‘Fogaréu’ arde no peito da Berlinale

‘Fogaréu’ arde no peito da Berlinale

Rodrigo Fonseca

17 de fevereiro de 2022 | 09h06

Fernanda (Bárbara Colen) encara o assombro do coronelismo em Goiás no longa de Flávia Neves, que integra o Panorama da Berlinale 2022

Rodrigo Fonseca
Embevecido pela vitória de “Manhã de Domingo”, de Bruno Ribeiro, agraciado com o Prêmio do Júri na Berlinale Shorts, o cinema brasileiro vem surpreendendo a 72ª edição do festival alemão – que segue até domingo, agora em versão aberta ao público – com um experimento dramatúrgico no timbre do thriller mas com alicerces etnográficos bem fincados: “Fogaréu”. Realizadora estreante, Flávia Neves (diretora da série.doc “Amanajé, o Mensageiro do Futuro”) assina a direção desse longa com a grife Bananeira Filmes (do premiado “Medusa”, que fez barulho em Roterdã, em janeiro). Goiás hoje explode em telas berlinenses numa trama que assombra em sua habilidade de destrinchar desigualdades fundiárias do Centro-Oeste do Brasil, especialmente aquelas ligadas à pecuária, com uma exclusão gradual da propriedade indígena. Taquicárdica, sua montagem, assinada por Will Domingos e Waldir Xavier (também responsável pelo desenho de som), pontua um ritmo nervoso, que vai crescendo cena a cena, dando a uma cartografia do coronelismo um clima de suspense quase hitchcockiano. Suspense capaz de favorecer situações que avançam pelo terreno do chamado “extraordinário”, com chamas que brotam misteriosamente. Tudo é guiado pelo périplo de uma mulher, Fernanda (Bárbara Colen, de “Bacurau”) que regressa à paisagem goiana, em tempos da Procissão do Fogaréu, um rito católico de capuzes, a fim de cobrar de seu tio, Antônio (Eucir de Souza, em uma arrebatadora composição), a verdade sobre sua mãe biológica. Pouco a pouco, atolada em tradições locais, e na descoberta da tendência local de casamento entre primos, ela vai conhecendo novas formas de se institucionalizar o medo – mas também de desafiá-lo. De uma forma inusitada, o roteiro enxuto, escrito por Flávia e Melanie Dimantas, dá ao espectador uma heroína, que Bárbara constrói sempre nas franjas da resiliência. O longa é um destaques da seção Panorama e pode sair dela com a láurea do júri popular, neste domingo.

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