‘Fragmentado’ renasce em Locarno

‘Fragmentado’ renasce em Locarno

Rodrigo Fonseca

04 de agosto de 2022 | 06h12

Numa atuação acachapante, James McAvoy mostra uma das 23 personalidades (a criança) do psicopata que vive em “Fragmentado”, produção de US$ 9 milhões, cuja bilheteria beira US$ 258 milhões

RODRIGO FONSECA
Em seu empenho para homenagear o produtor americano Jason Blum, conhecido por suas parcerias recentes com Spike Lee (“Infiltrado na Klan”) e Jordan Peele (“Nós”), a equipe curatorial do 75º Festival de Locarno, pilotada pelo crítico Giona A. Nazzaro, marca a volta de “Fragmentado” (“Split”, 2016) ás telas, garantindo ao filmaço de M. Night Shyamalan chances de provar sua excelência narrativa. Houve uma recente campanha para que o filme fosse “cancelado”, por seu retrato de tons fantásticos para o transtorno de personalidade. Mas há um empenho de Locarno em clamar por elogios para um enredo sobre um sujeito com 23 identidades distintas. Sujeito esse que sequestra três moças em um estacionamento. Ecos de “Psicose” (1960) trovejam narrativa adentro, fazendo justiça à comparação entre Shyamalan e a práxis cinemática de Hitchcock, no que envolve a opção por sugerir em vez de escancarar, de criar clima ao invés de apelar para um grafismo pornográfico da violência.
Desde seu regresso à zona de prestígio com “A Visita” (2015), o diretor indiano (radicado na Filadélfia) que arrepiou os anos 1990 com “O Sexto Sentido” (1999) encontrou uma nova equação de trabalho na qual desenvolve uma das estéticas mais autorais de Hollywood nos dias de hoje: fazer filmes baratos, na fronteira do terror, com no máximo um astro, baseando-se na riqueza de seus enquadramentos e na concisão da montagem. O custo de produção aqui foi de US$ 9 milhões. Sua arrecadação chegou a US$ 278 milhões. E ainda houve uma sequência, “Vidro”, de 2019.
Viradas de roteiro – o trunfo dos primeiros filmes de Shyamalan – ficaram para trás. É na imagem que ele encontra o diferencial de narrativa e de sedução. O desempenho acachapante de James McAvoy, o jovem Professor Xavier de “X-Men”, é um ás e um chamariz. Mas a estrela do filme é a direção, em sua ouriversaria no emprego dos códigos do suspense, demarcando uma espécie de terceiro hemisfério na trajetória do cineasta, dando um indício de uma saga, a saga da Filadélfia, seu microcosmos. Sua exibição em Locarno será nesta sexta, em meio a uma premiação de Blum com uma láurea pelo conjunto de sua obra.

A exibição de Split em Locarno é parte da homenagem ao produtor Jason Blum

Entre 1999 e 2002, Shyamalan se impôs como arquiteto de uma metafísica ficcional de comunicabilidade infalível, expressa em três filmes que pareciam irmãos apenas pelo diálogo com a fantasia – “O Sexto Sentido”, a obra-prima “Corpo Fechado” e “Sinais” –, mas que apresentavam uma interseção mais estreita, filosófica. A história do menino que via mortos, o drama do segurança de estádio que descobria ter superpoderes e o calvário do líder religioso às voltas com uma invasão ET são – antes e acima de tudo – tramas sobre heróis que perderam a fé em si, sendo auxiliados por inocentes para reaver a autoconfiança. Dali, ele evolui para seu trabalho mais admirado, “A Vila” (2004), de uma fotografia de rigor incomparável, que assinalava seu interesse no que existe de oposto ao heroísmo, a vilania, expressa a partir de um olhar sobre a gênese do Mal.
Seu périplo pela fantasia deságua no esnobado “A Dama da Água” (2006), fábula sobre a estrutura dramática das histórias orais que deflagra um segundo polo em sua obra: a Natureza e seus perigos. Nesse hemisfério, plantas, animais (em forma de monstro) e fenômenos climáticos são os adversários. Nas raias do cinema-catástrofe, esta linha rendeu ao percurso de Shyamalan um grande filme (“Fim dos Tempos”) e dois desastres (“O Último Mestre do Ar” e “Depois da Terra”), no qual seu próprio estilo de enquadrar amoleceu frente ao parque de efeitos especiais à sua volta. Uma descida aos infernos do fracasso se dá, curada por uma série sóbria, “Wayward Pines”, que reata o diretor com a aeróbica do thriller e revive seu talento para dirigir atores com carga de astro, usando o melhor do cinismo inerente a Matt Dillon. E ali, a Maldade… como força, como entidade sem corpo… espalhada pelas ações mais perversas de homens e mulheres de psique fraturada, tornou-se a bússola de seu cinema, ganhando forma com “A Visita” (que só custou US$ 5 milhões e faturou US$ 98 milhões) e agora lapidação com “Fragmentado”. Este novo e arrebatador longa sedimentou a reputação dele de Midas do terror.

