Frederico Machado no Lume do Estação Virtual

Frederico Machado no Lume do Estação Virtual

Rodrigo Fonseca

14 de maio de 2021 | 12h51

Frederico Machado na porta do Cine Lume, que reabre já, já, assim que a pandemia deixar: diretor é um dos pilares do cinema maranhense

Rodrigo Fonseca
Risos tímidos são a reação do cineasta Frederico Machado ao epíteto “o David Lynch de São Luís” que, vez ou outra, rola pela imprensa cinematográfica para qualificar filmes como “O Exercício do Caos” (2013) e “Litania da Velha” (1997), hoje em cartaz na mostra Estação Virtual, na web. A aparente timidez a uma analogia que sugere um elogio vem pela dimensão surrealista da obra de um diretor que retrata o Nordeste pelas lentes do improvável – tal qual o mundinho lynchiano de “Veludo Azul” -, numa herança direta da poética de seu pai, o bardo Nauro Machado (1935-2015). Quando um leigo na arte do verso pergunta por que Nauro era conhecido como um dos maiores poetas do país, a resposta vem em forma de estrofe: “Quem me restituirá ao impar que sou,/senão a morte que descascará minha pele/ abandonando os braços inutilmente/ à espera do sol?”. Esse mesmo sol e essa mesma morte, ambos grafados com a caixa baixa da lírica, espreitam os personagens de Frederico, que arrebatou a Mostra de São Paulo, em 2020, com o dionisíaco “As Órbitas da Água”. Responsável por um polo de exibição de longas-metragens autorais na capital de seu estado natal, o Cine Lume (fechado por vetores pandêmicos, mas em vias iminentes de reabertura), ele ainda editou, em formato DVD, cults multinacionais como “Pai e Filha” (1949), de Yasujirô Ozu (1903–1963); “Wanda” (1970), de Barbara Loden (1932–1980); “Caninos” (1979), de Bigas Luna (1946-2013); e “Vá e Veja” (1985), de Elem Klimov (1933–2003). Todas as bolachas prensadas por ele ainda podem ser adquiridas via www.lumestore.art.br/. E, paralelamente a esse trabalho de preservação da memória cinéfila, ele ainda faz série, prepara .doc e delineia novos longas de ficção, do naipe dos projetos que o levaram a integrar a mostra do Estação.

Tem um mar de filmes – são 180 ao todo – no festival idealizado pelo Grupo Estação para propor uma triagem dos últimos 35 anos de cinema brasileiro, que pode ser acompanhado no www.grupoestacao.com.br. Lá estão pérolas recentes como o filme de Vladimir e documentário de sucesso como “Torre das Donzelas”, de Susanna Lira; “Drežnica” (2008), de Anna Azevedo; “Cativas – Presas Pelo Coração” (2014), de Joana Nin; e o aclamado “Cinema Novo”, que deu a Eryk Rocha o troféu L’Oeil d’Or em Cannes. Entram em exibição ainda ficções como “Introdução à Música do Sangue”, de Luiz Carlos Lacerda; “A Febre”, de Maya Da-Rin; “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral; “Lá do Alto”, de Luciano Vidigal; “Ralé”, de Helena Ignez; “2 Perdidos Numa Noite Suja”, de José Joffily; e “Lavoura Arcaica”, de Luiz Fernando Carvalho. A curadoria é assinada por Adriana Rattes, Cavi Borges, Liliam Hargreaves, Anna Fabry, Bebeto Abrantes, Fabrício Duque e Luiz Eduardo Pereira de Souza.

Em meio à tanta variedade, “O Exercício do Caos” se impõe pela sua potência imagética. O filme narra, em tons de suspense existencialista, a história de um pai soturno e autoritário que vive com as três filhas adolescentes numa fazenda de mandioca no interior do Maranhão. A família compartilha a ausência da mãe e lida com os ditames rigorosos de um estranho capataz que os explora enquanto persegue a inocência das meninas, divididas entre a ilusão da infância e a cruel realidade de suas vidas. Enquanto o eixo familiar desmorona pouco a pouco, os personagens, fragilizados, situam-se no limiar entre a razão e a loucura, entre o caos e a fé.
Em “Litania da Velha”, temos um passeio derradeiro de uma mulher por sua cidade, fazendo um inventário de abandonos. Num texto primoroso, o crítico carioca Fabrício Duque, um dos curadores do Estação Virtual, dissecou a importância desse curta para a representação do Maranhão nas telas. Sua prosa está no https://vertentesdocinema.com/litania-da-velha/.
Na entrevista a seguir, Frederico abre para o P de Pop uma cabeça cevada pela rítmica de seu Nauro Machado e pela força lúdica dos versos de sua mãe, Arlete Nogueira da Cruz, também poeta, influenciado ainda por toda a sorte de diretoras e diretores que educaram seu olhar.

