‘Fogo no Mar’: a cota dos refugiados no Oscar 2017

‘Fogo no Mar’: a cota dos refugiados no Oscar 2017

Rodrigo Fonseca

26 de fevereiro de 2017 | 12h10

“Fogo no Mar”: Urso de Ouro em 2016, candidato ao Oscar deste ano

RODRIGO FONSECA
Nesta noite de Oscar, na qual a ala mais combativa do cinema americano – apoiada por boa parte da comunidade cinematográfica mundial – vai expor seu nojo em relação ao presidente Donald Trump, o tema dos refugiados políticos vai estar representado, e muito bem, por um dos concorrentes ao prêmio de melhor documentário: Fogo no Mar (Fuocoammare). Pouco se fala dele neste momento, mas este longa já levantou muita poeira e papou muitas láureas.

 Fogo no mar fuocoammare

Com cerca de 6 mil habitantes dedicados, em sua maioria, à agricultura e à pesca, sob as bênçãos das águas do Mediterrâneo, a Ilha de Lampedusa, no sul da Itália, entrou a partir deste sábado, 13 de fevereiro, no imaginário do planisfério cinéfilo ao se tornar palco (e objeto) do filme mais aplaudido da Berlinale 2016, laureado ao fim dela com o Urso de Ouro. É, desde já, o longa-metragem mais comentado (e elogiado), tendo chegado à capital alemã com uma faixa de “Já ganhou”, por dar voz, carne e dor ao assunto do momento na cidade – e, quiçá, no planeta – a condição dos refugiados políticos. Nascido na Eritreia, na África, sob nacionalidade italiana, o diretor Gianfranco Rosi despontou aos olhos da mídia já com o prestígio em alta, por conta do respeito que conquistou mundialmente após receber o Leão de Ouro, em Veneza, em 2013, por Sacro GRA. Mas sua respeitabilidade tende a aumentar em função do debate que seu novo documentário inflamou em território germânico. E não é só afinação com uma discussão oportuna: é um trabalho de estrutura narrativa arrebatadora. É poema e denúncia.

“Existe uma tragédia ocorrendo neste momento diante dos nossos olhos e somos todos responsáveis por ela”, disse o cineasta de 51 anos na Berlinale.

Construído como uma colcha de retalhos sobre situações cotidianas de Lampedusa, Fuocoammare define para si uma espécie de protagonista: o menino Samuele. Aos 12 anos, sempre com um estilingue em punho, ele desfruta da paisagem mediterrânea ao seu redor comendo espaguete com lula, subindo em árvores, escalando formações rochosas e acompanhando, com uma ingenuidade quase infantil (tão infantil quanto a nossa) a chegada contínua de africanos que se refugiam naquele oásis insular. Alguns chegam feridos, muitos ficaram doentes, quase todos estão esfomeados. Ouvem-se gritos, choros, lamentos em línguas distintas. Samuelle incorpora a tragédia como se fosse parte de seu dia a dia. Uma onda a mais no mar. A alienação é retratada por Rosi em respeito ao universo lúdico de sua idade. Sabemos quem ele é, entramos em sua casa, participamos de sua brincadeira.

O mundo de Samuel tem pouco mais do que 20 quilômetros quadrados. Mas cabe o Mundo com o “M” de todas as maldades relativas à exclusão naquele cantinho céu. Com planos-sequência de uma elegância formal rara, o filme dialoga com toda a tradição neorrealista da Itália para mostra uma “cidade aberta” ao holocausto da expatriação. Há camadas diversas no documentário. Platôs a serem escalados com calma (e com prazer) ou, por vezes, com horror. Mas o diretor não se deixa flertar com o sensacionalismo. Suas imagens não são signos fechados. Há uma reflexão nova a cada plano. Assim como Samuelle tem suas idiossincrasias, como o fato de sentir uma falta de ar paranóica, o longa vai revelando as nossas, em relação ao altruísmo e a negligências silenciosas, cometidas sem a nossa consciência.

 

 

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