François Ozon imola o Cordeiro de Deus no Festival Varilux

François Ozon imola o Cordeiro de Deus no Festival Varilux

Rodrigo Fonseca

05 de junho de 2019 | 13h43

Grande Prêmio do Júri da Berlinale de 2019, “Graças a Deus” mostra o drama de vítimas de um padre pedófilo da França que denunciam a negligência da Igreja

Rodrigo Fonseca
Numa das cenas mais contundentes do drama “Graças a Deus” (“Grâce à Dieu”), mais polêmico dos 18 longas-metragens selecionados pelo Festival Varilux 2019, que vai de 6 a 19 de junho em 80 cidades de todo o país, um adolescente com os hormônios à flor da pele olha para o pai, Alexandre (Melvil Poupaud), que acaba de denunciar o padre que abusou sexualmente dele na infância, e faz uma pergunta dura. A questão do rapaz: “O senhor ainda acredita em Deus?”. O silêncio e o engasgado, diluídos na forma de um sorriso de “dever cumprido”, diante de uma acusação que não sabemos onde vai dar, desenha a tônica política febril do novo filme do bem-sucedido realizador parisiense François Ozon. É seu trabalho mais sólido: foi visto por 900 mil pagantes em seu país natal, de março a abril. Exibido pela primeira vez no 69º Festival de Berlim, ele saiu de lá com o Grande Prêmio do Júri. Até agora, na França, de onde vieram as joias do Varilux, Ozon é um expert em lotar cinemas, como visto nos milhões de ingressos que vendeu com “8 mulheres” (2002) e “Dentro da casa” (2012). Sua estreia aqui, em circuito, está agendada para 20 de junho.

“Filmo muito, então aposto em narrativas distintas. Eu venho de um histórico de personagens femininas fortes. Queria, sem abrir mão de mulheres de fibra, fazer algo similar com os homens. Queria riar personagens masculinos fortes, doídos, em meio a um dilema de vida”, disse Ozon à Berlinale, onde seu roteiro foi um ímã de elogios, diante do vigor de sua estrutura narrativa de investigação.

Palavroso, mas poderoso em seus 137 febris minutos, “Graças a Deus” é centrado na história (real) de três homens abusados por um mesmo padre na infância.  As vítimas são o já citado Alexandre (Poupaud), Emmanuel (Swann Arlaud, que está no país para badalar o filme) e François (Denis Ménochet, em uma brilhante atuação). O trio decide levar o sacerdote à Justiça, mas a Igreja se posiciona de maneira controversa.

“Minha ideia foi criar uma história de utilidade pública com uma narrativa em três atos, cada um dedicada a um dos personagens centrais, sem esquecer a força das mulheres deles e de suas famílias”, disse Ozon, que anda preocupando o próprio Vaticano com a contundência de sua narrativa.

O que mais ver no Varilux:
ASTERIX E O SEGREDO DA POÇÃO MÁGICA (Astérix – Le Secret de la Potion Magique). De Louis Clichy e Alexandre Astier. A nova aventura cinematográfica do gaulês mais amado das HQs (ou BDs, em français) chega em versão dublada, com a voz de Gregório Duvivier saindo do elmo torto do herói de René Goscinny e Albert Uderzo. A tarefa do destemido baixinho e seu amigo Obélix é proteger o caldo místico que garante seus poderes.
FILHAS DO SOL (Les filles du soleil). De Eva Husson. Atriz de destaque nos anos 1990, a realizadora deste doído épico sobre sororidade arranca de Golshifteh Farahani (“Paterson”) sua melhor atuação. A estrela de origem iraniana vive Bahar, a comandante das Filhas do Sol, um batalhão composto apenas por mulheres curdas que atua ofensivamente na guerra do país. Ela e as suas soldadas estão prestes a entrar na cidade de Gordyene, local onde Bahar foi capturada uma vez no passado. O grupo terá o apoio de Mathilde (Emmanuelle Bercot), uma jornalista francesa que está acompanhando o batalhão durante o ataque. Concorreu à Palma de Ouro de 2018.
UM HOMEM FIEL (L’homme fidèle). De Louis Garrel. Num triângulo amoroso com Laetitia Casta e Lily-Rose Depp, filha da cantora Vanessa Paradis e Johnny Depp, Louis Garrel encarna um viciado no verbo “amar” cujo coração entra numa partida de tênis entre uma paixão de ontem e um flerte com o amanhã. Prêmio de melhor roteiro no Festival de San Sebastián.
FINALMENTE LIVRES (En Liberté). De Pierre Salvadori. Uma das prolíficas atrizes da França na atualidade, Adèle Haenel dá um show de ironia no papel de Yvonne, jovem inspetora de polícia, às voltas com a descoberta de que o marido, o capitão Santi, herói local morto em combate, não era o policial corajoso e íntegro que ela pensava. Por culpa dele, um inocente passou quase uma década atrás das grades. É preciso correr atrás da verdade.

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