Filme sobre Eleanor Marx encanta Moscou

Filme sobre Eleanor Marx encanta Moscou

Rodrigo Fonseca

27 de abril de 2021 | 10h55

Romola Garai vive Eleanor Marx (1855-1898) em longa indicado ao Leão de Ouro e, agora, convocado para o maior festival da Rússia

RODRIGO FONSECA
Aplausos russos hão de inflamar a romana Susanna Nicchiarelli, merecidamente, frente a toda a beleza de seu “Miss Marx”, selecionado para vitrines paralelas do 43º Festival de Moscou, cuja cota de brasilidade fica por conta do seriado “Os Últimos Dias de Gilda” e pelo longa “A Vida Invisível”. A curadoria é assinada pelo diretor Nikita Mikhalkov. Egresso de Veneza cheio de moral (mas sem prêmios), o irregular, mas denso tratado sobre empoderamento feito por Susanna tem uma estrutura clássica de “rito de formação heróico”, assumindo Eleanor (encarnada em uma vibrante Romola Garai) como uma vigilante das causas sociais. Com vasto cabedal em tradução, ela avança pelo sufragismo, pela peleja em prol das melhorias da vida fabril e pela contestação das vicissitudes de uma união afetiva. Tem um traço romântico de fervor no desenho que Susanna dá a ela, ressaltado na composição de Romola. E essa ferocidade se acentua (e eleva nossa pressão) quando o longa se permite ser pós-moderno, quebrando quartas paredes, apostando em rock pesado, usando danças… Fora isso, um certo classicismo por demais objetivo trava o andamento do que poderia ser um tratado da rebeldia. Mas há beleza nessa forma de narrar… se há.

Nesta quinta-feira o Festival de Moscou chega ao fim, assolado pela invenção à cubana de “Corazón Azul”, o mais inquieto dos concorrentes ao Golden Saint George já exibidos aqui, com direção de Miguel Coyula, cineasta nascido em Havana há 44 anos, que desenvolveu o potente longa (com pinta de distopia) num período de dez anos, com um orçamento de US$ 10 mil. Nos EUA, só curtas são feitos com esse valor. Apoiado no talento da atriz Lynn Cruz, o diretor cria uma Cuba futurista, onde experimentos genéticos empreendidos por Fidel Castro (1926-2016) tinham como objetivo gerar uma linhagem de pessoas fisicamente perfeitas. O experimento dá errado e essas “criaturas” desenvolvem neuroses, formando uma espécie de célula anarquista. Para narrar esse “THX 1138” no Caribe, seu realizador apela para formatos narrativos inusitados, misturando documentário, animação de estética japonesa e ficção, sem pagar dízimo ao realismo. “Você tem o direito de ser crítico ao regime no audiovisual cubano desde que não mencione nomes. Se falar em Fidel, cai numa lista de malditos”, diz Coyula ao P de Pop, via Zoom, da Rússia. “Este filme fala de pessoas que, ao sofrerem um experimento social caem num tipo de autismo que os desconecta da realidade”.

Musical finlandês, Le Café de mes Souvenirs” encerra a maratona moscovita nesta quinta

Numa seção intitulada Mestres, o recorte curatorial de Mikhalkov prestigiou a evolução da atriz Julie Delpy como cineasta ao escalar seu novo trabalho por trás das câmeras: “Minha Zoe, Minha Vida” (“My Zoe”). É um drama sobre uma geneticista às voltas com uma tragédia envolvendo sua filhinha, tendo que viajar Rússia adentro em busca de um médico eslavo que pode ajuda-la. Prometido como filme de encerramento das atividades moscovitas, o musical finlandês “Le Café de mes Souvenirs”, do ator Valto Baltzar, pode arrancar baldes de lágrimas de quem tem acompanhado o evento online – e presencialmente – com sua homenagem a Jacques Demy (1931-1990) e à sua obra-prima na direção: “Os Guarda-Chuvas do Amor” (Palma de Ouro de 1964). No longa de Baltzar, fotografado com excelência por Kimmo Koskela, uma garçonete vive uma paixão por um professor de Francês, sendo boicotada por sua mãe controladora.

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