Folia com os Irmãos Dardenne

Folia com os Irmãos Dardenne

Rodrigo Fonseca

14 de janeiro de 2020 | 10h08

RODRIGO FONSECA
Tempo de folia, o Carnaval brasileiro vai se fantasiar de realismo, numa reflexão sobre o risco do fundamentalismo religioso, com a chegada “O Jovem Ahmed” (“Le Jeune Ahmed”), dos diretores Luc e Jean-Pierre Dardenne, ao circuito, no dia 20 de fevereiro. Os irmãos belgas que reinventaram a representação do real e do naturalismo na construção de contos morais – vide “O Garoto da Bicicleta”, 2011 – saíram de Cannes com o prêmio de melhor direção graças a este filme-debate sobre leituras equivocadas do Alcorão. Idir Ben Addi tem uma atuação perturbadora no papel de um fiel do Islã que, no furor hormonal da adolescência, abraça o extremismo religioso a um preço alto. “Existem atitudes, aparentemente corriqueiras, que, num estalar de dedos, pode destruir uma vida. Este filme é uma análise desses gestos e dos desastres a ele inerentes, numa revisão das angústias de juventude”, disse Luc ao Estadão, em Cannes, quando já parecia ciente do compromisso que terá com a imprensa mundial neste fim de semana, para falar sobre o novo filme e sobre a produtora que mantém com Jean-Pierre, Les Films du Fleuve, que já viabilizou sucessos de público tipo “Eu, Daniel Blake” (2016) e “Ferrugem e Osso” (2002).

Embalado pelo sucesso na Croisette, “O Jovem Ahmed” vai ser um dos assuntos debatidos, a partir de quinta-feira, no 22º Rendez-vous Avec Le Cinéma Français. Esse nome soa pomposo para fazer jus ao evento a que se refere: um fórum promocional idealizado para atrair os holofotes mundiais para a nova safra da França no audiovisual. Toda a vitalidade e a diversidade de gêneros dos franceses em circuito serão celebradas de 16 a 20 de janeiro em Paris.”Há muita diversidade no cinema europeu hoje. E o nosso foco é estudar a dramaturgia da vida real. Nossa ideia de humanismo passa por uma reflexão dos valores morais que geram exclusões, submissões e ódio”, disse Luc ao P de Pop. “A medida plástica do Real vem da lucidez na dosagem da luz, no empenho de não estilizá-la”.
Ele tem 65 anos e o irmão, 68. Os dois são mestres de uma linguagem realista nas raias do documental, que deu a eles duas Palmas de Ouro – conquistadas por Rosetta, em 1999, e por A Criança, em 2005 – além de cerca de 50 prêmios em seus currículos, cujo maior sucesso recente foi “Dois Dias, Uma Noite”, pelo qual Marion Cotillard concorreu ao Oscar de melhor atriz, em 2015. Sem abrir mão da reflexão social sobre exclusões econômicas e étnicas que caracteriza sua obra, a dupla carrega o novo filme de tintas de afetuosidade – um dos tópicos deste Rendez-vous.

Estima-se a presença de cerca de 100 artistas, entre atrizes de fama mundial, galãs queridos por plateias de múltiplas línguas e cineastas de veia autoral: entre os quais o mestre das narrativas sociológicas Robert Guédiguian (com o inédito “Gloria Mundi” para lançar) e a sensação dos anos 1990 Julie Delpy (que acaba de dirigir o drama “My Zoe”). Ambos vão passar pelo painel de tendências estéticas concentrado no Hotel Le Collectionneur, na Rue de Courcelles. Lá será a sede da 22ª edição do Rendez-vous, realizado anualmente pela Unifrance. Esse é o órgão do governo da França responsável pela manutenção e promoção da indústria audiovisual. A cada ano, a Unifrance promove um encontro reunindo cerca de 400 distribuidores de todo o planeta para divulgar prováveis sucessos de bilheteria e experimentos narrativos com fôlego para desafiar as convenções cinematográfica.

Até domingo, emissários de 81 filmes vão passar pelas ruas parisienses, batendo ponto no Le Collectionneur, para um papo com cerca de 450 distribuidores e 120 jornalistas de 49 países, revelando as tendências que hão de mobilizar espectadores no planisfério cinéfilo. “Hors Norme” é um dos estandartes desta edição não apenas por toda a popularidade de Cassel e Kateb, mas pela grife popular em seus créditos de direção: Éric Toledano e Olivier Nakache. Foram eles que, em 2011, dirigiram “Intocáveis”, dramédia que vendeu cerca de 20 milhões de ingressos, sendo refilmada na Argentina e nos EUA e sendo adaptada como peça para os palcos brasileiros (como Marcelo Airoldi e Ailton Graça). Fala-se muito ainda de “Mama Weed”, de Jean-Paul Salomé, com Isabelle Huppert no papel de uma tradutora de árabe que trabalha, secretamente, como espiã. Esse é um dos títulos esperados para a 70ª Berlinale também. O Rendez-vous ainda deve mandar para Berlim a comédia de costumes “La bonne épouse”, de Martin Provost, sobre o sexismo nos anos 1960, com Juliette Binoche.

Um dos títulos mais esperados do evento é Sibyl, de Justine Triet. Estrela do momento no cinema francês, Virginie Efira (de “Um Amor à Altura”) gravita com elegância do trágico ao hilário no papel de uma terapeuta às voltas com uma paciente com os nervos em frangalhos: uma atriz (Adèle Exarchopoulos, de “Azul é a cor mais quente”) cujo namorado traiu sua confiança. Sibyl (Efira) precisa atender a moça no meio de um set de filmagem onde tudo ameaça dar errado. Inclusive a psicóloga. Indicada à Palma de Ouro, a produção é um trabalho de maturidade da badalada realizadora de “Na cama com Victoria” (2016). Sua reflexão sobre inadequação resvala na poesia.

p.s.: Melhor do que saber que Spike Lee será o presidente do júri do Festival de Cannes (12 a 23 de maio) é imaginar que ele vá sair dessa função diretamente para a briga pelo Leão de Ouro de Veneza (e para o Oscar) com “Da 5 Bloods”.

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