‘Free Guy’ dá um ‘game over’ no tédio

‘Free Guy’ dá um ‘game over’ no tédio

Rodrigo Fonseca

01 de fevereiro de 2022 | 14h34

Divertidíssimo filme com Ryan Reynolds, aqui dublado por Reginaldo Primo, entra na grade da Star +

Rodrigo Fonseca
Avesso a receitas e imune à pasteurização da Disney, “Free Guy: Assumindo o Controle” teve um sabor exótico entre as pipocas lançadas em 2021 e seu gostinho de estranheza agradou a ponto de o filme faturar US$ 331 milhões nas bilheterias. Mais do que isso: sua estreia ocorreu no Festival de Locarno, um canteiro para o cinema de autor. E, agora, em sua chegada a novas latitudes, à streaminguesfera, via Star +, a produção pode surpreender audiências formadas à base de algoritmos. Ao fim de sua consagradora exibição na Piazza Grande de Locarno, esse delírio pop protagonizado por Ryan Reynolds foi definido como um espasmo autocrítico da Disney em sua relação de posse com a 20th Century Studios.
Apesar do belo trabalho que a Star + vem fazendo na web, o catálogo da Fox corre a ameaça de sumir… ou de virar queijo, pasteurizando-se nas garras de Mickey Mouse. Construído sob a égide do estúdio que nos deu “Cleópatra”, o filme de Shawn Levy é bem mais do que mais um veículo para transportar a gaiatice de Reynolds, que regressa em luminosa atuação, sem fazer um repeteco de Deadpool. Há nele uma ideia quase subversiva pro cenário atual de Hollywood capaz de roer a roupa do rei da Roma audiovisual do presente. Num diálogo envolvendo o vilão, Antoine (um empresário vivido pelo cineasta Taika Waititi), ouve-se a tese de que nem tudo são números, visto que estes, por não comportarem metáforas, nem sempre dão conta do espírito humano. Parece frase de para-choque de caminhão, mas é uma reflexão sobre a cultura algorítmica que vem naufragando blockbusters na mesmice e no repeteco, esgotando as jazidas criativas do cinemão – um risco em tempos de streamings com força total. A própria Disney Plus por vezes erra, vide a medonha série do Gavião Arqueiro.
Algoritmos de consumo são a base de escolha das grandes corporações cinematográficas para decidirem como filmes devem ser formatados, esganado a liberdade em prol de protótipos imunes ao erro, mas destituídos de poesia. Mas a narrativa de Guy, bancário vivido por Reynolds, desafia modulações e gera um espetáculo com ecos de “Matrix” (1999), mas repleto de gargalhadas, doçura e tensão. Sua inclusão na linha curatorial de Giona A. Nazzaro, crítico de Zurique que assumiu a direção artística de Locarno (e revolucionou o festival), deve-se à habilidade de Levy em oxigenar os gêneros com que dialoga, baseando-se na estrutura dos videogames. Canadense de Montreal, o cineasta começou a filmar em meados dos anos 1990, fritando batatinhas crocantes como “Doze é Demais” (2003) e o remake de “A Pantera Cor de Rosa”, com Steve Martin, de 2006. Mas foi a com a série “Stranger Things”, um biju da Netflix, que a carreira insossa dele deu um salto ornamental para a autoralidade, ao assumir um traço de inadequação como questão temática recorrente e ao revelar uma destreza impecável no manuseio das referências pop mais triviais. Não por acaso, “Free Guy” parece um almanaque das revistas sobre games dos anos 1990, brincando com a linguagem dos jogos eletrônicos.
Na trama, Antoine exige de sua equipe de programadores, sobretudo de Millie (Jodie Comer, genial atriz inglesa que brilhou no recente “O Último Duelo”, de Ridley Scott) e de Keys (Joe Keery, um achado de ator) a criação de uma sequência para o game “Free Guy”, que é uma febre. Mas, inexplicavelmente, um NPC (non-player character), coadjuvantes que não podem ser controlados pelos jogadores, ganha vida: é o tal Guy. Ele acredita ser gente e, não, um arrazoado de bytes. O que o leva a criar autonomia é a paixão por uma guerreira chamada Millie, xará da jovem que criou o jogo, em parceria com Keys, mas foi roubada por Antoine – figura que Waititi compõe com extravagante carisma.

Fadado a uma rotina de bater carimbos e dizer “Não tenha um bom dia, tenha um grande dia!”, Guy percebe que se usar os óculos escuros similares aos usados por protagonistas e antagonistas de seu game, ele terá privilégios. Só não imaginava que esses privilégios incluem ver o que existe para além das aparências, incluindo objetos que funcionam como bônus ou armas, típicos dos Nintendos da vida. É uma premissa idêntica àquela do cult sci-fi “Eles Vivem” (1988), de John Carpenter. A diferença é que os óculos de Carpenter deslindavam a nossa miopia com relação aos males do espaço ao nosso redor e nos faziam enxergar ETs ao nosso redor.
Além de Carpenter, a saga de Guy tem muito de “O Show de Truman” (1998), que previu a febre dos reality shows a partir da clarividência de Peter Weir. Quem sabe o longa de Levy não seja o primeiro a prever que a lógica dos números do cinema pipoca está fadada ao fim, dando a astros como Reynolds uma chance de reinvenção. Ele deixa o Deadpool que tem em si de lado e cria um herói do dia a dia com ares de Jack Lemmon. Mas a feérica montagem de Dean Zimmerman bagunça os alicerces deste “Se Meu Apartamento Falasse” pós-moderno, que tem a marca autoralíssima do roteirista Zak Penn (do subestimado “O Último Grande Herói”) na redação das cenas.
Na versão brasileira, Reginaldo Primo dubla (muito bem) todos os cacoetes de Reynolds e Mariana Torres empresta sua voz a Comer.

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