‘Folhas de Vidro’: Poeira de Édipo

‘Folhas de Vidro’: Poeira de Édipo

Rodrigo Fonseca

26 de outubro de 2019 | 09h10

Barry, na visceral atuação de Thiago Magalhães, abraça o irmão Steven, que o Rock Hudson Alexandre Varella representa como sendo um edifício sólido em sua edipiana maledicência de monopolista de afetos: “Folhas de Vidro” em cena no Teatro Poeira

RODRIGO FONSECA
Roland Barthes
(1915-1980) é um dos muitos fantasmas que sentam ao nosso lado na plateia de “Folhas de Vidro”, espetáculo teatral com recheio líquido de amores que evaporam, sob a direção (claustrofóbica) de Michel Blois e Alexandre Varella: o semiólogo de “A câmara clara” (1980), com sua sanha iconoclasta de desnudar signos, é quem mais pipoca no empenho que a dupla de encenadores tem em descascar aparências apodrecidas. Um desabafo em especial de Barthes salta ao peito: “Como pessoa ciumenta eu sofro quatro vezes: por ser ciumento, por me culpar por ser assim, por temer que meu ciúme prejudique o outro, por me deixar levar por uma banalidade; eu sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum”. É mais ou menos essa a relação entre os irmãos Steven e Barry, originalmente vividos por Ben Whishaw e Trystan Gravelle na primeira montagem desse texto de Philip Ridley, lá na Inglaterra, terra natal dele, em 2007, no Soho Theatre, quando o multiartista londrino de 55 anos estabeleceu-se como um dos pilares da “Dramaturgia In-yer-face”. Essa corrente, que tem como pilares Sarah Kane, Mark Ravenhill e Anthony Neilson (de quem Varella montou o gástrico “O censor”, de 1997), estabelece-se sobre o desnudar das convenções, adotando a franqueza (no limite da indelicadeza) como procedimento de investigação das relações. E, aqui em “Leaves of Glass” (corruptela gramatical de “As folhas de relva”, de Walt Whitman, a pedra fundamental da poesia de língua inglesa), ser franco é deixar vazar o trauma de relação entre irmãos que se vê acossada pela ciumeira semiótica barthesiana.

Steven, empresário vivido por Varella no trânsito fluido entre Presente e Passado, tem um nó desatado em relação à vontade de potência do maninho artista, Barry, que Thiago Magalhães defende a unhas sujas de vômito e tinta acrílico, numa visceralidade que incendeia o palco do Teatro Poeira. São atuações que se complementam, ventiladas por sopros femininas de uma voltagem distinta, mas duplamente inquieta e inquietante. De um lado, sopra-se uma brisa de temperatura volátil… a da grávida Debbie, mulher de Steven e cunhada de Barry, inflamada pelo olhar Elizabeth Taylor de Cecilia Hoeltz (em estado de graça). Suas pupilas marejadas pela afirmação de uma nova vida (vida esta que o marido parece não desejar com convicção) radiografa a decadência das relações familiares a seu redor. A outra brisa é bafo quente: o vulcão Carla Ribas, naquela erupção autoral que lhe é peculiar, tacando fogo no abismo entre o abraço que deixou de ser um abrigo entre os dois irmãos fraturados por um pretérito imperfeito. Carla é a mãe… a Mãe…. é algo que Steven enreda para si como parte de seu patrimônio afetivo, num monopolismo que empurra o maninho alcoólatra para o precipício da autossabotagem.

Escrito a bile por Ridley (realizador do excepcional longa-metragem “Marca da vingança”, de 2009, com Jim Sturgess, que Varella deveria encenar aqui), “Folhas de vidro” estuda um Édipo que é capaz de manipular situações traumáticas para convencionar posses. Já na chegada da Mãe-Ribas (soberana) em cena, em meio a copos, taças e notícias da chegada de um neném, nota-se o amálgama entre ela e Steven. Um beijo é o selo do monopólio. O Steven agudo de Varella sabe disfarçar bem sua soberania sobre o ventre de onde saiu mimando o irmão. Irmão esse que, bêbado, vomita parte do abuso sexual que sofreu quando menino. Um abuso que… parece… pode ter sido forçado e pode não ter sido denunciado pela Mãe. Ao falar de Barry, ela deslinda a tinta rala em seu sangue, ao falar da aprovação do filho para um curso universitário: “Não é o entrar que conta na vida; é o permanecer”, gargareja ela, no som e na fúria de La Ribas. Com a tinta da voz amendoada de Magalhães, Barry pinta e desenha ecos de seu carma, em forma de rostos trágicos, de gritos de Munch que sua mãe detesta. Ele, afinal, é nervo exposto e ferida aberta… a marca de sarampo de um pai que morreu congelado no frio de um jogral doméstico. Um jogral onde se brinca de eliminação.

Em sua retidão Rock Hudson de pisar firme, Varella nos edifica Steven como um prédio de alicerces bem fincados… os alicerces de quem manipulou a areia e o cimento de uma família em cacos… como o vidro trincado do título. Blois e ele dão ao público uma direção na raia da explosão… na sensação de que o prédio firme que Steven é vai sucumbir à fricção das placas tectônicas de um Ontem que há de cobrar seu preço. Um Ontem que não suporta meias verdades, por ser franco, nos fragmentos do discurso amoroso de que falava Barthes: “Toda a recusa à linguagem é uma forma de morte”. Na arte burguesa do “não falar”, o clã de Barry e Steven morre em vida diante de nós, num espetáculo fúnebre que rende, ao Poeira, um cortejo dionisíaco, de bocas secas e atuações que se completam e se potencializam.
“Folhas de Vidro” fica em cartaz até de 3 de novembro, no Poeira, de quinta a domingo, num empenho de afinação plena desse elenco em estado de fúria. É uma perseverança que gera poemas em forma de encenação. Ridley está muito bem defendido.

p.s.: Na madrugada de sábado para este domingo, a TV Globo exibe, às 2h30, o brilhante drama “Mr. Turner”, de Mike Leigh, que deu a Timothy Spall o prêmio de melhor ator em Cannes em 2014. Inédita no circuito comercial brasileiro, a produção narra a saga do pintor JMW Turner e sua obsessão pelo Sol, astro a quem via como sendo um deus.

p.s. 2: Neste sábado, tem maratona Truffaut na Cinemateca do MAM, com os filmes “A história de Adèle H.”, às 14h; “As duas inglesas e o amor”, às 16h30; e “A sereia do Mississipi”, às 19h.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.