#fiqueemcasa com Ken Loach

#fiqueemcasa com Ken Loach

Rodrigo Fonseca

30 de março de 2020 | 00h14

Ken Loach aos 39 anos, durante a filmagem da minissérie “Days of Hope”, em 1975

Rodrigo Fonseca
Em meio à batalha contra o coronavírus, na peleja da quarentena, Ken(neth Charles) Loach, aos 83 anos, abriu seu canal no YouTube (https://www.youtube.com/user/KenLoachFilms) para seus fãs, dando acesso (0800) a quase 50 anos de militância maxista e gramsciana no audiovisual. Seu último trabalho, “Sorry We Missed You” (“Você Não Estava Aqui”) saiu do circuito nacional (que fechou) à força da pandemia. Constam de seu canal pérolas como “Up The Junction” (1965), “The Rank and File” (1971) e “The Price of Coal” (1972).
“Eu observo. Minha câmera é testemunha de reflexões que meus atores – mais ou menos experientes na prática de atuar – fazem acerca de problemas universais que eu apresento a eles. E parto de pesquisa na escrita dos scripts, feita pelo meu parceiro Paul Laverty. Ao observar, eu enquadro o Real e o analiso”, disse o realizador inglês em entrevista de 2016, quando recebeu a Palma de Ouro por “Eu, Daniel Blake”, hoje disponível na grade da Netflix.
Tem dois longas-metragens dele no Globoplay: “Jimmy’s Hall” (2014), com o deslumbrante desempenho de Barry Ward na luta contra o moralismo, e “A Parte dos Anjos”, dramédia de tons etílicos que deu a Loach o Prêmio do Júri em Cannes, em 2012.

Cena de “A Parte dos Anjos”, que integra a grade do Globoplay

Eis aqui cinco filmes imperdíveis para desbravar a obra do diretor:
“Rota Irlandesa” (2010): Mais parecido com um (bom) filme de ação hollywoodiano, à la Jason Bourne, este thriller discute a “mercantilização da guerra” e, para isso, parte da opção cada vez mais em voga de governos, como o dos EUA, de utilizarem mercenários autônomos em missões de intervencionismo em solo estrangeiro, em vez de seus próprios militares. Mark Womack brilha no papel de Fergus, um desses soldados de aluguel que refuta as explicações acerca da morte de seu melhor amigo em combate. Concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2010.

“Mundo Livre” (2007): Laureado com o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Veneza, este ensaio investigativo sobre os males morais do desemprego consagrou a atriz de TV Kierston Wareing, aqui em seu primeiro papel de protagonista na telona. Ela interpreta Angie, jovem sem trabalho que arruma um veio de renda rentável ao se tornar uma agente de empregos para imigrantes estrangeiros (sobretudo os ilegais);

“Ventos da Liberdade” (2006): Esta reconstituição da guerra de libertação da Irlanda, em sua luta contra a opressão inglesa, rendeu a primeira Palma de Ouro de Loach e confirmou o prestígio de Cillian Murphy como ator. Ele encarna Damien, médico que comandou a briga pela autonomia republicana da Irlanda, em 1920, ao lado de seu irmão (e futuro algoz) Teddy (Pádraic Delaney).

“Singing the Blues in Red (Fatherland)” (1986): Precioso retrato das relações sociais nos tempos de Guerra Fria, este drama com elementos musicais concorreu ao Leão de Ouro em Veneza e saiu de lá com o prêmio da UNICEF. Nele, Loach explora os conflitos de um músico e cantor da Alemanha Oriental disputado pelas gravadoras dos EUA. Klaus (o ótimo Gerulf Pannach) não se alinha com o jugo comunista em sua pátria natal, mas tampouco aceita os ditames capitalistas da indústria da música.

“Kes” (1969): Marco do cinemanovismo (movimento que modernizou a linguagem audiovisual, engajando o cinema a transformações políticas e comportamentais e renovando sua forma) na Inglaterra, esta crônica sobre amadurecimento venceu o Festival de Karlovy Vary, em solo tcheco, um dos mais prestigiados da década de 1960. A trama segue a educação sentimental de Billy (David Bradley), menino de classe operária que adolesce tendo um falcão como melhor amigo.

#KenLoach #KES

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