‘Fracktura’ na zona de conforto do videoclipe

‘Fracktura’ na zona de conforto do videoclipe

Rodrigo Fonseca

15 de maio de 2019 | 02h41

Rodrigo Fonseca
Em tempos de Cannes, no dia da projeção de gala de “Bacurau” e de homenagem ao artesão do horror John Carpenter na Croisette, a única coisa capaz de tirar nosso foco das telas da Côte d’Azur é uma experiência audiovisual capaz de desafiar fronteiras de linguagem entre variadas mídias, como é o caso do visceral videoclipe dirigido por Diogo Oliveira pra a banda americana Fracktura, de Ohio. Lançado nesta quarta-feira no YouTube, a nova experiência narrativa do realizador de “O homem que matou John Wayne” (obrigatório .doc sobre Ruy Guerra) se chama “Gold Spectrum” e mistura elemento de HQs (Bone), de circo, de dança, de videoarte e de um tipo de cinema capaz de trançar as franjas do Tempo e do Espaço numa reflexão sobre o ridículo na condição humana, sobre o vazio. Bem como se vê em cults de Guerra, como “Estorvo” (2000), mas numa grafia com toques existenciais. O Armazém da Utopia, no Cais do Porto (RJ), foi o local escolhido para a gravação e serve como teatro de batalha para um tipo de experimento que usa o fogo como norte de afeto perdido.

Neste momento em que se debate sobre o legado que os clipes deixaram para as novas gerações, em tempos em que não se fala mais da MTV como um bunker, Diogo invade um segmento 100% cinematográfico e o liberta de suas convenções mercadológicos em prol de uma busca livre pelo assombro, numa montagem lúdica de Beatriz Ohana. Realizado pela produtora Engenhoca Filmes, este haical é fotografado por Nicolau Saldanha.

Qual o legado estético do videoclipe entre as narrativas audiovisuais nestes tempos de YouTube e streaming, e de que maneira o trabalho do Fracktura ressalta a força poética dessa mídia, outrora esculpida pela MTV?
Diogo Oliveira: Fui adolescente na segunda metade da década de 90, e acompanhava pela MTV os clipes que eram produzidos, especialmente das bandas de rock das quais era fã. Os clipes eram variados mas tinham uma coisa em comum: a tentativa de uma narrativa mais livre e poética, tendo como grande destaque, na minha opinião, Michel Gondry (um dos mais brilhantes e inovadores diretores da atualidade). Portanto, por ter vivenciado essa ebulição de clipes, tenho forte influência de tudo isso. Mas ao mesmo tempo tento entender e desconstruir essas influências pra que não me prenda num formato( filme, série, clipe, video arte etc), acho que reduz a criatividade ver em formatos. Arte não é salsicha que se pode enlatar, a arte transborda e alarga fronteiras. Pra mim tudo é imagem e som em movimento. Sendo então, a alegria maior deste trabalho, filmar e criar sobre uma música que estimula e me propõe um rico universo de criação.

Qual foi a busca narrativa que orientou esse projeto e que elementos do surrealismo ou do real te guiaram?
Diogo Oliveira: Minha busca nesse projeto, assim como em todos os outros, é de de criar uma fissura na noção de realidade, ir além da consciência cotidiana. Tentando sobrepor os estados de sonho e realidade, de certa forma como no surrealismo, mas sem negar as exigências da lógica e da razão no processo (na verdade acredito ser fundamental, mesmo que seja lógica e razão próprias do universo diegético da obra), neste caso ao contrário dos surrealistas. Tenho como bússola sempre a desvirtuação do real (é preciso transver o mundo, já dizia Manoel de Barros) para que a imagem venha então a se tornar um potente vetor para o imaginário do espectador. Sendo assim, minhas referências para esse clipe vem de vários lados. Como em todo trabalho meu tenho como bússola David Lynch, Peter Greenaway, Ruy Guerra, Harmonie Korine, Michel Gondry. Todos esses sendo também atravessados por Manoel de Barros, Gabriel Garcia Marques, Max Ernst, Francis Bacon, André Breton e Friedrich Nietzsche. Para este trabalho específico me debrucei estudar as máscaras teatrais, mais especificamente as Larvárias, me encantando de imediato. Desse caldeirão poético de referências parte minha construção.

Quanto de Ruy Guerra tem nesse projeto?
Diogo Oliveira: Ruy é meu mestre. Me desenhei como cineasta dentro de suas provocações e ideias em nossos trabalhos juntos. Tenho uma sorte muito grande de ter podido absorver esse mundo de possibilidades estando ao lado do maior cineasta da história deste país. Em todo e qualquer trabalho que eu faça a figura de Ruy e suas ideias estarão sempre presentes.  Diogo Oliveira

p.s.: Nesta quarta-feira, o delicadíssimo “Antes que eu mês esqueça”, produção com dedos e afetos de Carlos Saldanha (“A Era do Gelo”), estrelada por José de Abreu, com o trapalhão Dedé Santana no elenco, vai ser exibida em Cannes, no Marché du Film.  A direção é de Tiago Arikilian. “É um filme sobre lucidez e sobre novas formas que as famílias buscam para lidar com os parentes que estão perdendo o controle da própria memória”, diz Arakilian, lembrando que seu filme passou em 33 festivais no mundo e ganhou 15 prêmios.

p.s.2: No dia 21 de maio, em Paris, na Salle Grad Action, a lendária revista Positif organiza uma projeção em tons de homenagem de “Batman, o retorno” (1992), considerado por muitos a obra-prima de Tim Burton, numa projeção seguida de debate com Pierre Eisenreich.

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