Francisco Márquez e seu ‘crime’ memorável

Francisco Márquez e seu ‘crime’ memorável

Rodrigo Fonseca

28 de janeiro de 2021 | 13h37

RODRIGO FONSECA
Lançado há duas semanas no Brasil, “Um Crime Comum” marcou gloriosamente a entrada do cinema argentino no circuito exibidor nacional, abrindo um debate sociológico acerca das práticas de disciplina pela força da lei. Seu realizador é Francisco Márquez, que, em 2016, foi badalado em Cannes por “La Larga Noche de Francisco Sanctis” (2016), dirigido em duo com Andrea Testa. Ele conversou com o Estado de S. Paulo sobre a produção, exibida na mostra Panorama da Berlinale 2020. “Cada filme é uma incerteza, pois precisamos encontrar sua poética”, disse Márquez, referindo-se ao casamento preciso entre ciências sociais e suspense que marca o filme, calçado na atuação impecável de Elisa Carricajo, como a professora Cecilia.
Atolada em demandas de orientandas/os e preocupada com o resultado de um processo de seleção capaz de elevar seu posto acadêmico, a professora de sociologia Cecilia costuma ferver o nhoque além do ponto e deixar queimar os bifes à milanesa, sua comida favorita. Dela e de seu filho, que ainda é criança e adora carrinhos de ferro. Em sala de aula, Cecilia cita o porta-voz do marxismo estrutural, Louis Althusser (1918-1990), logo nos primeiros minutos do longa-metragem, em cartaz no Espaço Itaú. Neste sufocante thriller social psicológico, Márquez evoca o pensamento althusseriano para levantar, com sutileza, as discussões desse filósofo sobre AITs, os Aparelhos Ideológicos de Estado. O AIT que interessa a Márquez, nesta produção – exibida na Berlinale 2020, na mostra Panorama – é a segurança pública, especificamente a manutenção da ordem (ou quase) pelo braço armado da Lei: a Polícia. Estruturado nas raias do cinema de gênero, precisamente o de suspense, mas sem escancarar as regras do filão, tangenciando sua cartilha a partir da paranoia, “Un Crimen Común” (título original) parte da rotina de Cecilia pra estudar a microfísica da dinâmica policial. E um estudo que parte não da operacionalização da Justiça em si, mas das sequelas das desmesuras cometidas por agentes de farda. Em uma noite chuvosa, o filho da empregada doméstica de Cecilia bate à sua porta, insistentemente, mas a socióloga fica com medo de deixá-lo entrar. No dia seguinte, o jovem é encontrado morto em um rio. A vizinhança de Kevin, de uma classe pobre, suspeita que a PM tenha perseguido o adolescente, pois essa é uma prática corrente na região. Assombrada pela hipótese de que o rapaz tenha batido em sua casa à cata de ajuda, Cecília embarca em um surto paranoico, que espatifa sua rotina, às vésperas do aniversário de seu rebento. Um aniversário a ser comemorado em um parque de diversões, onde ocorre uma sequência climática de um nível de adrenalina fervente.

Cecilia suspeita estar a ver e a ouvir coisas, quiçá a ouvir o próprio Kevin. É uma suspeita que se faz sinestésica, pra ela e pro espectador, graças a uma requintada engenharia sonora. O que existe de fantasmagórico na narrativa autoral de Márquez (“La Larga Noche…” tinha timbre similar) é eivado por uma inquietude inerente às bases das Ciências Sociais. A perda gradual de lucidez de Cecilia – capaz de gerar analogias com o cultuado “Possessão”, de 1981, de Andrzej Zulawski, pelo desempenho arrebatador de Elisa Carricajo – não tem a ver com demônios ou metafísicas e, sim, com medo. O medo faz de Kevin um fantasma de culpa, que expõe todas as desigualdades que abrem as veias da América Latina, no jogo de aparências entre ricos e pobres, traduzido aqui na dinâmica entre patrões e funcionários. O confronto essencial do roteiro de Márquez e Tomás Downey não é com de Cecilia com a polícia e, sim, de Cecilia com ela própria, acerca de uma passividade e de uma negligência silentes que ela não sabia ter. O filme vai se construindo, cena a cena, tensão a tensão, como observação crítica do desemparo político e como uma análise (meticulosa) de personagem, amparado na fotografia imersiva de Federico Lastra, que se detém, atenta, ao olhar sem bússola de Cecilia.
“Existe uma diversidade no cinema da Argentina apesar do desmonte das políticas públicas. Em relação ao diálogo com a tradição, vale desde ‘O Enigma do Mal’, que passou muitas vezes na TV aqui, até ‘Hotel’, de Jessica Hausner, passando por Lucrecia Martel, que é uma referência enorme em mim. Há muitas tradições nesse filme. Eu gosto de diretores que buscam uma forma a partir do que buscam na realidade, como se vê em Glauber Rocha e em um filme como ‘Arábia’. Aqui, em nosso cinema, nessa relação com a tradição, tem (Leonardo) Favio e Raymundo Gleyzer”, disse Máquez ao Estadão. “Buscando nossa poética, até o cinema de terror entrou, a partir de um medo metafísico”.

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