Flup: o axé modernista de Mãe Janayna

Flup: o axé modernista de Mãe Janayna

Rodrigo Fonseca

17 de fevereiro de 2022 | 07h02

Mãe Janayna Lázaro encanta a Festa Literária das Periferias com seu trabalho de acolhimento

Rodrigo Fonseca
Em seu empenho de desmistificar a Semana de 22, discutindo a relevância de artistas negras e negros para a formação da brasilidade, a Festa Literária das Periferias (Flup) avançou rumo ao barracão do firmamento habitado por orixás e levou para o Museu de Arte do Rio (MAR), em uma sacada brilhante do curador Julio Ludemir, uma Ialorixá que vem redefinindo a noção da religião como um lugar de solidariedade (e de estética) em solo carioca: Mãe Janayna Lázaro. Respeitada nas mais variadas latitudes do país, por saber “Do Santo”, como dizem(os) os candomblecistas, Janayna alcançou notoriedade na geografia do Rio de Janeiro por um feito que vai além de rezas, de banhos, de bênçãos e ebós: sua casa, em São Cristóvão, na Zona Norte, virou um espaço de acolhimento para atrizes, atores, musicistas, performers, poetas. Jovens que chegam ao Rio, com tostões no bolso, quilos de sonhos no coração e desígnios de fé a serem cumpridos cruzam com o caminho de Mãe Janayna e acabam sendo “adotados” em seu lar. Um lar onde trabalham voluntariamente em prol da proteção das tradições africanas e engatam uma campanha antirracista. Um lar que usam como base para idealizar projetos que se transformam em filmes, peças, concertos. É a Casa de Maceió, batizada em referência à pombajira que guia Mãe Janayna, seu companheiro (o talentosíssimo bailarino e percussionista Alexandre Fão) e suas crias. Entre elas estão a atriz Simone Kalil, a cantora e atriz Blackyva e o ator e escritor Daniel Chagas. Ludemir, que há 20 anos deslumbrou a prosa nacional com seu seminal romance “No Coração do Comando”, deu a Mãe Janayna uma ribalta para enaltecer as potências criativas das populações negras pelas veredas da divindade. E ela o fez com a lindeza e a generosidade que lhe são peculiares. Bênção!

Esta tarde, na Flup, tem contação de histórias com Luciana Nabuco, às 19h, no MUHCAB – Museu da História e Cultura Afro-Brasileira. No MAR, às 23h15, tem o show Bonde das Maravilhas. O evento termina nesta sexta, quando o MAR acolhe, das 17h às 18h30, a mesa de debates “Heranças da Pequena África”, reunindo Tom Farias, Eduardo de Assis Duarte e Ynaê Lopes dos Santos, sob a mediação de Rossi Alves. Este ano, o evento ainda meteu outro golaço ao escalar uma das mais talentosas cineastas do país, Sabrina Fidalgo, para umaa seleção curatorial e para mediações. O evento há de reverberar.

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