‘Fim de festa’, um ‘Veludo Azul’ tropical atlântico

‘Fim de festa’, um ‘Veludo Azul’ tropical atlântico

Rodrigo Fonseca

18 de dezembro de 2019 | 13h27

Policiais investigam a morte de uma francesa num Recife pós-Carnaval em “Fim de Festa” – @Victor Jucá assina as fotos

Rodrigo Fonseca
Relógios de pulso são mais do que marcadores de tempo para o policial federal pernambucano Breno Wanderley, o protagonista do noir com fragrância de lança-perfume “Fim de festa”, um dos roteiros mais sofisticados da Première Brasil do Festival do Rio 2019, que termina nesta quinta: G-Shocks à prova d’água são afivelados e desafivelados por ele na medida de algum desconforto afetivo, algum sopro no coração. Ver o filho, Breninho (Gustavo Patriota), vencer o prêmio principal de um concurso de contos e compartilhar um baseado com ele são coisas que aliviam seu pulso, que o levam a afrouxar a pulseira. Mas algo nesse exercício literário do menino promove nele um movimento de “vou de volta” a uma memória, da qual sabemos pouco, mas que um podcast sensacionalista chamado Dracma, insiste em tatear, em uma metonímia de um erro do passado, uma desmesura qualquer do trabalho na PF. Dizem a ele, durante um inquérito, que sua fama de “quebrador”, de “quebra-muros”, precede sua atual e resiliente conduta. Mas não é uma questão, para o (envolvente) filme de Hilton Lacerda, saber com precisão o que ele fez e o impacto disso sobre Breninho. Há um crime corrente no Recife que exige a saída de Breno Wanderley de suas férias: o assassinato por asfixia de uma gringa, uma imigrante francesa. É a bússola… do tira… deste “Veludo azul” com orelhas ligadas nos zumbidos de uma cidade em clima de Quaresma… e de um Estado que olha para imigrantes endinheirados a partir de uma ótica burocrática. É um Kafka tropical atlântico, no qual Gregor Samsa não precisa se metamorfosear em barata: o desamparo vai ser o chinelo que há de esmagar Breno Wanderley. E entre silêncios, observações, tiradas azedas (como a reclamação pelo uso indevido de seus shorts) e esporros dignos de Al Pacino, o Quaderna Irandhir Santos faz dele a Pedra do Reino de um Brasil sebastianista, suja com o sangue (no olho) de quem busca verdades em nome do dever.

Micareta de quereres

Entre os muitos bons filmes da competição nacional de ficções do 21º Festival do Rio (“M8 – Quando a Morte Socorre a Vida” é seu achado), “Fim de Festa” se impõe pela escrita aguda, com ecos de David Lynch não em sua mirada mais surrealista, mas por sua estranheza na crônica de costumes de diferentes classes sociais, que vão entrando numa (sutil) colisão. Lacerda trouxe de seu pombajírico “Tatuagem” (2013) um tom dionisíaco na celebração do sexo como instância de liberdade e a percepção de que a lealdade tem uma dimensão trágica. Há algo de leal entre os primos Breninho e Penha (Amanda Beça, de precisa ironia) e o casal baiano Indira (Safira Moreira, capaz de sarcasmos pontuais) e Ângelo (Leandro Villa, um achado, em sua atuação reflexiva). O segundo é focado em Emma (Maria Barreira), francesa morta a pauladas. Eles vivem num prazer a quatro, numa cumplicidade exponenciada pela leveza e pelo gozo. Breninho tem lá suas questões (silentes) com o pai, mas é leal a ele, ajudando-o em sua investigação do crime contra a francesa.

Vemos esse vértice desse quadrilátero recifense de incongruências morais sob a ótica de um casal de visitantes: ela, vivida pela espoleta Suzy Lopes (dona de um humor singular, testado já em “Bacurau”), é brasileiro; ele é francês, e seu intérprete é o ás da distribuição Jean Thomas Bernardini, da Imovision. O filho dela (Ariclenes Barroso) é o viúvo da estrangeira morta. Mas há algo de podre nesse reino onde Hamlet não tem pais para vingar. Príncipe dessa Dinamarca mestiça, Breno Wanderley tem que driblar convenções legais e advogados de retórica torta para saber o que aconteceu.
Nessa jornada, o policial vai rever que é, o que fez e o lugar onde vive, com toda sua riqueza humana, pontuada por um carnaval que passou, construído na fotografia de Ivo Lopes Araújo sem saturações. Pedacinho colorido de saudade, o confete faz isso por ele, satura os quatro dias de folia que termina em morte e convida a um enfrentamento da esfinge da hipocrisia. Filme maduro, sensual, com participações luminosas (como a de Hermila Guedes, num papo com Irandhir-Breno) e escrito nas raias do alarmismo diante dos abismos de nossa sociedade.

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