‘First Cow’ enfim em nossos cinemas

‘First Cow’ enfim em nossos cinemas

Rodrigo Fonseca

09 de junho de 2021 | 21h25

Rodrigo Fonseca
Sucesso de crítica por onde passou, e põe lugar nisso, “First Cow – A Primeira Vaca da América”, novo filme de Kelly Reichardt, estreia nesta quinta, dia 10, em salas de cinema do Rio, São Paulo, Brasília e Porto Alegre e simultaneamente nas plataformas digitais Now, Oi Play, Vivo Play, Google Play, iTunes e Youtube Filmes. Passado no século XIX, a trama do longa é baseada na amizade de Otis Figowitz (John Magaro), um cozinheiro viajante, e de King-Lu (Orion Lee), um imigrante chinês. Enquanto Figowitz viaja com um grupo de caçadores, ele conhece King-Lu e passa a ajudá-lo secretamente, dando início a uma amizade genuína e muito especial. Ambos se unem em um perigoso esquema para roubar leite de uma premiada vaca local – a primeira e única em todo o território de Oregon. A partir do dia 9 de julho, o longa vai estar também na MUBI, ao alcance do www.mubi.com.
Inimiga declarada do sexismo, Kelly passou o último mês de dezembro a comemorar uma conquista de peso para esse seu western gourmet foi coroado pelo New York Film Critics Circle como sendo o filme mais potente de 2020. “É a história de foras da lei que roubam leite, se é que isso pode ser considerado algo ilícito, mas é também a história de pessoas que vão daqui pra ali, sem muitos solavancos, como acontece todo dia com a gente”, disse a cineasta em entrevista ao P de Pop na Berlinale 2020.

Kelly Reichardt nos sets

Aplaudido publicamente pela primeira vez em agosto de 2019, em Telluride, este elogio à solidariedade entre culturas distintas amoleceu corações em sua passagem pela disputa ao Urso de Ouro, onde Kelly citou a atriz e diretora Ida Lupino (1918-1995) como um dos pilares do filão. Ida dirigiu vários episódios de “Paladino do Oeste”, entre 1959 e 1961, além de “O Homem de Virgínia”, em 1962. “Citam Ford, citam Hawks, citam Leone, mas Ida… E ela foi grande. Sempre esquecem de Ida, embora ela tenha criado uma identidade particular em sua forma de retratar um universo de lealdade e ação. Vivemos sob uma égide de homens brancos no gênero. Mas eu tentei desmistificar essa representação abordando o signo feminino da terra, em figuras ligadas à luta pela sobrevivência”, disse Kelly ao Estadão, em Berlim. “Cresci num ambiente distante da badalação midiática de Los Angeles, na Flórida, e aprendi por lá o pensamento de ser periférica aos discursos oficiais. O trabalho de montadora, de analisar imagem após imagem, até encontrar a mais simbólica, é algo que me move”.
Estrela da cena indie dos Estados Unidos, respeitada por filmes como “Movimentos noturnos” (2013), Kelly foi jurada em Cannes, em 2019, onde criou controvérsias ao questionar o culto à virilidade expressa em “Era Uma Vez Em Hollywood”, com Brad Pitt subindo um telhado sem camisa. Ela se declarou contrária a representações que objetifiquem corpos. Seu “First Cow” – calorosamente aplaudido na capital alemã – rejeita tratar pessoas como objetos. Na coletiva de imprensa do evento germânico, ela estava ao lado do ator Orion Lee. Ele é um dos protagonistas deste faroeste sem bangue-bangue: o já citado imigrante chinês King-lu, que trava uma relação de trabalho e amizade com o comerciante de peles Cookie (John Magaro), também previamente mencionado. Os dois passam a fazer um exótico bolinho usando o leite roubado da vaca de um inglês rico (Tony Jones). Esse roubo vai colocar a dupla em apuros
“Sou responsável pela montagem desse filme, sempre buscando imagens que contemplem a natureza e que demarquem o mundo menos urbanizado onde estamos instaurados. Edito meus longas-metragens sempre atenta à força de imagens que desafiem lugares comuns. O faroeste tem um código tão forte, e foi tão explorado nas telas, que faz tudo parecer já visto, já batido. É como se estivéssemos diante de convenções que se tornaram instituições. Meu desafio era explorar aqueles códigos familiares sob perspectivas que ainda não foram vividas, como as relações de afeto entre amigos”, disse Kelly, que evitou duelos ou troca de tiros.

Sem qualquer conexão com a natureza épica de John Ford (“Rastros de Ódio”) ou com a aposta na violência do spaghetti western de Sergio Leone, Sergio Corbucci e outros mestres, “First Cow” investe mais no estudo dos escambos e do comércio que alimentavam a América no fim do século XIX e no início do século XX.
“Estamos cercados por imagens do que é bruto. Eu sei que sou uma cineasta que sempre se repete, na forma ou em situações temáticas, mas é uma repetição que emula a vida. A mitologia calcada em pistoleiros passa pela História dos EUA de uma maneira submissa à violência, que sempre precisa ser desconstruída”, disse Kelly. “É necessário revermos os personagens que construíram nosso passado e repensar o ódio”.

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