“Há alguns anos, fui fechado por um carro enquanto voltava de uma reunião, lá na Filadélfia, e, quando tentei cortar o sujeito, ele acabou emparelhando comigo num sinal e, com uma voz ameaçadora, disse: “Não é só porque você faz cinema que você pode fazer o que bem quiser na vida”. Aquilo me deu medo. E me fez pensar o quanto as situações de pânico podem ser cotidianas”, disse Shyamalan, em sua passagem pelo Brasil em 2015, ao lançar a (genial) série “Wayward Pines” no Brasil.
Nada é mais cotidiano do que a circunstância na qual um trio de jovens é capturada pelo personagem de McAvoy em “Fragmentado”. Após fazerem compras em um supermercado, acompanhadas por um maior responsável, elas entram no carro dele e percebem que ele se demora no porta-malas. De repente, alguém se senta no banco do motorista. Mas não é o dono do carro. É um psicopata que as faz dormir usando um spray. Este homem tem várias outras pessoas morando em sua cabeça. Ele ora é um sujeito assustador; ora uma mulher gentil; por vezes, uma criança com auréola de anjo mau; e, às vezes, a própria Besta.
Ao longo de 117 feéricos minutos, vamos acompanhar a luta de jovens mulheres para sairem do cativeiro para onde o psi McAvoy as levou. É lá que ele, sob uma de suas personas provisórias, faz uma dança catártica (ou quase), que testa toda a escolha de cores (saturadas) da fotografia de Mike Gioulakis, que imprime aqui o mesmo tom enevoado de seu trabalho no seminal “Corrente do Mal” (2014). Vemos, nesse filme que Locarno promete ressignificar, a narrativa do captor e suas reféns. Vemos ainda a relação do psi com sua analista (especialista em múltiplas personalidades). E vemos a relação de uma das jovens com traumas de seu passado. Tudo isso vem encapado numa certa aura demoníaca que pode justificar o desequilíbrio psiquiátrico do protagonista – sim, aqui o foco é o vilão, não as vítimas. Esses três vértices se equilibram com elegância, conforme Shyamalan testa nossa pressão – e os limites da imagem – desafiando os meandros do horror como filão. Nos instantes finais, vem um mimo cinéfilo. Mas sobre este é necessário fazer silêncio. Melhor falar sobre as descobertas que o cineasta nos traz sobre a Ruindade em suas mais variadas – e inconscientes – formas.

Falando nisso, Locarno promete barulho com “My Neighboor Adolf”, uma comédia sobre um imigrante vitimado pelo Holocausto que acredita ter o próprio Hitler (disfarçado) como vizinho em terras sul-americanas. É uma promessa de polêmica.
O Brasil está na disputa do Leopardo de Ouro do festival com “Regra 34”, de Julia Murat. É um dos títulos com mais fôlego para prêmios. Na trama já divulgada, uma jovem advogada que estuda kung fu com uma colega, com quem divide aspirações feministas para a evolução da sociedade brasileira, é apresentada ao universo do BDSM (o sexo com práticas sadomasoquistas) e passa por uma transformação em que enfrenta ranços sexistas. Laureada na Berlinale de 2017 com o Prêmio da Crítica por “Pendular”, Julia vai concorrer com 16 produções de diferentes países, incluindo o trabalho mais recente do mestre russo Aleksandr Sokurov: “Fairytale”.

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