Filmin, uma pérola portuguesa, com certeza

Filmin, uma pérola portuguesa, com certeza

Rodrigo Fonseca

19 de julho de 2020 | 11h13

O Céu da cinefilia atende na www: filmin.pt; lá tem “Cavalo Dinheiro”, de Pedro Costa

Rodrigo Fonseca
É de se lamber os beiços o cardápio da Filmin, plataforma de VoD portuguesa independente que coloca muito streaming classe A no chinelo com sua programação de cults, a se destacar a presença de Pedro Costa, com “Cavalo Dinheiro” (2014) e “Vitalina Varela” (Leopardo de Ouro em Locarno, em 2019). Vá em filmin.pt pra ser feliz. Só a seleção de curtas lusos deles é de babar, com animações de Regina Pessoa (“A Noite”) e José Miguel Ribeiro (“Viagem a Cabo Verde”) e .docs como “Balada de um Batráquio”, que deu o Urso de Ouro a Leonor Teles em 2016. Nos longas-metragens, há, fora as pérolas de Costa, a trilogia “As 1001 Noites” (2015) e “Tabu” (2012), de Miguel Gomes; o obrigatório “Monsanto” (2000), de nosso Ruy Guerra (filme pouco conhecido aqui); as três joias mais reluzentes da grife espanhola Victor Erice: “O Espírito da Colmeia” (1973); “O Sul” (1983); e “O Sol do Marmeleiro” (1992); e “Asas” (1966), feito na URSS pela genial Larisa Shepitko (1938-1979). Ela foi uma das principais influências para “Aquarius” (2016). Dela, o bunker lusitano de expressões autorais inclui ainda “Tu e eu” (1971) e “Ascensão” (1976). Vale ainda um destaque para o thriller chinês “Carvão Negro, Gelo Fino”, que conquistou o Urso dourado em 2014.

Um dos destaques da produção portuguesa em 2019, indicado ao Leão de Ouro de Veneza e exibido em Toronto, “A Herdade”, de Tiago Guedes, também integra a Filmin, que nasceu de uma iniciativa de colaboração e diálogo entre os operadores cinematográficos portugueses (distribuidores, produtores), críticos, festivais e instituições culturais de Portual e do exterior. Atualmente eles promovem uma retrospectiva do alemão Wim Wenders, com sete longas, a incluir “Paris, Texas”, a Palma de Ouro de 1984.

p.s.: É madrugada de Norman Jewison na TV Globo: à 0h19, tem Hurricane – O Furacão (1999), que deu a Denzel Washington sua quarta indicação ao Oscar, além de ter garantido a ele o Globo de Ouro, por sua memorável performance na pele do boxeador Rubin “Hurricane” Carter (1937-2014). No auge de sua forma, após 27 vitórias em 40 lutas, ele foi preso, em 1966, sob a (falsa) acusação de triplo homicídio, num caso clássico de racismo. Em 1974, ainda atrás das grades, ele publicou um livro sobre a injúria que sofreu, chamado “The Sixteenth Round”, e teve sua história celebrizada numa canção de Bob Dylan. Seu relato autobiográfico atraiu o olhar de uma célula militante canadense, que interferiu judicialmente para conseguir sua liberdade. Jewison, que tem no histórico libelos contra o preconceito, como “A História de um Soldado” (1984), também com Denzel, retomou sua parceria com o astro para dar vida a saga de Rubin. Laureado na Berlinale com o Urso de Prata para Washington e o prêmio anual do Sindicato de Exibidores de Filmes de Arte da Alemanha, o longa – que custou US$ 50 milhões e faturou US$ 73 milhões – traz, no Brasil, um desempenho memorável de Garcia Júnior dublando Hurricane. Seu maior algoz, o policial Della Pesca, encarnado por Dan Hedaya, ganhou aqui a voz nobilíssima de Carlos Seidl, o Seu Madruga. Dá pra ver o longa no Globoplay também.

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