur”. E por isso que ele é bom. Os dois, Melvil e Marion, falam num tom decibéis acima do necessário, tendo sazonais ataques de fúria. Ela dá um escândalo numa farmácia, desrespeitando um atendente (é a cena mais indigesta do longa). Ele tem um faniquito numa livraria, com o sobrinho. Mas ambos têm lá seus motivos. E esses ataques ilustram um laço que os une. Há uma participação da gênia Golshifteh Farahani (de “Um Divã na Tunísia”), passando uma cantada daquelas classudas no autor encarnado por Melvil, que é uma aula de sobriedade. Ela é o que existe de sóbrio num filme de pura e plena incontinência. E essa é uma palavra que não soa pertinente ao código de Desplechin.

Seu nome virou uma grife de cinema autoral de sucesso popular na França. Com “Um conto de Natal” (2008), ele vendeu meio milhão de ingressos em cerca de um mês, ganhando a alforria dos exibidores para inovar como quiser em suas narrativas. Mas ele preferiu ficar na chave do “típico filme francês” (leia-se: um filme de afetos, falatórios e de proporção mercadológica mediana, sem o risco narrativo dos longas de baixo orçamento e sem a parafernália técnica dos blockbusters). É o caso de “Os Fantasmas de Ismael”, um filme síntese de sua prática. Ali, ele tinha um elenco estelar para os padrões da França (com Marion, Charlotte Gainsbourg, Louis Garrel, Mathieu Amalric). Graças a essa turma, ele vendeu 380 mil ingressos em cerca de um mês, apoiado no carisma de suas estrelas, mas, também, no seu prestígio. Produções como “Reis e rainha” (2004) e “Três lembranças da minha juventude” (um fenômeno de crítica e público de 2015) fizeram dele o rei do “melodrama mauricinho”. O que é isso? O bom e velho drama romântico, no qual paixões interditadas pela moral ou por laços de família, só que gourmetizado sob uma falação mais intelectualizada, embalado a jazz ou folk e potencializado plasticamente por uma narrativa cheia de bossas de linguagem.
“A coisa mais difícil de filmar com Arnaud é encontrar uma pausa no modo de dizer o diálogo. Respirar, na interpretação, é pontuar. Mas a pontuação nele é de uma elegância que a gente tem que escavar em meio a uma pilha de signos”, explicou Marion ao lançar “Les fantômes d’Ismaël” (título original) na Croisette.

Mas seu novo filme se desapega desse registro e… se joga… na gente e no próprio Desplechin: “Falta-nos tempo. Falta o prazer de perder tempo. Cada filme que faço carrega um ethos particular. Talvez existam traços entre eles, mas não é uma busca determinada previamente”, disse o diretor, em Cannes, em 2019, ao lançar (esse, sim, fraquíssimo) “Crime em Roubaix”. “Há uma predileção minha pelo tema da segunda chance. Gosto de pessoas que têm a chance de recomeçar. Não sigo linhas, sigo desejos”.
Amanhã, Desplechin volta a exibir “Frère et Soeur” em Cannes, que segue em festival até o dia 28 de maio. Fora esse folhetim de Arnaud, há mais 20 longas no páreo pela Palma dourada de 2022. O concorrente mais “premiável”, até agora, é “EO” (“Hi-Han”), uma louquíssima mistura de fábula com realismo, depurada por toques de experimentação de artes visuais. Seu protagonista é um burrico (um asno) retirado à força do circo onde cresceu. Ganhador do Urso de Ouro da Berlinale, em 1967, com “Le Départ”, o artista plástico, ator e diretor polonês Jerzy Skolimowski constrói sua narrativa como um libelo contrário à brutalidade contra animais.

p.s.: Falta musculatura ao esqueleto da seção Un Certain Regard de Cannes em 2022, sem nada que se equipare a “Lamb”, pérola islandesa que por lá pintou no ano passado, com Noomi Rapace, hoje em cartaz na MUBI. Igualmente quente na UCR de 2021 era “Great Freedom”, de Sbastian Meise, também no www.mubi.com. Mas já começam a pintar coisas vívidas e lívidas nessa seleção este ano, em que a atriz e diretora italiana Valeria Golino é a presidente de seu júri. Uma das melhores atrações vistas no cardápio dessa mostra, que pode ser traduzida como Um Certo Olhar, é “Corsage”, de Marie Kreutzer (Áustria). Cada vez mais gigante em cena, a cada novo filme, a luxemburguesa Vicky Krieps, revelada em “Trama Fantasma” (2017), encarna a imperatriz Elisabeth da Áustria ()1837-1898), apelidada de Sissi, como um espírito inquieto que encara xenofobias e ilusões afetivas em busca do desejo de afirmação. A direção de arte de Monika Buttinger estonteia, galvanizada pela luz da fotografia de Judith Kaufmann.

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