“O Exercício do Caos” foi aplaudido no Thessaloniki International Film Festival

Qual e como é a poética que você busca em seu cinema?
Frederico Machado:
É a vivência. Meus pais são poetas e escritores, também tiveram esse tema bem enraizado. Tentamos trabalhar, em São Luís, de maneira muito igualitária, buscando fazer um cinema particular, bem próprio e verdadeiro, que revele meus anseios, minhas dúvidas e meus posicionamentos. É difícil, mas não poderia ser de outra forma. Acho que a única forma de ser honesto comigo é fazer esse tipo de cinema.
Mas existe uma camada metafísica muito presente nessa obra.
Frederico Machado:
Vem muito do meu ser de angústia.
Mas há em seus filmes, também, uma dimensão sociológica. Como ela se articula com essa sua metafísica?
Frederico Machado:
A questão maior é que a gente vive em uma sociedade extremamente desumana em todos os aspectos, principalmente em relacionamentos. As pessoas não sabem mais se relacionar, em termos de amizade de vivência amorosa. Acho que isso impregna na minha busca de retratar o dia a dia. Eu tento revelar isso através dos meus filmes de maneira muito dionisíaca. Meus personagens são extremamente solitários, difíceis no relacionamento. Eles não se relacionam com ninguém e estão sempre em um discurso mais interior que exterior. Eles não se revelam tanto por meio de diálogos, de movimentos e de relações. São mais sensações interiorizadas. É de onde vem muita poesia. A narração dos meus filmes é muito impregnada de simbolismo. É um cinema de camadas poéticas.

Curta de Frederico correu festivais nos EUA, na Colômbia e na Alemanha

Qual seria a bússola estética dos filmes selecionados pelo Estação Virtual. O que “Litania da Velha” e “O Exercício do Caos” representam?
Frederico Machado:
É interessante que selecionaram o primeiro longa e o primeiro curta, num retrato do início de uma busca. Eu estou sempre buscando tentar fazer um cinema realmente pessoal, com todas as referências de vida e de cinema que tenho.
Qual é o Maranhão que seu cinema reflete e retrata?
Frederico Machado:
É um Maranhão verdadeiro, que se mostra a partir de particularidades na relação com o outro, com a família… relações por vezes de caos, inerentes à existência. Nas pesquisas que faço para construir esses filmes, a gente conversa muito com pessoas de classes sociais diversas e muitos deles não são maus atores. Tento impregnar o meu cinema com as pessoas com quem encontro pela estrada. Existe essa busca de pegar o povo do meu estado e trazê-lo para a tela com seus próprios questionamentos.
Você navega em um oceano de projetos atualmente. Pesca alguns pra gente. O que prepara?
Frederico Machado:
Preparo muita coisa. Estou finalizando “Punga”, uma série extremamente surrealista, impregnada de fabulação, com relação à dança que dá nome ao projeto. Essa fabulação revela a pluralidade de personagens do Maranhão, a partir de arquétipos dessa dança popular. Tem ainda “Percurso de Sombras”, um longa que mistura musical, com filme de guerra e ficção cientifica. Vai se passar todo numa trincheira e mostra muito o que está acontecendo no Brasil de hoje. Tem ainda o “Noite Ambulatória”, que será a minha primeira coprodução internacional, a ser filmada no Chile. É um filme duplo do “Lamparina da Aurora”. A gente fez uma trilogia que é “O exercício do caos”, “O signo das tetas” e “As órbitas da água”, são filmes baseados na poesia do meu pai, Nauro Machado. É uma reflexão sobre a existência de Deus, família, sexo, o corpo muito impregnado na exposição de pensamentos existenciais. A gente começou a trilogia de “Lamparina da Aurora”, que vai ter o “Noite Ambulatória” e mais um. Outra trilogia que está sendo baseada em personagens duplos.

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