Frederick Wiseman vai ganhar a Carroça de Ouro

Frederick Wiseman vai ganhar a Carroça de Ouro

Rodrigo Fonseca

25 de maio de 2021 | 11h01

Aos 91 anos, o lendário documentarista vai receber a láurea honorária da Quinzena dos Realizadores de Cannes

Rodrigo Fonseca
Prestes a anunciar as atrações de sua 74ª edição, incluindo os concorrentes à Palma de Ouro a serem avaliados pelo júri a ser presidido por Spike Lee, Cannes abre a semana com boas novas para o cinema documental, ao anunciar que um dos papas da não ficção, o diretor americano Frederick Wiseman, será o ganhador da Carroça de Ouro de 2021, na abertura da Quinzena dos Realizadores. Em 2020, seu longa-metragem mais recente “City Hall” – com quatro horas e 32 minutos de estudo sobre as entranhas do Poder na América – foi eleito o filme do ano pela enquete da revista “Cahiers du Cinéma”, bíblia teórica do audiovisual. Exibido nos festivais de Veneza, Toronto e Nova York, de onde saiu regado de elogios, essa radiografia do dia a dia da prefeitura de Boston é o novo exercício autoral de um mestre das narrativas do Real, hoje com 91 anos. Dono de um Oscar honorário por sua contribuição à estética do documentário, ele vai receber o prêmio no dia 7 de julho, um dia depois da inauguração do evento, na Croisette, com a projeção de “Annette”, de Leos Carax. No país que gerou documentaristas audazes como Michael Moore (“Tiros em Columbine”), Peter Davis (“Corações e Mentes”) e o próprio Spike Lee, que sempre se expressa pelo formato, Wiseman é um estandarte da técnica de observação, termo que ele repudia, ao preferir a palavra “vivência” para descrever sua investigação atenta a situações do cotidiano, como se vê em seus cults, como “Near Death” (prêmio da crítica na Berlinale de 1990) e “Ex Libris: The New York Public Library” (2017). Sua trajetória foi iniciada em 1967, com “Titicut Follies”, sobre um centro de detenção em Massachusetts. Ali começou uma obra laureada na última Mostra de São Paulo com o Prêmio Humanidade, por sua inclusiva mirada para o funcionamento das instituições.
“Sempre pode haver algo de interessante em uma imagem. Meu trabalho é escolher que imagem melhor traduz esse interesse e saber onde usá-la, com respeito ao material que filmo”, disse o diretor, que trabalha sempre com equipes pequenas em sua produtora, Zipporah, batizada com o nome de sua mulher. “Meus filmes são pesquisas”.
Com o olhar atento para a sua Boston natal, o cineasta fez de “City Hall” um estudo das dificuldades que o prefeito Marty Walsh encara no embate contra a atual crise econômica americana, os desacertos na especulação imobiliária e a luta contra o racismo em sua cidade. Suas filmagens ocorreram entre o outono de 2018 e o inverno de 2019. Seu eixo dramático está na peleja de Walsh com empresários, com veteranos de guerra e com militantes. A mudança climática e as transformações financeiras no porto local também integram a pauta do político, que é visto em um comício no Faneuil Hall, em 11 de novembro. Vemos ainda a celebração do Dia de Ação de Graças e um discurso no Symphony Hall. Cada passo dessa rotina revela o detalhe de um organismo citadino complexo entre das engrenagens dos Estados Unidos. “Eu trabalho o tempo todo me perguntando ‘por que?’, seja ‘por que as pessoas estão dizendo isso’ ou ‘por que uma pessoa interrompe uma conversa para pedir um cigarro”, disse Wiseman em uma lendária entrevista a Lola Peploe, do “Paris Review”.

Desde 2002, o Sindicato Francês de Cineastas (SRF) concede a Carroça dourada, sendo que Jacques Rozier, realizador de “Maine Ocean” (1986), foi o primeiro ganhador. Jane Campion, Ousmane Sembene, Naomi Kawase, Jafar Panahi, Agnès Varda e John Carpenter foram alguns dos contemplados com a láurea.
Semana que vem serão divulgadas as atrações. Estima-se que filmes inéditos de Lucrecia Martel (“Chocobar”), Mahamat-Saleh Haroun (“Lingui”), Nanni Moretti (“Tre Piani”) e Paul Schrader (“The Card Counter”) estejam em concurso.

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