Flup: Jean-Pascal Zadi manda sua letra

Flup: Jean-Pascal Zadi manda sua letra

Rodrigo Fonseca

07 de novembro de 2020 | 09h14

Campeão de bilheteria na Europa, o rapper e cineasta francês Jean-Pascal Zadi fala sobre a dimensão de espetáculo da palavra neste domingo, às 21h, na Flup

Rodrigo Fonseca
Responsável por uma das mais sólidas bilheterias da França neste 2020 pandêmico, ao levar 800 mil pagantes pra rir com “TOUT SIMPLEMENT NOIR”, o rapper, ator e (cada vez mais) cineasta Jean-Pascal Zadi vai espalhar sua voz bem-humorada, mas alerta à exclusão racial, Brasil adentro a partir de uma fala na Festa Literária das Periferias (Flup). Aos 40 anos, o multiartista nascido em Bondy, no nordeste de Paris, filho de um casal da Costa do Marfim, vai soltar seus verbos de ação no último colóquio da série #FlupPeloMundo, em entrevista à jornalista Rokhaya Diallo, neste 8/11 (amanhã), às 21h. O conteúdo gratuito e exclusivo no YouTube e Facebook da Flup. No cardápio de especiarias sociológicas que a dupla vai oferecer ao público do evento pilotado pelo escritor Julio Ludemir (autor do seminal romance “No Coração do Comando”), vai ter reflexão sobre como driblar o racismo no Velho Mundo; vai ter discussão sobre a mescla de linguagens do rap com o audiovisual e uma geral dos efeitos da covid-19 nas geografias mais periféricas da capital francesa. Envolvido na direção desde 2010, quando lançou “African Gangster”, Zadi cria em “Tout Simplement Noir” uma cartografia de resiliências ao narrar a aventura de um ator para organizar uma marcha de contestação aos conflitos raciais. Ele divide a direção com o fotógrafo John Wax. E, na entrevista a seguir, ele explica ao Estadão suas inquietações.

Você integra uma leva em expansão de cineastas negras/os da França que alcançaram prestígio interno e externo ao longo dos últimos dez anos. Mas que desafios nomes como Mati Diogo, Ladj Ly, você e outros encontraram para afirmar seu olhar na atual estrutura cinematográfica francesa?
Jean-Pascal Zadi:
Não somos muitos, ainda. Muitas são as pessoas que acreditam poder ser cineastas mas não encontraram meios de filmar. Esse racha entre o “vir a ser” e o fazer é grande, mas eu pude resolvê-lo por meio do rap, pelo vidoeclipe, pela música, antes de entrar no espaço da direção de longas. A minha influência como artista vem muito mais dos rappers dos EUA, dos que fizeram uma efetiva música de protesto, como Tupac Shakur, Public Enemy.

Onde que o rap e o cinema se conjugam na sua produção?
Jean-Pascal Zadi:
Eu crio filmes a partir do roteiro, sempre. Mas eu não escrevo pensando na trama em si, e, sim, no combate que ela fomenta, naquilo que tenho a defender. O rap é o lugar onde você conjuga metáforas fortes ao mais descritivo dos realismos. A interseção entre o rap e a imagem se dá pela palavra e pelo ritmo. Não existe hoje, no trabalho que eu faço, no país de onde venho, outro jeito de se combater o racismo, se não pelo combate que a palavra engatilha. Eu venho de uma pátria em que a polícia para gente negra na rua todo dia.

E onde cabe o humor num contexto desse, uma vez que a comédia parece ser o seu gênero por excelência?
Jean-Pascal Zadi:
Eu cresci numa periferia pobre. O que nos reunia, quando crianças, eram os programas de humor na TV. E esse tipo de discurso cômico talhou o meu modo de narrar. Temos uma tradição forte de comediantes aqui, com Éric Judor, Fabrice Éboué, Jonathan Cohen.

Domingo é dia de sua fala na Flup, com a jornalista Rokhaya Diallo, hoje uma das mais talentosas entrevistadoras do mundo. Que referências você tem do Brasil, de nossos poetas como Emicida e de nosso cinema?
Jean-Pascal Zadi:
Eu preciso te confessar que conheço mesmo os craques de vocês, por gostar muito de futebol: o Neymar, o Ronaldo, o Roberto Carlos. No cinema tem algo bonito: a França passou anos acreditando que o Brasil era o que as telenovelas mostravam até que chegou “Cidade de Deus” e, depois, “Cidade dos Homens”. Ali mudou tudo. Ali, pela primeira vez, nós, negros franceses, olhamos algo do Brasil em que indetificamos gente como a gente vivendo como a gente.

Que projetos você conseguiu desenvolver em meio à pandemia e como realizá-los agora em meio ao novo confinamento da França?
Jean-Pascal Zadi:
Eu lancei “Tout Simplement Noir” assim que as salas de cinema reabriram, após o primeiro confinamento. Quando tudo fechou, pensei que seríamos muito prejudicados, mas a pandemia deu pra gente uma chance rara de reflertir sobre nosso modo de viver, sobre quem somos e quem nos tornamos. Eu tenho agora um filme novo… uma comédia na qual faço um policial. Mas ainda é cedo para falar dela.

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