Filme mexicano crítico à burocracia é a maior surpresa do circuito brasileiro

Filme mexicano crítico à burocracia é a maior surpresa do circuito brasileiro

Rodrigo Fonseca

07 Agosto 2016 | 11h07

“O Monstro de Mil Cabeças”, uma das melhores surpresas do circuito brasileiro em dias olímpicos, comprova a vitalidade autoral mexicana nas telas

RODRIGO FONSECA

Tem uma joia mexicana em cartaz nos cinemas brasileiros e ela merece o máximo de barulho não só por seu ritmo sufocante e pela denúncia da burocracia nos seguros de saúde (muito próxima da nossa), mas por ser uma aula de desapego em relação às fórmulas de roteiro: O Monstro de Mil Cabeças, de Rodrigo Plá. Ele é conhecido aqui por Zona do Crime (2007). Um dos nomes de maior consistência formal de seu país nas telas, ao lado de Carlos Reygadas (Post Tenebras Lux) e Amat Escalante (Helí), Plá arquiteta um arranjo geométrico que nos gera desconforto – e, por isso mesmo, bota o público para pensar – ao narrar o ato desvairado de uma mulher para conseguir um tratamento médico para o marido. Numa atuação hipnótica, é Jana Raluy (uma atriz já quarentona, de fartos recursos dramáticos) quem nos conduz por uma trama de trapalhadas (sem humor) na cruzada de uma esposa às voltas com a potencial morte de seu marido. Laureada nos festivais de Havana e Varsóvia, jana serviu como ímã de prêmios (foram 12 ao todo) para este longa-metragem, egresso do Festival de Veneza de 2015, cujo enredo evoca Um Ato de Coragem (2002), de Nick Cassavetes, no qual Denzel Washington invadia um hospital para conseguir um transplante para o filho.

13 treze O Monstro de Mil Cabeças Rodrigo Plá

O que salta aos olhos aqui é a mecânica narrativa encontrada por Plá ao longo de 74 eletrizantes minutos. Num trecho deles, duas meninas descem em um elevador para curtir uma balada à mexicana. Pouco sabemos sobre elas, fora o fato de que uma tem mania de deixar marcas de batom do espelho do ascensor. E pouco saberemos, pois elas serão apenas testemunhas aleatórias para o plano desesperado de Sonia Bonet (o papel de Jana): usar uma arma para ameaçar os diretores de uma seguradora a firmar um ok para que se custeie a medicação de seu marido. Sonia leva o filho adolescente consigo, impondo sua entrada com uma pistola tipo magnum 45. No início, o descaso de uma funcionária com ela – galvanizado por uma hora de espera – deflagra seu desespero em se armar e cobrar o que é seu.

O filho adolescente de Sonia embarca na cruzada da mãe

O filho adolescente de Sonia embarca na cruzada da mãe nesta trama de ritmo febril

Assim como as gurias do elevador, um atendente de loja de conveniente, um porteiro e um recepcionista de clube serão testemunhas do caso. Porém, também saberemos pouco sobre quem são eles. Essas figuras servem mais como entes narrativos do que como personagens, embora tenham uma participação ativa no desenrolar dos atos de Sonia. Só ouviremos algo de significativo deles no tribunal no qual Sonia será julgada, do qual tomamos consciência não por intermédio de imagens, mas de sons. Há uma banda sonora que se torna uma instância de narração paralela. E esta instância desdramatiza o que vemos (sem nunca esvaziar o coeficiente trágico do filme), a fim de gerar um distanciamento. Plá não quer que vejamos Sonia como heroína. Ele não busca uma identificação por ferramentas clássicas, ele cava distanciamento e, a partir dele, busca análise crítica. E o alvo aqui são as políticas institucionais.

É muito mais um filme sobre o México de hoje (ou, quiçá, toda a América Latina atual), em seu desamparo social, do que um filme clássico de jornada heróica. De uma solidez invejável, O Monstro de Mil Cabeças põe em xeque o perspectivismo padrão do nosso cinema, trazendo abordagens paralelas sobre um mesmo fato que se expressam pela sensorialidade.

Para este fim de semana, está agendado no Brasil mais uma estreia do México: a animação Cantando de Galo, dirigida por Gabriel e Rodolfo Riva-Palacio Alatriste. A trama é centrada na luta de um frango para salvar seu galinheiro de um rancheiro mau.

Mas a lista de atrações hispano-americanas deste ano, em nosso circuito, engloba um leque maior de nações. Confira alguns títulos e eventos:

Kóblic Darín RD

Kóblic, de Sebastián Borensztein: O diretor o blockbuster Um Conto Chinês volta a unir forças com Ricardo Darín agora num thriller carregado de adrenalina sobre um piloto, na Argentina de 1977, que se revolta contra a ditadura. Sua fotografia é um primor. Previsão de estreia nacional: 15 de setembro

“Viva”, de Paddy Breathnach

Viva, de Paddy Breathnach: Cuba volta aos espaços de exibição do Brasil nesta febril reflexão familiar, rodada em coprodução com a Irlanda, que traz uma atuação seminal de Jorge Perugorría (de Estorvo). Galã nos anos 1990, ele volta aqui mais envelhecido, no papel de um boxeador que tenta retomar a relação com filho, cujo sonho é ser um ídolo dos shows de transformismo. Previsão de estreia nacional: 25 de agosto

“O Silêncio do Céu”, de Marco Dutra

O Silêncio do Céu, de Marco Dutra: Uma das atrações mais esperadas da competição do Festival de Gramado (26 de agosto a 3 de setembro), este novo trabalho do diretor de Quando Eu Era Vivo (2014) junta talentos argentinos classe A como o do galã Leonardo Sgaraglia. Ele e Carolina Dieckmann dão vida ao drama de um casal que se atomiza depois que ela é vítima de uma violência. Entre eles, parece haver silêncio demais e troca de menos. Previsão de estreia nacional: 22 de setembro

“Clever”, atração da mostra Cine Uruguai

Uma atração obrigatória para quem segue as inovações latinas nas telas é a mostra Cine Uruguai, que vai de 9 a 21 de agosto, na Caixa Cultural – Rio de Janeiro, montada sob a curadoria da cantora Tamy. Estão na lista de atrações imperdíveis do evento: a comédia Clever, ganhadora do último Cine Ceará, e a animação Anina (2013). A abertura, nesta terça-feira, traz o cult Mataron a Venancio Flores, de 1982.